Longe de Casa é um convite para você sentar-se confortavelmente na cabine de uma bicicleta-táxi e se deixar levar pelas ruas de Londres e da Europa. Dando o rumo dessa aventura, um estudante brasileiro de 21 anos que resolve dar um tempo de sua rotina em Porto Alegre e, junto com alguns colegas de faculdade, abrir a cabeça para novas experiências de vida no Velho Mundo. Se você procura um guia de viagens sobre a Europa e Londres, talvez este blog possa lhe ser um bom thriller de aventura. Para quem quer divertidos contos, de repente se depare com boas indicações musicais. E se você é um jovem que também pensa em passar por uma experiência em algum lugar no exterior, o que você encontrará aqui não apenas lhe fará rir ou trará boas dicas turísticas, sobre bandas e cantores: além de informação e entretenimento, os posts deste site aos poucos tentarão lhe mostrar uma outra maneira de enxergar as coisas. A maneira como alguém de 21 anos encara a vida longe de casa: aprendendo sempre.

30 de dezembro de 2008

22.ª e 23.ª SEMANAS: Depois do Natal, arrumar as malas

Escrevo nesta quinta, agora já sexta, para dar as últimas palavrinhas do ano. Esta semana não acabou ainda, mas tomo liberdade de dizer que esse e-mail é da semana passada – 22.ª – juntamente com essa.
Depois do baita susto, o qual relatei sinteticamente no último e-mail, tudo deu certo: o cara devolveu minha câmera e a história acabou com final feliz. Semana passada foi muito boa. Especial, eu diria. Por dois motivos principais: o Renato, meu ex-colega de engenharia que está estudando em Marselha, veio para Londres passar a semana e o Natal aqui com a gente. Mundial! Pra começar, na terça-feira, que era aniversário dele, fomos - Renato, Chico, Marcus, Lelo e eu - na Pizza Hut e lotamos a barriga daquelas pseudo-pizzas que eles fazem aqui. Foi emocionante! Obviamente, não pela pizza; relembrei nossos saudosos almoços no Armazém do Sabor ou em outro buffet qualquer com a galera da faculdade reunida... Aquele clima de parceria mesmo. E então esse almoço foi a mesma coisa, só que na Pizza Hut de Piccadilly Circus, em Londres! Tinha o Lelo como variável de ruído, visto que não provém da engenharia, e faltou o André, que ainda não havia chegado de viagem. Mas ficou 6 por meia dúzia.

Almoço na Pizza Hut

Daí o Renato passou a semana aqui e no sábado fizemos um festão de Natal aqui em casa. Tava muito bom, e em todos os sentidos! Comida excelente, um formoso pudim de leite de “overtable”, a melhor companhia de todas, música pra vizinho nenhum não reclamar, enfim, uma truly ceia de Natal entre amigos, loucura total. Muito Jorge Ben e Jack Johnson na caixa, a galera toda bebendo e se divertindo, e a parte que eu mais gostei: todo mundo cantando aos berros – e eu não só gritando como dançando sozinho no meio da sala, que cena... – para tentar acompanhar o violão! Sim, porque no nosso Natal teve até violão, e ligado no amplificador! Meu amigo, classmate e housemate Gabriel e eu puxamos a palheta e tiramos um som. Do arco, como diria meu pai.

Nosso memorável Natal

Bom, o que acontece é que os caras aqui na Inglaterra fazem do Natal o seu carnaval. Não no sentido de fazer tanta festa. Isso não, na real eles nem fazem festa na véspera e ficam o dia 25 todo em casa. Aí que está o problema: no dia 25 não tem ônibus, nem metrô, nem nenhum transporte coletivo. Simplesmente a cidade pára e todo mundo passa o dia em casa talvez rezando com o Papai Noel. No dia 26 é feriado também, chamado Boxing Day... E tem mais, no dia 27 é feriado bancário, ponto facultativo. Carnaval, não falei?
Mas daí, por causa disso, aconteceu uma coisa realmente engraçada. Na nossa festinha aqui em casa tinha umas 20 pessoas, algumas das quais eu sequer conhecia. O que aconteceu foi que, no domingo, dia 25, quando acordo, já passado e muito o meio-dia, saio da quarto, vou chegando na sala e ouço uma barulheira. Quando vejo, a maioria dos convidados da nossa festinha ainda tava aqui. E então a nossa casa, pelo menos durante dois dias, virou uma coisa meio Novos Baianos, algo assim. As pessoas passaram o domingo inteiro aqui, dormiram de novo, e só na segunda voltaram para suas respectivas moradas. Segundo palavras que ouvi de alguém, o nosso Natal tava parecendo casamento de parente do interior.

Cenas do Natal insano


Mas então na segunda-feira, o Marcus, o André e o Lelo saíram de viagem para Holanda e Bélgica. Essa viagem foi decidida há muito tempo, e na época achei melhor não ir, pois além de já conhecer os locais para onde eles queriam ir, pensei que essa última semana do ano pudesse ser muito busy, o que renderia uma boa grana. Mas no fim da semana passada já estava arrependido. Como eu tinha passagem pra Paris comprada para sexta-feira, só poderia trabalhar 3 dias na semana - terça, quarta e quinta. E então vi que não seria um bom negócio, pois o valor que eu teria que pagar pelo aluguel da bike seria o mesmo que pago para usá-la a semana inteira. Falta de planejamento. Mas paciência, tive que trabalhar... E tava difícil! Na verdade só trabalhei um dia e meio. Na terça, apesar do frio, deu pra ganhar um dinheirinho e pelo menos cobrir o aluguel da semana. Além disso, terça-feira teve um gostinho especial, pois foi meu primeiro dia de trabalho com neve; bonito mesmo. Mas na quarta foi a noite mais fria do ano, segundo a TV, e daí eu tive que jogar a toalha. Fiquei uma hora parado em Leicester Square sem pegar um cliente, num frio até então sem precedentes. Voltei pra casa.
Essa semana teve um gostinho especial, pois trabalhei menos e tive a chance de acordar antes e sair de casa antes. Isso pode parecer uma simples questão de horário, mas faz uma grande diferença, pois pude ver o sol. E por incrível que pareça fazia tempo que eu não tinha a chance de ver Londres em plena luz do dia. No meu horário habitual de estudante-trabalhador, saio de cada pelas duas e meia e o sol está se pondo. Pego o metrô e quando chego ao centro para aula já está ficando escuro. E essa semana vários dias tive que sair mais cedo para resolver algumas coisas – compras – e realmente adorei! É como se eu tivesse me sentido novamente turista em Londres. Wonderful.

Eu e minha bike, na noite mais fria do ano

Neve na nossa rua


Mas a semana foi passando, o mês foi passando e sim, o ano passou! Vem chegando mais uma vez um novo ano e com ele todas as vontades e desejos de novo. Porque somos assim, o que não conseguimos no que passou, sempre queremos no que está vindo. E como é bom que assim seja. Dia desses recebi um pensamento, supostamente do Drummond, o qual eu já havia lido outrora. Diz assim:

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número, e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente."

("A genial idéia de fatiar o tempo"-Carlos Drummond de Andrade)

E como todos os anos, vêm os derradeiros 30 e 31 de dezembro. Aqueles dois dias em que a grande maioria de nós, porto-alegrenses natos ou adeptos, arruma seus apetrechos numa correria danada e toma o rumo da Freeway, nossa mais querida estrada, aquela que os gaúchos no fundo acham que é a melhor estrada do mundo. E então vem a estrada do mar, naquela cadência, aquele calor, uma paradinha clássica no Maquiné ou em outra tendinha qualquer, e segue o baile. Alguns sobem mais, pra terras de além-fontreira; outros sentem-se orgulhosos de ir para nossas praias, daquele mar de chocolate, e então ali passam o ano-novo com seus amigos, família, cachorro e toda aquela coisa que se repete todo ano. E que é tão bom.
Mas então hoje ou amanhã, dois últimos dias do ano, enquanto vocês tiverem arrumando os porta-malas, eu estarei neste ano fazendo uma coisa diferente. Estarei arrumando minha mala para tomar o rumo da cidade-luz: Paris!
Acho que até antes de chegarmos aqui em Londres eu às vezes já comentava com as pessoas a respeito do grande sonho que eu tinha de passar o ano novo lá. Then, chegamos aqui e o sonho foi aumentando, compartilhado com outras pessoas que criaram o mesmo desejo, e no fim ele vai se realizar! Depois de muitos diálogos e convites, fui convencendo meus amigos, que foram convencendo os nossos outros amigos e no fim seremos quase 15 brasileiros, de diferentes lugares, que se encontrarão em Paris para uma verdadeira festa de ano novo. E sabem onde vai ser essa festa? Obviamente que vai ser na rua. Seja ao lado da Torre Eiffel, na Champs-Elysées, margem do Sena, I don't care. Onde for será maravilhoso! Como diz o Rafa, acompanhados apenas de champanhes nacionais. Pois sim, tomarei champanhes vindas donde? De Champagne! Mas a companhia será a melhor parte, só a galera mais parceira, seja os que vieram comigo ou os que aqui conheci.
E não quero que pareça que estou me exibindo, a minha intenção não é contar vantagem. Apenas estou absolutamente feliz por pensar que hoje, uma sexta-feira à tarde, estarei aqui em Londres tomando o rumo de Waterloo Station, para lá pegar o trem que 3 horas depois me deixará direto no centro de Paris. E assim acho que fecho meu ano, que foi um tanto atípico, com chave de ouro, prestes a passar por talvez um dos melhores momentos da minha vida: o réveillon em Paris!
E para deixá-los informados sobre meus planos de viagem, fico em Paris até o dia 5, quando o André, Marcus e eu alugaremos um carro e viajaremos pela França, chegando em Nice no dia 10. Daí me separo deles e vou para Marselha, encontrar novamente o grande Notórius Renato, onde serei recebido em sua residência por a coulpe of days. Dia 12 então pego um trem direto a Milão, onde dia 13 é chegado o grande dia de rever as 3 mulheres da minha vida: minha irmã, minha mãe e minha vó! E com elas ficarei passeando pela Itália até o dia 29 de janeiro, quando pegaremos o vôo para Londres. De volta a esta cidade, com elas ficarei até o dia 3 de fevereiro, quando retornam para o Brasil e eu retorno à minha realidade de estudante-trabalhador. Nada mal.
Durante todo esse tempo não pretendo mandar e-mails. Ou seja, vocês descansarão de mim durante mais de um mês. Mas não se preocupem que quando voltar provavelmente terei algumas histórias pra contar. Daí mando as edições atrasadas de uma vez só.
Desse ano que passou tenho só grandes recordações. Acho que não me equivocaria em dizer que foi o ano mais importante da minha vida. E vocês acompanharam quase a metade dele, através de meus relatos talvez por vezes chatos, mas sempre sinceros. Cada um tem seus desejos pro ano que chega. Acho que o meu é apenas que tudo continue como está. Tenho pela frente ainda mais meio ano de Europa, e tudo que quero é que tudo dê certo como deu até agora. E que a segunda metade de 2006, já com vocês aí no Brasil, seja maravilhosa também!
Espero que cada um tenha seus desejos e os veja realizados. Talvez não todos, para que daqui um ano possamos parar e lembrar novamente do Drummond. Um grande abraço, daqueles apertados da meia-noite da virada, com muita saudade de todos,

Thomas

20 de dezembro de 2008

2.ª METADE DA 21.ª SEMANA, E QUE SEMANA!

Screenplay da semana que passou:

Segunda-feira: Rod Stewart's concert. Já devidamente descrito em e-mail anterior.

Terça-feira: Um dia como qualquer outro. Aula e trabalho.

Quarta-feira: Coldplay's concert. Vide último folhetim.

Quinta-feira: Saí da aula e fui dar uma olhada em algumas lojas da Oxford Street, a principal rua de comércio de Londres. Cada cidade tem a sua; em Porto Alegre sem dúvida é a Rua da Praia - saudade dela -, em Londres é a Oxford. Acabei me alongando um pouco e lá pelas 8 e meia fui para a base pegar minha rickshaw. Como os meus planos eram só começar a trabalhar pelas 10, jantei meu sanduíche com calma ainda na garagem, e depois saí. Eram nove e meia, e na verdade eu queria começar direto na saída de algum teatro, provavelmente seria o Rei Leão. Passei então numa ruazinha que há perto da minha escola e que está toda iluminada por razões natalinas. Aproveitei que eu estava com o tripé e a câmera e parei para tirar uma fotos, já que todos dias eu passava por lá e pensava que aquilo merecia uma sessão.


Sicilian Avenue

Era quase dez, guardei o tripé, a câmera, e fui em direção ao Lion King, que termina as 22:15. No meio do caminho tinha um Sainbury´s, o Zaffari deles, e me lembrei que eu precisava comprar alguns leites condensados. Quem me conhece bem já deve estar pensando: "O Thomas e sua paixão incontrolada por leite condensado". Mas na verdade eu nem estava comprando para mim. É que no dia posterior, sexta-feira, haveria uma festa na minha aula, pois o meu professor estava para sair de férias e marcou uma festinha. O combinado era que cada um levasse alguma coisa de seu país. Daí eu achei legal a idéia de fazer negrinho pros meus classmates. Pois era quase dez e o super-mercado estava quase fechando. Deixei a minha bicicleta do outro lado da rua, ao lado de Holborn Tube Station, e fui lá comprar os leites condensados. Quando deixo a porta do Sainsbury's e atravesso a rua em direção a minha bicicleta, cadê ela? Alguém a tinha roubado, e com todas minhas coisas dentro. E agora José? Eu costumo ser um cara que tenta manter a calma em horas mais complicadas, mas confesso que foi bem difícil. Não me perguntem por que, eu também não sei, mas o modelo da minha rickshaw é mais caro que um carro. O preço dela é aproximadamente 3 mil pounds! Acho que agora vocês entendem o porquê de meu desepero. E ainda tinha a minha mochila com o discman, a câmera e minha carteira dentro, o tripé, que eu tinha comprado algumas semanas antes para tirar fotos noturnas, além de muitas roupas que costumo deixar na bicicleta para dias de chuva e afins. Tudo isso estava dentro de um compartimento que existe na bike, e esse compartimento estava sem o cadeado. Assim como a bicicleta. Eu havia deixado a bicicleta apenas "estacionada" na rua, sem locker nenhum, só o freio engatado. Por quê? Porque eu sou muito, mas muito babaca!
Tentei controlar o meu descontrole enquanto ligava para a polícia, para os meus chefes e para quem mais pudesse me ajudar. Logo apareceu um guarda por lá e fez o registro da ocorrência, mas não muito mais que isso. Eu não conseguia falar nem com os meus chefes nem com o mecânico da minha compania, todos com o celular aparentemente desligado. Liguei para o Marcus, que já estava na rua trabalhando, disse o número da placa da minha bicicleta e pedi que ele avisasse aos outros riders sobre o ocorrido. Pelo menos assim de repente alguém poderia cruzar com o "ladrão". Pois é: o que um ladrão faria com um rickshaw? Boa pergunta. Apesar de ser uma coisa cara, ele não poderia vender no “mercado negro de rickshaws". Ou será que aqui existe o Paraguai das rickshaws... I don't think so.
Mas vou escrever um parágrafo só para que vocês entendam o tamanho do problema que eu tinha criado e, logo, o tamanho do cagaço. Além do valor da bike - cujo seguro eu não sabia se cobria roubo ou não - e de todas minhas coisas já citadas, dentro da minha carteira ainda havia o cartão da minha conta bancária daqui, a minha carteira de motorista e o meu cartão que uso para metrô e ônibus. O cartão do banco até não tinha tanto problema pois não era de crédito, e obviamente para movimentação de dinheiro precisaria da senha. Mas a carteira de motorista é importantíssima para mim, pois é obrigatório o porte para os riders. E como eu faria uma nova carteira aqui? O cartão do metrô eu pago mensalmente e é bem carinho, mais de 50 libras. Também havia o fato de que sem bicicleta eu provavelmente não poderia trabalhar essas duas últimas semanas do ano, talvez as melhores no rickshaw business. Além de tudo isso, talvez a pior coisa de todas era a sensação de culpa. Porque se tu tem um carro, vem alguém e te assalta à mão armada, não há o que fazer. Paciência. Mas se tu tem perda total do carro porque estava bêbado e se perdeu numa curva, é muito diferente. Do you understand what I mean? E tudo isso passava pela minha cabeça ao mesmo tempo.
Depois de fazer o registro com o guardinha, o que pensei? Well, vou começar a procurar a bike nas redondezas do local que ela foi roubada. Afinal o mais óbvio era que o ladrão a largasse em qualquer lugar por perto e "apenas" pegasse os meus pertences que lá estavam. E assim fiquei por mais de uma hora, dando voltas e procurando em todos os becos por volta de Holborn Tube Station. Em vão. Já era quase meia-noite e eu não sabia mais o que fazer, completamente apavorado. Não conseguia nem avisar meu chefe, dono da bicicleta. Já tinha tentado encontrar alguma câmera de segurança apontada para o local do crime, mas nenhuma havia; já tinha avisado vários riders que tinham passado por mim... E então começou a chover, resolvi ir pra casa. Pelo menos se era pra chorar que fosse em casa. Mas antes fui até a base, pois havia deixado lá uma mala que havia comprado na Oxford depois da aula.
Entro na garagem, vou em direção à minha mala, a qual havia deixado num canto. Dou de cara com a minha rickshaw! Lá, paradinha, intacta, perfeitamente estacionada! A primeira coisa que faço é abrir a portinha e procurar minha mochila, que estava lá! Minha carteira estava lá! Meu discman, exatamente no bolso da mochila que sempre fica. Minha câmera? Essa não estava... Revisei algumas vezes, estava tudo exceto a câmera. Na seqüência um dos meus chefes aparece de repente. E eu com um sorriso incontrolável pergunto para ele o que havia acontecido. Cômica a situação, e vocês já vão entender por quê.
Um rider de outra compania tinha encontrado a minha bike no meio da rua, em um local supostamente perto de onde eu tinha deixado. O cara achou estranho a bike no meio da rua, sem nenhum rider por perto, e rebocou-a até o Covent Garden. Existe uma maneira de uma bicicleta rebocar a outra, mas obviamente é muito pesado, pois cada uma pesa uns 50 ou 60 quilos. O cara havia feito isso. Ele não era da mesma empresa que a minha, mas sabia qual era minha empresa pela placa, então pediu para que outro rider da minha compania ligasse para o meu chefe. Daí meu chefe foi lá e pegou a bicicleta. Tudo isso aconteceu no tempo que eu estava dando voltas e voltas pra ver se encontrava minha bike. Agora vocês entendem porque cômico. Porque quando vi a minha bike lá fique muito feliz, e nisso o meu chefe, que devia tá muito brabo, chega lá e eu pergunto: "What happened?" Foi então ele me explicou tudo isso. Na verdade ele tava bem light, "fly", por assim dizer. Até acho que ele, colombiano nato, tinha abusado de uma aguardiente. Just a guess.
Bom, depois disso fui pra casa pensar em tudo que tinha acontecido, realmente abalado psicologicamente. E apesar da perda da câmera, eu sabia que tinha que ficar feliz, afinal tinha sido só a câmera. E realmente, quase ironicamente, eu tinha acabado de perder minha tão amada câmera mas estava feliz.
Fiz o pior negrinho da minha vida. O negócio começou a queimar com dois minutos de panela. Uma coisa inacreditável. Tenho quase certeza que foi o chocolate em pó, pois o leite condensado é da Nestlé e é realmente igual ao meu tão querido Leite Moça. Pra vocês terem idéia, hoje é segunda e a panela ainda está na cozinha com água dentro, pois ainda não consegui tirar o queimado. Depois do negrinho queimado, cama.
Sexta-feira. A festa da turma foi um sucesso. Da Alemanha, minha colega Rufina levou salsicha bock, bombons de marzipan e bombons recheados com um licor amarelo. Diretamente do Japão, minha colega Chyoko levou sushis de salmão, atum e uns outros lá. E levou também shoyu, pratinhos para o shoyu, e os pausinhos, que agora não me recordo o nome. Só esqueceu do sakê, que foi levado pelo meu outro colega japonês, o qual me foge o nome também. Da Coréia apareceu uma massa lá, que quem comeu elogiou, não tive coragem. Da França minha coleguinha Perrine preparou com carinho uma Quiche Lorraine, deliciosa. Do Brasil, a galera passou no Brasil by Kilo, o mais famoso restaurante brasileiro de Londres, e comprou umas cocadas, realmente boas. Os não-brasileiro adoraram, e os brasileiros mais ainda. Para beber: guaraná, cerveja, vinho e soft drinks. E eu? Não tive coragem de levar meu negrinho queimado. Fiquei com ele para mim e estou degustando-o aos poucos. Ainda abalado pelos acontecimentos do dia anterior, não tive cabeça para pensar em alguma comida truly brasileira para levar. Passei no super e comprei a primeira coisa que apareceu na minha frente: uns doughnuts. Levei uns amendoinzinhos salgados, que junto com bolachas e outros salgadinhos fizeram parte das comidas internacionais de nossa festa. E a festa tava boa mesmo. Depois de alguns goles de vinho e sakê e latas de cerveja, a galera se rendeu a um lírico Buena Vista Social Club que tocava e caiu no salão. E chacoalhamos os esqueletos depois de um verdadeiro international buffet. Engraçado foi ver os coreanos e japoneses dançando bolero, ou “bolerrô”, como a francesa diria. E tudo isso numa sala de aula 6x6. Depois ainda foram para um pub; eu fui trabalhar.
Chego na base e meu chefe me diz que eu deveria tentar descobrir quem era o rider que havia rebocado a bicicleta para o Covent Garden, pois ele deveria receber uma recompensa. O meu chefe não sabia quem era o cara, pois ele tinha rebocado a bike e deixado-a num lugar onde ficam outros vários riders, e um desses é que havia ligado e avisado.
Pego minha bicicleta e vou direto ao Covent Garden, lugar onde sempre começo a noite. Chego lá, estaciono no meu lugar estratégico, e um rider me pergunta: "Você perdeu a sua bike ontem né?" Eu: "Sim, como você sabe?" Ele: "Porque fui eu que achei." Eu: "Pô cara, muito obrigado!" Ele: "E você tinha uma câmera, né?" Eu: "Sim, como você sabe?!?!?!?" Ele: "Porque ela tá comigo, eu apenas peguei ela pois achei perigoso deixar na bicicleta!"
O cara sabia que a bike era minha pois havia me reconhecido nas fotos que estavam nela. Disse que tinha ficado na noite anterior (quinta-feira) até as 4 da manhã me procurando para me devolver a câmera, mas não havia me encontrado.
No fim, na sexta o cara estava sem a câmera, pois disse que, como não costuma andar com mochila e como não sabia se iria me encontrar, já que na quinta não tinha me visto, achou melhor não levá-la. Combinamos de ele levar no sábado, mas no sábado não nos encontramos de novo. Não peguei o número do celular dele pois o cara não tem celular. Disse que o dele estragou e ele não consertou. Como domingo e segunda não trabalhei, ainda estou sem minha câmera. Mas confio nele, o cara na real além de ter sido muito parceiro em rebocar a bike, teve uma baita boa intenção em ficar com a câmera.
Sábado. Nada demais, um sábado bem fraco até. Apenas uma história que vale a pena ser contada. Estou andando na Shaftsbury, como de costume oferecendo rides para as pessoas. Vejo 3 caras e ofereço para eles. Um deles, de muletas, responde: "Bá cara, tu me deu carona essa semana, lá pra Marylebone Station". E daí eu me lembrei mesmo do cara, tinha dado uma carona na terça para ele. Daí ele pegou outra ride comigo: passamos num cash machine e depois levei ele para o Tiger Tiger, um club no centro de West End. E o cara perguntou se eu tinha um cartão de visitas ou celular, porque de repente quando saísse da balada poderia pegar outra carona comigo. Eu dei o número para ele e umas horas depois, eu parado em Piccadilly Circus, praticamente coçando o saco, num sábado realmente muito ruim, o cara manda uma mensagem. Não deu outra, eu tava apenas 3 quadras do club; fui lá e levei o cara até a casa dele, na frente de Marylebone Train Station. O cara tinha quebrado a perna jogando futebol. Ingleses.
Domingo. Dia de relaxar, depois de uma semana muito, muito forte. Chamei alguns amigos e fiz uma massinha, que tava bem honesta, e foi apreciada com um muscat branco do qual fiquei muito amigo.
Segunda. Dia de contar tudo isso para vocês.
Moral da semana: Um leite condensado pode às vezes parecer meio caro, mas se você gosta mesmo, no final das contas vale a pena comprá-lo. Grande abraço, com saudade,

Thomas

15 de dezembro de 2008

1.ª METADE DA 21.ª SEMANA: Coldplay por umas pedaladas

Consegui! Consegui não, conseguimos! O Chico, a Milene e eu conseguimos ingresso e assistimos nesta terça ao show do Coldplay! Demais!
Agora que vocês já sabem qual o assunto principal, vou explicá-lo com mais calma. Eu queria na primeira linha demonstrar quão grande era minha felicidade. A questão é que eu já sabia há muito tempo que haveria esse show. Mas no início de setembro, época em que os ingressos foram todos vendidos, eu rateei e acabei perdendo a oportunidade. Na verdade não fui só eu: a Milene e o Chico também ficaram igualmente frustrados na ocasião por não ter conseguido os ingressos. Pois nesses mais de 3 meses que se passaram eu constantemente encontrava eles e era comentado que nós íamos tentar conseguir os tickets no dia do show, na porta do Earls Court - mesmo lugar em que eu havia assistido ao Rod Stewart na segunda-feira. Pois combinamos de se encontrar lá na frente e então me fui para lá, meio dividido entre o meu lado realista, que dizia que seria muito difícil de conseguir um ingresso – ao menos a preço acessível –, e o lado otimista, que só adicionava cada vez mais vontade de ir no show. Fui chegando lá, aquela galera na saída do metrô indo em direção ao ginásio, e eu cada vez mais pilhado. Bom, para resumir, depois de uma hora de negociações e chats com cambistas, conseguimos! Compramos um ingresso de um cambista e os outros dois lá dentro mesmo, direto do Earls Court. Só não me perguntem como que eles tavam vendendo, porque eu também não sei, já que todos os ingressos supostamente tinham sido vendidos nos primeiros 5 dias de setembro.


Então assistimos ao grande show. Acho que a maioria de vocês já ouviu falar nessa banda, mas para quem não sabe do que se trata vou dar uma pincelada. Sendo bem simplista, aqui é como se eles fossem os sucessores do Oasis. Tipo, o Oasis ainda existe e faz sucesso, mas não como na segunda metade dos anos noventa. É como se o Coldplay agora ocupasse a cadeira principal do britrock. E os caras são bons mesmo. Pra mim são uma das poucas bandas que ainda salvam o cenário pop atual. Tipo, no meio de Black Eyed Peas e outras porcarias do gênero, eles e o Jack Johnson talvez sejam uma das únicas coisas que realmente preste. Claro que existem bandas e músicos muito melhores que esses dois, não estou dizendo que eles são meus preferidos. Apenas acho que no meio do que é realmente pop - e pop não significa nada mais do que “popular” -, nowadays o Coldplay é o que salva a Inglaterra dessa invasão noisy e disgusting do pop americano – o dito R&B e outras coisas mais.
Mas o show tava realmente bom. Apesar de nenhum dos músicos se sobressair como instrumentista - à excessão do baterista, que manda muito bem nas baquetas -, os caras tem um punch invejável. Além disso o Chris Martin, perfeita imagem de band leader, sabe mesmo tomar conta do palco. Inclusive lá pelas tantas o cara resolveu sair do palco e, correndo, adentrar à platéia, obviamente cercado de guarda-costas. Foi parar muito perto de onde estávamos e se pôs a cantar, para o completo deleite do público.

Chris Martin, Coldplay


O show começou um pouquinho antes das nove e se estendeu até dez e meia. Nem tão curto nem longo, foi o suficiente para viajar por muitas músicas dos seus apenas 3 discos. Porque os caras são realmente novos, é coisa que começou nessa década mesmo. No Brasil, pelo menos até eu sair daí, eles não haviam estourado ainda. Claro que tava tocando bastante, mas não chegava ainda a ser um fenômeno. Na verdade, a música que lançou eles no Brasil – e aqui também –, acho que pelos idos 2001, foi Yellow. E se vocês prestarem atenção nas fotos anexadas, numa delas aparece o público e uns balões amarelos gigantes. Isso rolou quando eles tavam tocando essa música.
Então o show acabou as 10 e meia e eu resolvi ir trabalhar, afinal, como expliquei no meu último e-mail, as noites tem morrido mais tarde nos últimos tempos (tradução para os mais velhos: as pessoas tem ficado até mais tarde na rua), ou seja: clientes até mais tarde. Peguei a Piccadilly Line e tomei o rumo de Russel Square, perto da qual fica a base da minha empresa. No metrô fui pensando cá comigo: "Bá, seria legal se agora eu fosse trabalhar e tirasse tudo que eu gastei nesse show, daí o show sairia de graça..." E fiz a conta de quanto era isso: o valor do ingresso mais o da cervejinha, somado ao valor referente ao aluguel da bike, resultava em 52 pounds.
Era 11:40 da noite e eu tava saindo da base, pedalando minha rickshaw em direção a West End. E as coisas foram se desenrolando bem. Uma ride de 10, depois outra de 5. Estou quase em Piccadilly Circus quando duas gurias me pedem para levá-las num bar em Covent Garden. Taxo 6, elas choram, deixo por 4,50 cada uma. Corrida de 9 pounds ao total. As duas vão o tempo todo de papo entre si; estavam bêbadas, mas ainda não tinham passado da cota. Chego ao destino e elas perguntam quanto é. "Olha, o preço inicial era 6, mas fiz por 4,50..." Uma delas tira uma nota de dez da carteira e me dá. Não sei se por achar que 1 pound de gorjeta era pouco, cada uma delas me dá um selinho, coisa que há muito não acontecia. Até aí nada de mais. Então elas descem da bicicleta e já estão tomando o rumo do bar, quando vejo duas notas de dez pounds caídas no chão da minha bicicleta. Vocês devem saber que honestidade é um dos meus fortes. Perguntei se era delas. Papo vem, papo vai, no fim nenhuma delas conseguiu fazer a contabilidade certa e saber se havia perdido ou não. Mas era óbvio que era delas, não tinha como ser do cliente anterior. O que sucedeu? Uma delas pegou uma das notas de dez da minha mão, me deu uma de cinco e disse: "Mesmo que esses 20 pilas sejam nossos, fica com isso pra ti já que tu foi muito honesto". Na real ela viu que não era ela que tinha perdido. Como não conseguia descobrir se era da amiga dela, pois esta não estava em condições de responder confiavelmente, resolveu pegar 5 pra si própria por descargo de consciência e me deixar com os outros 15.
Bom, aí eu já somava os 15 das primeras duas corridas com mais os 25 totais que tinha ganhado das duas gurias. Fiz mais uma corridinha de 5 que fechava 45. Um cara me pede para ir para Tottenham Court Road e eu cobro 6. No meio do caminho vou pensando: "bá, depois dessa vou fechar 51, apenas um pound a menos do que a meta de 52...
Chego lá e o cara me dá 7 pounds, fechando os exatos 52. Tomei isso como um aviso de que o trabalho tinha sido bem feito, e que eu merecia ir para casa. Assim, apesar de que provavelmente eu poderia ter ficado na rua e feito muito mais grana, pois a noite parecia estar boa, tomei o rumo da base. Era uma e vinte da manhã, e tinha sido necessários apenas 1h40min para que o show saísse de graça.
Voltei pra casa feliz da vida depois de um show e de uma noite inesquecível. Grande abraço, com saudade,


Thomas

14 de dezembro de 2008

18.ª, 19.ª e 20.ª SEMANAS: Pato ao Veuve Clicquot

Se não erro as contas fiquei 3 semanas sem escrever, e esse e-mail referir-se-á da 18.ª à 20.ª semana. Essa só pode ser influência do meu saudoso professor de língua portuguesa, Gabriel Cechin. Pois então fiquei esse tempo sem escrever e na verdade nem sei por quê. Acho que de repente tava meio cheio do saco e resolvi dar uma folga para vocês.
Pelo menos agora, passadas essas 3 semanas, algumas histórias me vieram à mente e achei que devia escrevê-las. E olha que não vai ser fácil, agora são mais de cinco da manhã e eu estou apenas começando. Tenho começado a trabalhar mais tarde, acabado mais tarde e, desta maneira, chegado em casa mais tarde. Antes eu começava a trabalhar às 18:30, logo que saía da aula. Mas só pelas 10 e meia que começava a pegar cliente. E daí pela 1 da manhã, apesar de ainda ter bastante gente na rua, já tava cheio do saco e acabava voltando pra casa. Agora tenho começado entre 9 e 10 e ficado até no mínimo 2 da manhã, acho melhor. Cheguei em casa hoje eram 3 e meia passada e só consegui começar a escrever agora. Mas antes fiz um omelete de espinafre que nem eu sabia que era capaz. Bom mesmo.
Por falar em espinafre, aos poucos estamos passando um pouquinho melhor. Estes dias fiz uma janta para algumas das pessoas aqui de casa - porque pra fazer pra todas as 13 pessoas que atualmente moram aqui fica quite hard. Daí cozinhei só para as 3 mineirinhas, o Marcus e o André. Fiz um risoto de presunto parma e espinafre que, modéstia a parte, estava bem bom. Mas especial mesmo ficou a sobremesa. Comprei uns waffles já prontos e servi com sorvete de creme, maçãs, chantilly, calda de chocolate e uma canelinha pra descontrair. Na real, como vocês podem ver, não tenho mérito nenhum: comprei tudo pronto, foi só montar no prato. Mando uma foto anexada para ilustrar melhor a situação.

Sobremesa pros amigos


Semana passada comprei os ingressos para assistir - com a vovó, a mamãe e a maninha - ao show do Cirque du Soleil, no início de fevereiro. Dizem que é superb... I hope so. Ontem a Lelê - uma das minhas amigas mineirinhas – e eu fomos ao show do Rod Stewart no Earls Court, um ginásio muito grande que tem aqui onde rolam muitos dos grandes shows. Bom, antes de falar do show farei uma breve introdução. O Rod Stewart lançou nos últimos 3 anos uma série chamada The Great American Songbook. Na verdade, o projeto não foi concebido para ser uma série, inicialmente era apenas um álbum, no qual ele regravou standards do jazz vocal americano. Mas acabou fazendo tanto sucesso que agora ele já está no volume 4! E os discos são realmente bons, pra quem às vezes gosta de um sonzinho mais cool, vale a pena experimentar. Só que eu imaginava que, depois destes 4 álbuns bem sucedidos, ele ia tocar praticamente só estas músicas, as quais nenhuma é dele. Mas o cara resolveu cantar muitas e muitas músicas de toda sua carreira e fazer apenas um set de 4 ou 5 músicas do American Songbook. Isso me decepcionou um pouco, mas essas 4 ou 5 que ele cantou já foram o suficiente para me satisfazer. Ainda mais que, no final do show, que durou mais de duas horas e meia, ele entoou uma Maggy May simplesmente fantástica, uma das canções próprias dele que levam minha consideração. O público, em sua maioria cabeças brancas, adorou: as pessoas cantavam calorosamente o tempo inteiro, o que me fez acreditar que o cara realmente fez muito sucesso por aqui ao longo dessas últimas décadas. E outra coisa muito legal foi o cenário e efeitos, até neve artificial... Pena que não levei minha máquina para poder mostrar em fotos para vocês, pois não sou bom em descrever detalhes. Com ou sem as músicas que eu queria ouvir, foi muito legal do mesmo jeito. Só ter ouvido “As Time Goes By” na voz rouca daquele loiro malucão já foi o bastante.
Mudando completamente de assunto. Estes dias tava andando com a minha bike no meio de Mayfair, uma área muito nobre e tradicional que fica bem no centro da cidade, quando passo por uma esquina e consigo mirar, dentro de uma vitrine bem escura, várias criaturas penduradas em filas, de cabeça para baixo. Parei minha bike e cheguei mais perto. Eram muitos e muitos patos mortos e já depenados, pendurados um ao lado do outro, e no meio do recinto tinha uma mesa quadrada que ao que tudo indicava servia de local de serviço para o açougueiro. Isso já era mais de meia-noite, a suposta loja de patos já tava fechada, mas tinha um carinha de avental do lado de fora. Contou-me um pato que aquele era mesmo o sanguinário açougueiro. Daí eu perguntei pro cara o que era aquilo, se era só uma loja que vendia pato, ao que ele respondeu afirmamente. Achei que fosse alguma coisa de fundo religioso, tipo aquelas frescuras de árabes e judeus de só comerem carne morta segundo o tal ritual, por tal pessoa. Mas o cara disse que não, não tinha nada de religioso, o negócio deles era só vender patos mesmo. E então perguntei quanto era cada pato, já pensando em saborear um no domingo, mas o cara não sabia. Ou seja, não tive dúvidas que ele era o assassino mesmo, tinha todo o álibi: avental sobre medida, não sabia o valor do produto, só podia ser o duckiller.

The ducks


E quem deu de pato fui eu. Depois de me encher o saco nesses últimos tempos tendo que me atrolhar de roupas para não passar frio quando trabalho, resolvi acabar com os meus problemas comprando um casaco bem grosso. Meu raciocínio: bom, se eu tiver um casaco bem grosso, mas que não seja incômodo nem pesado - ou seja, confotável -, posso colocar bem menos roupa por baixo, e assim seria bem melhor. Mas como trabalho nas condições de tempo mais adversas, precisava de um casaco confortável, grosso, à prova d'água e, muito importante, “respirável”. Respirável - ou breathable, como eles dizem aqui - na verdade quer dizer tranpirável. O problema é que a maioria dos casacos impermeáveis não são “respiráveis”, não deixando a água passar nem de fora pra dentro nem de dentro pra fora. Só que quando se utiliza uma roupa pra praticar algum esporte que o faça suar, é muito importante que o suor consiga "sair". O que estava acontecendo era que quando chovia eu botava um casaco impermeável bem fino que eu tenho, como se fosse uma capa de chuva. Daí eu acaba não me molhando com a água da chuva, que realmente não passava pelo dito cujo, mas sim com o meu suor. Além de tudo não adiantava eu achar um casaco com todas essas características, mas que me custasse 200 pounds. No entanto eu achei um do jeito que eu queria, todos esses detalhes, não muito caro; comprei. O casaco é de pena, e para lavá-lo é preciso um verdadeiro ritual. Vem um manualzinho explicando que o processo de lavagem de casacos de pena deve ser feito com cuidado, 31 enxagües, 41,5 graus, lavar e secar só na máquina com 4 bolinhas de tênis para que as penas não embolotem. A parte das bolinhas é verdade. Mas eu pensei, todo feliz: "o meu casaco é 'breathable', sacou? Vou suar, o suor vai passar e assim resolveram-se todos os meus problemas. O que vocês, que não devem ser tão burros quanto eu, acham? É claro que por mais que o tecido seja respirável, não significa que ele é auto-secante. O que aconteceu? Uma coisa óbvia, que só eu não imaginei: usei um dia o casaco e suei bastante. As penas por dentro do casaco - que é realmente muito grosso - absorveram todo o suor e ficaram encharcadas. O suor evidentemente não evaporou de uma hora para outra e talvez nem de um dia para outro. Resultado: imaginem um pato, um pato mesmo, com pena e tudo - diferente dos patos depenados de Mayfair. Imaginem que esse pato é um atleta e sua demais. Imaginem o cheiro de um pato atleta no fim do dia. É difícil imaginar né, pois nunca ninguém viu um pato atleta. Pois é, mas o cheiro do pato atleta seria igual ao cheiro do meu casaco ao final de uma única noite de trabalho. Conclusão: no outro dia reabilitei o meu casaquinho totalmente impermeável.
Última. Bem rápida. Sexta-feira, eu parado com a minha bike em Piccadilly Circus, duas gordinhas mais pra lá do que pra cá me pedem para levá-las em Tower Hill, algumas milhas de distância. Pagando bem que mal tem? Cobrei 25 de cada uma e elas aceitaram. Tavam com uma garrafa de Veuve Clicquot cheia na mão, e era claro que muitas outras já tinham sido ingeridas. Pediram para que, no meio do caminho, eu parasse pra que elas comprassem alguma coisa pra comer. Parei e uma delas desceu e foi bem contente lá no mercadinho comprar. Voltou e seguimos o baile. Alguns minutos a mais de pedaladas e uma delas grita: pára... pára... pára que eu preciso fazer pipi! Parei e uma das gordinhas se foi pra trás de uma parada de ônibus e carimbou-a com o mais noisy dos xixis femininos que eu já pude ouvir. Deve ter sido quase litro. Ao mesmo tempo que aquele barulho de torneira aberta dava um toque cômico à rua deserta que estávamos, o xixi escorria pela calçada e molhava a beira de asfalto junto ao meio-fio. Relembrando que felizmente eu não vi a tia em cena (agachada ou de pé?), pois o painel publicitário da parada de ônibus ocultava os detalhes. Depois de muito chão cheguei à casa delas, que na verdade era bem distante de Tower Hill, mas deixa pra lá. Me pagaram, não sem fazer aquele drama de bêbado sem dinheiro. Desceram da bike e eu vi o estrago: as gordas porcas tinham comido batata frita, salgadinho e sei lá mais o que e tinham deixado o banco da bicicleta um chiqueiro. Tirei cuidadosamente a manta vermelha que uso na minha bike por cima do banco; sacudi-a. E então veio o banho de champanhe que não estava programado. Elas tinham simplesmente derramado provavelmente toda champanhe no banco da bike. Essa manta, que ficou encharcada, cobre o banco, que, por sua vez, é feito de um tecido de borracha cheio de furos. Embaixo do banco eu costumo colocar minhas coisas: mochila, roupas sobressalentes, ferramentas, guarda-chuva... Todos meus apetrechos tomaram um banho. Até hoje chego na base para pegar a bicicleta e sinto o aroma da Veuve Clicquot. Continuo sem experimentar a famosa champanhe, mas o aroma não esquecerei tão cedo.
Um grande abraço para todos, com muita saudade,


Thomas

22 de novembro de 2008

17.ª SEMANA: Gurias de Dubai e o anfitrião indiano

Daqui alguns dias já fará 4 meses que estamos aqui. Quando a gente menos vê já é Natal e mais um ano se passou. Aqui, como já falei para vocês, faz um tempo que eles estão se preparando para o Natal, com reservas para restaurantes e tal. Nós estamos pretendendo fazer uma ceia natalina aqui em casa, mas por enquanto não está nada certo, só planos... Como vocês sabem, agora estou no hemisfério norte, e toda aquela coisa de Natal com frio e neve, que no Brasil a gente importa dos Estados Unidos, aqui existe mesmo. Tipo, ainda não nevou aqui, mas a previsão do tempo para o próximo fim-de-semana é de neve. E lá estarei eu em cima da minha bicicletinha, faça neve ou faça sol, adaptando um pouco o nosso ditado.
Nessa última semana esfriou bastante aqui. Mas quando digo bastante, é bastante mesmo! Todos os dias à noite a temperatura fica negativa e os carros ficam cobertos de gelo. Aqui existe uma coisa muito freqüente que eles chamam de freezing fog, e que nós aí no Brasil conhecemos como o famoso fog londrino. Quando vai caindo a noite, junto com ela vem uma neblina que deixa tudo molhado mesmo, como se tivesse chovido. Daí, noite adentro, a temperatura baixa de zero e congela a película de água que cobria os carros, as plantas, o asfalto... Então fica tudo congelado. Na verdade nada muito diferente do que a nossa popular geada, só que como sou porto-alegrense nato, e em Porto Alegre geada forte assim não ocorre, achei isso que ocorre aqui muito legal. De madrugada, no meu trajeto entre a parada de ônibus e minha casa, fico a observar a paisagem toda coberta de gelo. Legal só para os olhos, porque o friozão não tem muita graça não. A sorte é que todo esse frio não chega ao centro, onde trabalho. Tipo, lá também é muito, muito frio, mas é sempre uns 3 ou 4 graus a mais do que o lugar onde moro.
Na última sexta-feira a minha aula foi no British Museum! Meu professor talvez não tava afim da monotonia da sala de aula e resolveu nos passar um pouco de sua cultura. E então caminhamos as duas quadras que separam a minha escola do museu e tivemos a aula lá, tava muito legal! Até que o cara sabia mesmo, e achei tudo muito mais interessante do que a outra vez que tinha ido lá, ainda em 2002, quando eu não sabia lhufas de inglês.
Vou tentar dar uma pincelada para vocês. Com o advento da Revolução Francesa e toda aquela sede napoleônica em prover novas fronteiras para a França, Napoleão resolveu que iria invadir o Egito. E então ele levou consigo um grande grupo de cientistas, talvez para dar à sua expedição uma conotação mais cultural, sei lá. O fato é que os arqueólogos comparsas do Napoleão fizeram uma limpa no Egito. E entre outras muitas coisas, eles encontram uma pedra que continha textos escritos em 3 linguagens diferentes: hieróglifos, escrita demótica e grego clássico. O que aconteceu é que a partir dessa descoberta eles conseguiram decifrar os famosos hieróglifos egípcios, que até então eram um grande mistério. Os escritos da tal pedra, que foi achada na cidade de Rosetta - daí o nome Rosetta Stone -, na verdade não eram nada interessante, apenas um conjunto de frases exaltando um imperador. Mas o importante foi que, a partir da comparação dos símbolos egípcios com as letras gregas, das quais se tinha entendimento prévio, pôde-se decifrar todo o resto, e então nasceu a egiptologia.
Pois bem, estavam os barquinhos do Napoleão voltando pra França cheio de riquezas egípcias e não é que aparece Nelson, famoso general inglês, e trava uma batalha em pleno Nilo com as tropas francesas. Bom, nessa os ingleses se deram melhor e pegaram pra eles muitas das descobertas francesas. E então é por isso que, até hoje, a famosa Rosetta Stone, descoberta pelos franceses, repousa em um imenso salão do British Museum.
E não é só. Inacreditavelmente muitas das esculturas originais do Partenon também estão no Museu Britânico. E eles tiveram a excelente idéia de, dentro do museu, construir um salão em escala real do salão interior do Partenon. Simplesmente genial. Bom, como vocês podem ver, a minha aula no Museu Britânico foi realmente interessante, mas vou parar por aqui, não tem graça se eu contar tudo que eu vi.


Esculturas egípcia e grega no British Museum


Da parte cultural da minha vida européia pulo para a parte dos negócios, afinal, depois de muito tempo, cheguei à conclusão que estou trabalhando em Transport Business. Então era sexta-feira e eu estava parado em Leicester Square. Na verdade eu estava quase que escondido dentro da minha rickshaw, tentando me colocar em algum estado - não o da arte - que o frio pegasse mais leve. E pensando no frio, comecei a pensar no calor... E pensando no calor, comecei a pensar no verão. E continuando o desencadeamento de idéias, pensando no verão, comecei a pensar que fazia tempo que não via aqueles grupinhos de garotas árabes que costumavam povoar Leicester Square no verão, com suas roupas de detalhes dourados e traços chamativos aos olhos ocidentais. Talvez vocês se recordem que uma vez contei uma história de umas meninas do Iraque para as quais tinha dado carona. Pois bem, é deste estereótipo a que me refiro. E pra acabar a linha de raciocínio, pensando nas mulheres, por assim dizer, médio-orientais, comecei a pensar que seria muito interessante que elas continuassem a passear em Leicester, e, conseqüentemente, a fazer bem ao meu bolso. Nesses devaneios sem fim que um rider encontra para afastar o frio e ver o tempo passar, eis que, do nada - ou do além, ainda não descobri -, aparecem na minha bicicleta 3 garotas árabes querendo ir nem elas sabiam para onde. Na verdade estavam tentando se refugiar de um carinha árabe que insistia em flertar-las. O cara usava de todos seus conhecimentos para tentar arrancar o telefone de alguma delas. E elas visivelmente tavam cheia do cara, só me diziam pra andar logo e tal. Pois eu engatei a primeira e arranquei, nem pude ver se o cara foi feliz em sua investida ou não. Pois elas queriam ir pra Wingmore, uma rua paralela a Oxford Street, e lá fui eu. Quando perguntei da onde elas eram, elas responderam: "What do you think?". "Dubai", respondi. E então elas abriram um sorriso gigante que precedeu a seguinte frase, dita em tom mais exclamativo que interrogativo: "How do you know!?" Ao que eu só dei aquela olhada e um sorriso de escanteio, e continuei minha jornada com as arabesinhas. Na verdade apenas uma era bem bonita, as outras deixavam a desejar. Mas isso também não importa.
Deixei duas delas na Wingmore, elas estavam indo num restaurante árabe encontrar os amiguinhos. A terceira, por sua vez, queria um táxi para ir para sua casa, em Knightsbridge. Actually ela era from Dubai, mas morava aqui, estudante de direito. Eu a convenci de levá-la até Knightsbridge cobrando apenas 10 pounds a mais. Bom, agora vem a parte geográfica importante. Para ir do lugar que eu estava até Knighstbridge, eu peguei a Park Lane, que é uma grande avenida que margeia o Hyde Park a leste, e é em sua maior parte uma lomba. E foi a primeira vez que tive a oportunidade de fazer toda a Park Lane, muito bala! É que eu na verdade desci toda a avenida, e desta maneira pude botar uma velocidade incrível na bike durante um longo tempo, pois o trajeto não era pequeno. Muito legal mesmo. Quando eu estava descendo lembro-me que cheguei a pensar algo como: "Bá, que bala que é descer isso, uma barbada. Imagina se eu tivesse que subir, daí o bicho ia pegar..."
Cheguei em Knightsbridge e a guria pediu pra parar na frente da Harrods. Me pagou; só 1 pound de tip, mas eu tinha cobrado bem, então tava tudo ok. Viro a esquina para tomar o trajeto de volta ao centro, quando um indiano do outro lado da rua dá um berro: "Táxi!" Entendi que era pra mim e atravessei a rua novamente. Chego lá e o dito cujo, exalando o mais puro odor de alguma bebida destilada, que não pude decifrar qual era, me pergunta: "Quanto é pra levar essas duas moças no hotel tal, é só around the corner". "Around the Corner" é uma expressão sem tradução para o português e de difícil compreensão, pelo menos pra mim. Na verdade a tradução literal seria algo como "virando a esquina". O problema é que eles usam tanto pra próxima esquina, como pra uma esquina a milhas de distância. E isso faz com que a exata compreensão fique a milhas de distância também. Pois o cara queria me dar 20 pounds para eu levar as duas senhoras "just around the corner". Inicialmente eu pensei: "beleza, mais vintão pro papai... heheh" Mas a experiência de alguns bons quilômetros me disse para me certificar de onde seria o exato lugar. A negociação foi árdua, pois na verdade o "around the corner" do cara era um hotel entre Paddington e Lancaster Gate. Pra vocês terem uma idéia, o caminho que eu teria que fazer era simplesmente o inverso do que eu tinha feito com a guria árabe, e mais um pouco. Toda lomba de novo, mas em sentido inverso! Falei: "Não... É vinte pounds por pessoa." O cara hesitou, pensou, e pronto, botou o dinheiro na minha mão. Pra vocês entenderem melhor a situação, o cara devia morar aqui em Londres e as duas mulheres deviam ser suas conhecidas, mas não eram daqui. Ou seja, ele era o anfitrião, e por esta razão estava pagando para as mulheres voltarem para o hotel. Bancando o gente fina. Ou tentando investir em alguma delas, sei lá.
Subiram as mulheres e eu comecei meu trajeto, que seria o oposto da barbada de antes. Na prática eu ia ter que dar meia volta no Hyde Park, que é muito grande. Actually, se a rua que corta o parque estivesse aberta, seria muito mais fácil, mas da meia-noite às 5 da manhã essa rua fica interceptada. E então eu comecei, pedalada por pedalada, uma ride que teria tudo pra ser uma das mais difíceis e penosas de todas.
Quando estou em Hyde Park Corner, talvez ainda nos primeiros minutos de viagem, prestes a começar a árdua subida da Park Lane, as duas damas, que estavam tão borrachas quanto o amiguinho bondoso delas, resolvem me perguntar: "Quanto tempo ainda vai demorar?" A minha resposta foi sincera: "Uns 30, 35 minutos..." Elas se entreolharam e durante alguns segundos refletiram sobre a notícia que tinham recebido. Apesar da bobeira do álcool, elas deviam estar com bastante frio. Prova disso é que me fizeram a seguinte pergunta: "Tu ficaria muito brabo se deixássemos o dinheiro contigo e pegássemos o metrô agora?" Lembrem-se que o cara já tinha me pago antecipadamente. O que será que eu respondi?
As conclusões que eu chego. Primeira: elas não deviam gostar muito do anfitrião delas, pois fizeram o cara gastar 40 pounds praticamente de graça. Segunda: por outro lado, eu e o cara realmente as consideramos pessoas especiais: o cara, porque pagou 40 pounds para agradar suas visitantes, e eu... bom, eu vocês já sabem por quê...
E então os 35 pounds que as árabes me pagaram somados aos 40 do indiano bebum contribuíram e muito para que eu tivesse a sexta-feira mais generosa de todas. O resto é papo... Grande abraço, com saudade,

Thomas

15 de novembro de 2008

16.ª SEMANA: A vista de Wateloo Bridge

E então mais uma semana se passou e aqui estou eu novamente. Agora já são 3 da manhã de terça-feira, a qual foi precedida por uma segunda um tanto gelada. Toda a semana que passou foi muito fria, o que significa mais esforço no trabalho. Mas por enquanto ainda está dando pra agüentar, nada tão diferente do que o nosso friozinho de Porto Alegre. No entanto sei que ainda é novembro e é cedo pra ficar contando vantagem. No próximo sábado, por exemplo, os guris me disseram que a previsão é de dois graus... Negativos. E todos teremos e iremos pedalar, supostamente felizes. I hope so...
Pois eu dizia que agora já são 3 e ainda não estou com muito sono. Meu relógio está um tanto alterado, não tenho ido pro berço antes das 4. Não que ache isso ruim, é só um tanto diferente do que o "normal".
Hoje fiz uma coisa que estava há muito me segurando, fui na Virgin Megastore, uma loja de CDs, DVDs e afins, que tem em Piccadilly Circus, e que é realmente grande, como o nome supõe. Pois como disse, há tempos postergava esta visitinha, já que sabia que não ia me conter em comprar uns cedezinhos. E eu realmente estava certo: Fui, não me contive, comprei. Mas nem foram muitos, só 3 CDs e um DVD. Um dos discos é do Damien Rice - "O" é o título - e o resto é tudo do Coldplay. Tipo, já que dei de prego e perdi a oportunidade de ir no show que os caras vão fazer aqui em dezembro - os ingressos foram todos vendidos em questão de 5 dias e eu bailei na curva -, pelo menos agora posso ir ao show deles always, é só ligar o computador e assistir ao DVD, que por sinal é excelente. Estava assistindo a algumas músicas agora e achei muito bom. Quanto ao outro CD, do Damien Rice, já ouvi 3 vezes e realmente me impressionei com o cara. Na verdade agora, enquanto estou escrevendo, estou ouvindo de novo. Tipo, dele eu só conhecia "The Blower's Daughter", aquela música do filme "Closer". Apesar de ser um tanto melosa, devo admitir que é muito boa. E a minha surpresa foi que no CD constam músicas muito melhores ainda. Um tanto deprê, é verdade, mas excelentes.
O trabalho na bicicleta continua tri. Cada vez fico mais feliz por me dar conta de que reamente já estou conhecendo muito bem a cidade. Esses 3 meses de trabalho, que já somam algumas centenas de horas, foram o suficiente para fazer de Londres um lugar um tanto familiar. Claro que todos que vêm pra cá acabam sentindo isso, mas para um rider tudo acontece um pouco diferente e mais rápido. E não falo isso só por mim, tenho certeza que os outros guris também sentem a mesma coisa - ou logo vão sentir, já que alguns começaram pouco depois que eu.
Comecei a falar sobre isso porque uma das coisas que acho muito legal é ir cada vez mais longe, no sentido literal mesmo. Tipo, nas primeiras semanas eu ia pra Victoria Station e achava aquilo super longe, me cansava muito. Daí aos poucos os destinos foram se distanciando, se distanciando, até que nessa semana eu extrapolei e fui parar num lugar que eu nunca imaginei que ia (conseguir) chegar. Levei uma lady num local chamado Rotherhithe, que não é nada mais do que a mesma distância que Canary Wharf, mas do lado sul do rio. Eu sei que para a maioria de vocês não adianta nada eu dar referências, mas é que alguns já moraram aqui em Londres, então não custa localizar quem conhece. Bom, o que interessa é que o lugar é muito longe mesmo, nunca imaginei que eu ia até lá. A dita lady estava completamente borracha, foi dormindo do início até o fim da jornada, simplesmente apagou. No final ainda presenteou a minha bicicleta com um vômito vermelho-amarronzado, que maravilha! Por sorte sujou só um pouquinho da bike, o resto do fluido foi parar no asfalto. Mas fiquei feliz, pude ver, praticamente na minha frente, o prédio de Canary Wharf, o mesmo que costuma estar na linha do horizonte quando atravesso a Waterloo Bridge. Genial. Mais genial que isso foi na volta ter atravessado a Tower Bridge de bicicleta. Isso sim era uma coisa que eu queria muito um dia fazer, e finalmente tive a oportunidade. Eu já tinha ido lá (de metrô), atravessado a pé, contemplado e tal, mas ir até lá e atravessar de bicicleta é muito diferente. Ainda mais que atravessei as 2 da madrugada de uma quinta-feira, praticamente só eu na ponte, e ela toda iluminada, pois brilha por toda noite. Realmente amazing! Vou anexar uma foto dela que acho que já tinha enviado para vocês, mas vale a pena mostrar de novo para os que não conhecem tentar entender sobre o que estou falando.
E a minha lista de wide rides não pára por aí. Era sábado às 3 e meia da manhã; na verdade já era madrugada de domingo. Estava realmente cansado, tinha começado pelas 5 da tarde e muito já tinha rodado. Mas realmente queria e sentia que dava pra fazer mais uma ride grande mesmo. Grande em distância e em valor: o bolso ainda pedia um pouco mais. É que em altas horas da madrugada ninguém mais pega carona para dar voltinha em rickshaw; as pessoas querem mesmo é voltar para suas casas, e como é muito difícil de conseguir táxi - black cabs -, algumas acabam por eleger uma rickshaw como meio para chegar em casa. Então estacionei minha bike em Piccadilly Circus a espera de alguém com esse perfil. E foi isso mesmo que aconteceu. Uma outra lady chegou para mim e perguntou quanto eu cobraria para levar ela depois de Holand Park Tube Station. Só posso dizer que o lugar que ela queria era realmente muito longe. Mas um rider que se preze não pode dar pra trás. E daí a única coisa que eu fiz foi dar um preço bem compatível com a situação: o lugar era tri longe, 3 e meia da manhã, uma friaca braba... 30 pounds. E olha que eu até fui generoso com a guria. Daí quando eu disse o preço ela abriu um largo sorriso e disse que era exatamente o preço que ela estava disposta a pagar. So, negócio fechado, ela subiu na bike, disse o seu nome e perguntou o meu, alegando que, como iríamos passar um longo tempo juntos, teríamos que conversarmos quase que obrigatoriamente. E acho que ela se sentiu mais confortável em saber que saberíamos o nome um do outro. Eu achei engraçado ela ter dito isso: "Como o caminho é grande e vamos passar um longo tempo juntos, prazer, eu sou a tal, e você, qual seu nome..." Foi uma boa iniciativa, pois realmente acho um pouco estranho quando faço uma corrida grande com apenas uma pessoa e fica aquele silêncio. Sempre tento puxar um assunto, mas às vezes as pessoas não dão muita corda. Imaginem, não é nada muito diferente do que quando entramos num táxi e o taxista tenta puxar um papo. Se não estou enganado quase sempre eles começam falando do tempo, "Será que hoje vai chover?", ou então aquela clássica "que calor, hein?" Eu tento ser um pouco mais criativo enquanto pedalo, mas confesso que não vou muito longe. Talvez seja porque a língua realmente atrapalha a tentativa de dissertar sobre algo mais interessante.
Isso me fez lembrar uma coisa que aconteceu nessa semana e que me deixou muito feliz. Na verdade não tem nada de mais, mas faz parte daquelas pequenas coisas que as pessoas deveriam enxergar pra serem mais felizes. Estava atravessando Waterloo Bridge com um cara na carona. O cara era bem jovem e falante. Papo vem e papo vai, até que no meio da ponte ele pega e fala assim: "Essa é a melhor vista de Londres". A questão é que sou eu quem sempre falo isso pros clientes. Geralmente quando eu pego a ponte é para ir até Waterloo Train Station, o que me faz pensar que as pessoas que estou levando dificilmente são londrinas, já que estão indo até a estação para pegar o trem. Pois então, como as pessoas com quem atravesso a ponte em sua maioria supostamente não moram em Londres, sempre faço questão de dizer que aquela é a melhor vista de Londres. Muitas vezes inclusive explico o que é cada edifício, cada lugar. Acho legal fazer com que as pessoas realmente sintam a beleza daquilo. Mas então não sei por que eu estava atravessando com o cara e esqueci de comentar. Foi quando ele falou exatamente a mesma frase que falo todas às vezes: "This is the best view of London..." E isso me deixou feliz. O cara era realmente gente boa. É muito legal quando os clientes são parceiros; é comum no final das corridas receber abraços carinhosos das pessoas, muitas reconhecem o esforço e recompensam não só com dinheiro, mas com sorrisos mesmo.
Pois então eu contava sobre minha corrida com a lady ao Holand Park. No fim nem saiu muito papo, a tática dela não foi muito eficaz. Mas bem que eu tentei – conversar, neste caso. E então após quase uma hora de firmes pedaladas eu estava lá, no destino, que na verdade era quase em Shepherd's Bush. Ela pagou 35 pounds, valor justo. Obviamente esta foi minha última corrida, já eram 4 e meia da manhã e as pernas se pudessem gritar, gritariam. Para ir até a garagem onde deixo a bike tinha que simplesmente atravessar o centro inteiro, alguns tantos kilômetros em linha reta. Não tive dúvida, tirei o discman da mochila e o Fito me acompanhou por todo longo caminho. E fiz toda a Oxford feliz da vida.
A semana teve outras coisas legais, mas acho que já está longo demais. As palavras a mais são talvez porque eu estava a fim de falar um pouco mais sobre os detalhes da vida por aqui, pois ela não é só feita de grandes histórias, festas, lugares diferentes. Às vezes temos que dar valor pras pequenas coisas, cada um tem a sua vista de Wateloo Bridge pra mostrar para alguém. Um grande abraço, com saudade,

Thomas

8 de novembro de 2008

15.ª SEMANA – Um Grande Churrasquinho

É com imensa satisfação - vocês não imaginam quanta - que estou escrevendo na minha mais nova aquisição, um notebook! É isso mesmo, no more fubica! No more fubica! A partir de agora vou ter mais tempo para ler os e-mails de vocês, respondê-los, ler as notícias do Brasil, fazer o download das minhas fotos, atualizar meu fotolog... Enfim, a vida vai ser mais fácil!
Antes eu falei na fubica. E não é que a fubica foi aposentada não só por mim!? Estes dias o André achou um computador na frente de uma casa aqui da nossa rua e trouxe pra casa. Eu não levei muita fé, pois o computador aparentemente tinha passado a noite pegando chuva. Mas não é que funcionou, e bem! Eu não usei ainda, mas diz o André que é o processador é 1.9 Ghz, então é bom mesmo. Aqui é assim, quando as pessoas não querem mais as coisas, em vez de perder tempo pensando pra quem vão dar, se tem um amigo mais necessitado que possa querer aquilo e tal, elas pegam e põe na rua. E daí quem quer que pegue. Tem sofá, colchão, computador, cadeira, enfeite, de tudo! Essa semana o Marcus e o André também acharam uma televisão na rua e trouxeram, e tá funcionando também! Se não me engano é 21 polegadas, nem é das piorzinhas. Falei pros guris que a nossa nova aquisição agora no Street Market tem que ser um microondas, que é uma das únicas coisas que falta aqui em casa.
A vida aqui continua boa e essa semana foi bem corrida e longa, no sentido que de que deu pra fazer muitas coisas. Pra começar, na segunda-feira passada fui ao show dos The Britos, banda cover dos Beatles formada por 2 caras do Barão Vermelho (baterista e baixista), o George Israel do Kid Abelha e um outro cara nas guitarras. O show foi no Guanabara Bar, bar brasileiro aqui em Londres. O ambiente é bem legal, meio retrô na real: tu entra no lugar e parece que volta uns 15 anos no tempo, mas eu achei bem interessante. Daí os caras fizeram um show bem rapidinho só tocando os rockzinhos mais básicos dos Beatles, na seqüência tocaram algumas brasileiras no bis e era isso. Depois entrou o som mecânico só com pérolas de Jorge Ben, Chico e outros. Pude relembrar a terrinha comendo pequeninos pedaços de aipim frito - no cardápio tava escrito mandioca, mas pra mim é aipim -, uma delícia! O bolso não gostou muito, bebida e comida caras, mas valeu pra descontrair, tomar uma caipirinha e uma Brahma ao som de uma boa música com uma boa companhia.
Por falar em Brahma, a Brahma tá fazendo muita propaganda aqui, uma campanha forte mesmo. As figuras nos outdoors são umas montagens muito estilizadas de um artista chamado Speto, de repente a mesma campanha está sendo veiculada aí também, sei lá. Eu sei que num dos outdoors aparece um neguinho em uma típica paisagem de periferia brasileira, carregando um isopor cheio de garrafinhas da Brahma mergulhadas em pedras de gelo. Achei muito legal, é daquele tipo de figura com vários detalhes, e conforme se vai correndo os olhos se encontra mais detalhes verdadeiramente brasileiros. Por exemplo, lá pelas tantas encontrei na imagem uma plaquinha que dizia algo como "compro e vendo vale-transporte". O próprio fato do cara ser um vendedor destes de isopor já é diferente, pois aqui não existe isso. E outra coisa que achei legal é que toda a campanha é em português, tipo, o slogan é "Brahma, a cerveja do Brasil", assim mesmo, em português. A garrafa que vendem aqui é bem diferente - na verdade a cerveja também é diferente, eu li que modificaram pra agradar o paladar europeu, afinal aqui não gostam de cerveja tão suave como no Brasil -, torta e tal, e tá escrito tudo em português também.
A Nike Town, loja da Nike que fica em Oxford Circus, o centro do comércio londrino, está com as vitrines fazendo referência ao time de futebol do Brasil, com direito a contar a história das copas ganhas, coleção de roupas especialmente criadas para tal e coisas mais. Na verdade eu nem entrei na loja, mas quando passo ali com a bike tem uma sinaleira muito demorada na Oxford, o que proporciona uma bela e demorada vista das vitrines da loja, que estão realmente muito legais. Outro dia vou entrar para contar mais detalhes para vocês.
Na quinta passada o André, a Milene - uma amiga nossa - e eu fomos em um concerto no Royal Albert Hall chamado "Broadway in Concert" ou algo assim. Tava muito bom, a Royal Philharmonic tocando músicas das peças da Broadway acompanhada de 4 cantores muito bons - 2 homens e 2 mulheres. Tudo acabou com o público chacoalhando o esqueleto ao som de "Grease, no Tempo da Brilhantina" - é isso né (?), a música eu conheço, mas o filme não é do meu tempo). Até o maestro uma hora se virou e começou a dançar. Tipo, ele já tava rebolando fazia um tempo nas músicas mais agitadas, dali um pouco o cara não se contém, esquece seus súditos com seus violinos e metais em punho, vira-se e começa a dançar com o público, não esquecendo de dar o compasso com a batuta é claro. Well, depois do teatro, obviamente, o Pub.
Por falar em Pub, há umas duas semanas atrás, era uma sexta-feira, e o meu professor resolveu que nós iamos no cinema. Escolhemos um filme, que por sinal foi uma péssima escolha, e fomos. Chegamos lá, compramos nossos ingressos e faltava uns 20 minutos pra começar o filme e tal. Daí eu falei pro meu professor algo como: "que tu acha de tomarmos um pint no Pub da esquina enquanto esperamos?" Mas tipo, falei brincando né. E não é que o cara quis ir. Fomos. Já na sexta passada a aula não foi no cinema, foi no Pub direto. Afinal pra que perder tempo no cinema, vamos direto ao que interessa.
E agora, let me tell you o acontecimento da semana: fizemos um churrasco ontem! Mas um churrasco mesmo! Inacreditável, tava muito, mas muito bom! Compramos a carne direto da máfia chinesa. O André foi lá no tal do chinês no sábado e pegou na camufla a carne. Conta a lenda que o chinês é perigoso, mas o André chegou em casa bem, apenas um pouco sujo com o sangue do boi que o asiático insistiu em carnear na hora. Melhor ainda, carne fresquinha. Daí não é que o chinês encheu a sacola só com o vaziozão, perfeito, aquele de fibras se desmanchando! Então convidamos a galera e assamos 8 quilos e meio de carne! Eram 14 pessoas pelas nossas contas e não sobrou uma lasquinha pra contar história; foi toda a carne. Como a nossa churrasqueira não era uma verdadeira churrasqueira gaúcha, mas aquelas de churrasco americano (mas com carvão), e como também não tínhamos espetos, tivemos que fazer espetinhos mesmo, que nem os de gato do Olímpico ou Beira Rio. Mas a diferença é que lá no Olímpico a carne não vem direto do chinês. E nem é assada com tanto esmero como a nossa foi pelo nosso glorioso assador André. Perfect! E assim acabou a nossa semana, com churrasquinho, várias Carlings e risadas sobrando de uma turma pra lá de parceira!

Churrasco depois de meses, difícil descrever


Prá me despedir, deixo vocês com duas fotos, uma pra deixá-los com água no boca, e a outra que mostra a turma de riders toda reunida (de baixo pra cima, esquerda para direita): Rafa, Lelo, Marcus, Gabriel, André, eu, Chico, Biri. E então era isso, um grande abraço para todos, com saudade,

Thomas

O time de riders

E agora com as gurias junto

Eu e as mineirinhas: Bidu, Ismara e Lelê

30 de outubro de 2008

14.ª SEMANA: De bicicleta nova pelas ruas londrinas

Nesta semana, mais precisamente dia 25, fez 3 meses que estamos aqui. Três meses de uma vida que vai sendo levada a muitas e muitas pedaladas. Os joelhos e as coxas não tem gostado muito, eu sei... Mas o bolso tem sorrido diariamente e, conseqüentemente, eu também. Mas não fico contente só pela grana, este trabalho é muito legal mesmo! Nos dias de semana nem tanto, pois às vezes fico muito tempo sem pegar nenhum cliente e se torna um pouco tedioso. Mas só um pouquinho mesmo. Em compensação nas sextas e nos sábados é muito bala. Tenho trabalhado 12, 13 ou 14 horas em cada sábado, me canso muito mesmo. Mas recompensa bastante, me divirto muito, pago as contas e, o mais importante, gosto do que faço. Além disso, como vocês sabem, não sou só eu, agora somos um time de riders! Inclusive, a partir da próxima semana increvelmente teremos mais um jogador, um daqueles que ninguém mais acreditava que ia entrar em campo: o André! Pois é, não é que o cara resolveu largar a vida de garçom e cair no transport business. Então só pra recapitular, agora somos eu, o Rafa, o Chico, o Marcus, o Lelo, o Gabriel e o André! Estes são os mais próximos, os que vieram junto ou na mesma época que eu. Tem mais vários brasileiros que trabalham como riders. Sempre relembrando que só aqui em casa agora moram 5 deles... Time da pesada!
Ganhei uma bicicleta nova, bem melhor e mais bonita, 0 Km! Para mim, de todos os diferentes modelos de rickshaws que existem, ela é o mais bonito. É como se eu tivesse a Ferrari das rickshaws! Só que sem o motor da Ferrari, pois os cavalos das minhas pernas provavelmente não chegam perto dos cavalos das pernas dos caras que são riders há anos. Quando der vou tirar umas fotos dela pra mostrar para vocês. Da bicicleta, por supuesto.
Essa semana compramos os ingressos para o show do Jack Johnson no dia 1.º março. E tivemos que comprar para o show em Birmingham (uma cidade inglesa), pois os ingressos para os 2 shows em Londres, também em março, já haviam acabado. É, aqui os caras tem uma certa ânsia por tempo, no sentido literal da palavra. Sei lá, é uma coisa cultural, na cidade existem lhões de relógios públicos, daqueles de ponteiro mesmo, que ornam os edifícios e tal - mas termômetro, tipo os que povoam Porto Alegre, eu não encontrei nenhum ainda. Os caras já estão vendendo agora ingressos para um show que o Bon Jovi vai fazer em junho do ano que vem, no novo Wembley Stadium, que nem está pronto. Imagina só, provavelmente devem ser uns 80 mil ingressos e os caras já estão vendendo. Não contentes, os restaurantes já estão com plaquinhas oferecendo reservas para Natal e Ano Novo. Pelo jeito, pontualidade britânica se faz com muito planejamento de longo prazo.
Minha nova bike

Por falar em tempo, agora no outro sentido da palavra, esta semana fez 21 graus numa cidade por aqui, e essa foi a temperatura mais alta para essa época do ano em 117 anos, pelo menos é o que dizia o jornal. Em compensação os caras tão prevendo o inverno mais frio da década. Na reportagem dizia que alguns especialistas estão prevendo o inverno mais frio em 40 anos, com temperaturas médias de 0ºC. Ui...

Dando uma banda de bus


Ontem acabou o horário de verão aqui, e como agora começou o de vocês aí, agora só duas horas nos separam. Vou aproveitar para não falar tanto de mim e contar algumas coisas que estão acontecendo por aqui. Essa semana foi aprovada uma lei que proíbe fumar em restaurantes e PUBs que servem comida. E isso tá sendo tri discutido aqui. Tipo, paraece que já estavam há 3 anos discutindo sobre o negócio - no Brasil se diria que está "tramitando na câmara" - e agora tá decidido. É que aqui as coisas são um pouquinho diferente que no Brasil. Imaginem só, os PUBs é como se fossem uma instituição nacional. É mais ou menos como o nosso buteco aí. Tentem contar quantos butecos temos aí, daqueles que servem cafezinho em copo de vidro canelado e pastel feito na gordura quinzenal. Pois tantos são os PUBs aqui quanto os butecos aí. E daí mexer com as regras dos PUBs não é trivial.
E uma última notícia que achei interessante, e assustadora também - como vocês podem ver, essa semana deu tempo de ler o jornal, não sei por que -: 25% da população britânica bebe mais que o dobro do valor máximo diário recomendado pelos médicos. O valor máximo diário recomendado é o equivalente a 3 cálices de vinho para mulheres e 4 pints (um pouco mais de 2 litros) de cerveja para homens. E ainda dizia que dois terços destes 11 milhões de pessoas (25%) insistiam em dizer que a sua dieta alcoólica era saudável. Imagina só, significa que esses 11 milhões consomem uma média de mais de 4 litros de cerveja por dia - ou o equivalente em outra bebida -, se considerarmos a dieta masculina. É aí que vejo que os meus 2,9 litros diários são inofensíveis.

Battersea Bridge

Tower Bread (o da esquerda é o meu, da direita, o do Lelo)


Mas então é isso. Para colorir um pouco mais esse e-mail, que ao meu ver está tão pobre, estou anexando algumas fotos bem variadas, tiradas ao longo destes 3 meses. Antes que alguém pergunte, o sanduíche não é meu, e sim do Lelo. Ele carinhosamente o chama de "Tower Bread". Sabe como é, o cara é surfistão nato, a barriga pede... Mas a vida de rider é assim mesmo, carboidratada. O meu sanduíche diário é bem mais simplório, feito com 3 singelas fatias de pão integral. Um grande abraço,


Thomas

25 de outubro de 2008

13.ª SEMANA: Uma noite em Putney

E não é que a fubica aqui de casa voltou a funcionar! Na verdade a nossa landlady trouxe outro monitor, pois era ele que tinha estragado na real, e agora está tudo bem. Na verdade agora está melhor, pois ela trouxe uma tela LCD de 17", bem melhor do que a outra. E por falar em fubica, não posso deixar de registrar a definição da palavra - enviada pelo Scapin, ex-colega de colégio e amigão de Porto Alegre -, visto que eu havia dito não ter idéia do que se tratava: fubica vem do latim fubicus, que quer dizer "coisa velha que ainda funciona, usa e não reclama". Então tá; ele não deixa de ter razão.
Semana passada esqueci de contar para vocês que havia comprado a minha passagem para Paris, para passar o ano novo lá. Saio de Londres dia 30 de dezembro pela tarde, e precisamente 2 horas e 41 minutos depois estarei no centro de Paris, tudo isso graças a uma coisa chamada Eurostar. Digo isso porque é muito mais simples fazer Londres-Paris - ou vice-versa - de trem do que de avião. O Eurostar sai do centro de Londres e chega no centro de Paris. Já para ir de avião, além de ter que chegar antes para check in e tal, todos os aeroportos são afastados do centro, o que gera mais tempo despendido em transporte, e conseqüentemente mais dinheiro as well.
Essa semana comprei o tour que vou fazer com mamãe, vovó e maninha, pela Itália em Janeiro. E hoje eu e os guris tivemos uma reunião e decidimos sobre nossa viagem também. Não sei se eu tinha comentado, mas eu estava pensando em passar uns 10 dias em Paris depois do ano novo. Mas mudei meus planos e decidi fazer a viagem que os guris vão fazer pela França. Então, até agora os meus planos são os seguintes: Dia 30 chego em Paris e me encontro com eles (Lelo, Marcus e André), que estarão vindo da Bélgica. Em Paris ficaremos até o dia 5. Neste dia começa nossa tour pelo interior da França. Um tanto quanto pequena, é verdade, mas acho que será bem legal. Vamos alugar um carro e fazer o Vale do Loire, Bordeaux e a Côte d'Azur, o que inclui Nice, Cannes e Mônaco. Daí no dia 10 os guris vão pra Veneza e o meu tour com a família pela Itália começa apenas dia 13 de janeiro. Então agora eu tenho a árdua tarefa de escolher onde vou estar do dia 10 ao dia 13. So, dia 13 começa o tour em Milão e só volto para Londres no finalzinho de janeiro, still with the family. Then elas passam mais alguns dias aqui comigo em Londres e depois disso, já em pleno fevereiro, enquanto vocês se preparam pra cair na folia do carnaval, eu caio na realidade novamente e retorno minha vida aqui em Londres, provavelmente numa Londres que estará tristemente escura e fria, tal como o inverno há de ser.
Hoje é segunda-feira e, como todas as outras, minha folga. Pois então fui parar num Pub muito roots, raçudo mesmo. Digo que fui parar porque na verdade o meu destino era outro. Aproveitando que era meu day off, recorri à Time Out, aquela revista a qual havia comentado few weeks ago, e que fornece a agenda cultural, e encontrei um showzinho de jazz que ia rolar de graça num lugar chamado Boat House, em Putney, bairro que não ficava tão perto do centro asssim. Daí convidei o pessoal lá na escola e ninguém quis ir, pois era longe e tal, e daí eles acabaram indo prum Pub ali perto da escola. Mas convidei uma colega minha colombiana e ela achou legal, e daí nós fomos: eu, ela, e um amigo colombiano dela. Pegamos o metrô, descemos na estação que dizia que era mais perto, atravessamos o rio e tal. Chegamos no tal do Boat House, que era um bar muito legal, na beira do rio, e o cara disse que o show tinha sido cancelado havia duas semanas. E agora, José? Pô, tinha feito os colombianos me acompanharem até lá e o programa tinha furado. Tá certo que não era minha culpa, a revista que não tinha atualizado o negócio, but... Mas daí enquanto eu falava com o garçom e ele me explicava que não ia ter o show, um tio que tava ao lado pegou e me disse: "Olha, se vocês querem música vão lá no Half Moon, que é um Pub onde até os Stones já tocaram e é aqui pertinho e tal", e me explicou onde era. Então procuramos o tal do Meia Lua e não é que encontramos?! Chegamos lá e era um Pub muito bala mesmo, exalando rock'n roll pelas paredes. Um tanto diferente dos Pubs do centro da cidade, pois os Pubs de West End são bem arrumadinhos, cuidados e tal, apesar de alguns serem bicentenários ou mais. E geralmente os Pubs fora do centro, como é o caso deste, são mais raçudos mesmo, algo mais "born in London, alived in London and for the londoners". Entramos lá e a garçonete disse que ia rolar um showzinho acústico que ia começar às 9h. Era 7 e meia e estávamos com fome. Como no Pub não tinha comida, saímos a procura de algum lugar e sentamos em um italiano bem simpático. Então saboreamos uma pizza Quattro Formaggio, onde boiavam gorgonzolas provavelmente maturados em rústicas fazendas italianas, uma delícia! Tudo acompanhado de um tinto italiano, é claro. Assim pude conhecer melhor os dois colombianos, pessoas muito interessantes. Ela, estudante de arte e filosofia na Colombia, veio pra cá assim como eu, passar um tempo, aprender inglês e abrir a cabeça, para depois voltar. Ele, engenheiro formado, morando aqui há um ano e meio e atualmente fazendo o seu MBA. E então dissertamos sobre América do Sul e Europa e todos os caminhos e diferenças que podem existir entre uma e outra. Papos do tipo “eu sou apenas um rapaz latino-americano...”
E lá pelas nove voltamos ao Pub e assistimos ao show, eu acompanhado de uma ruiva ale, e eles de loiras belgas, as Stellas. Na verdade não foi um show, mas vários. Tipo, cada um subia ao palco e tocava umas 3 músicas, só voz e violão, em um lugar e clima bem intimista. O show era numa sala anexa ao PUB, bem escura, acarpetada, com mesas e não mais do que umas 70 pessoas. E os músicos só tocavam músicas próprias, nada de cover, o que não afetou a qualidade do show: as canções eram realmente boas, e conseqüentemente os músicos também. Depois falei com a garçonete, e ela me disse que além dos Stones, que tinham se apresentado lá nos anos sessenta, mais um monte de gente tinha tocado lá. E quando ela falou isso ela apontou para as paredes, que estavam crivadas de quadrinhos com fotos de músicos: Stones, Mark Knopfler, Peter Frampton, U2, Pete Townshend, Roger Waters, Rod Stewart, Rick Wakeman...


Qaudros com as bandas que passaram pelo bar

Half Moon, Pub em Putney

Apesar dos meus relatos apenas sobre viagens e boa vida, não pensem que tudo vem tão fácil assim. No último sábado, por exemplo, trabalhei quatorze horas seguidas na bike. Mas pelo menos quase virei lenda de novo... Um grande abraço, com saudade,

Thomas

18 de outubro de 2008

12.ª SEMANA: Tango-bixo-bolero-man

Ol'a! E aqui estou eu mais uma semana! Mas desta vez nao mais no computador de casa. Agora a "fubica" estragou de vez, da'i estou aqui no internet caf'e para escrever para voc^es, e como j'a devem ter notado, aqui o teclado nao est'a configurado para portugu^es, logo, os acentos saem como ele bem entender.
Bom, hoje 'e terca-feira e eu acabo de chegar de Oxford. Mas dessa vez n~ao de Oxford Street, e sim de Oxford mesmo, a cidade! Passamos o dia l'a e estava muito bom! Fomos eu, o Andr'e, Marcus, Lelo, a Ismara e Lel^e, nossas duas amigas mineirinhas. Fomos de ^onibus, sa'imos as 6 da manh~a aqui de Londres, o que significa que acordamos as 4 da matina pra pegar o metr^o as 5 e sem atraso conseguir pegar o ^onibus as 6 da manh~a. Um detalhe interessante 'e que n~ao pagamos nada pelas passagens. Na verdade tivemos que pagar 50 centavos de libra, que correspondem `a taxa de reserva, algo que na verdade 'e simb'olico. E ent~ao passamos o dia l'a, visitando as universidades e tudo mais. Tudo mais n~ao, porque na verdade praticamente a cidade 'e s'o as universidades mesmo. Mas s'o elas j'a valeram a viagem! Oxford na verdade tem 39 universidades que funcionam quase independentemente. Na verdade existe uma instituic~ao que congrega todas elas, mas que na verdade eu n~ao sei pra que serve. Fizemos uma visita guiada por algumas das universidades e o guia tentou nos explicar, mas n~ao deixou muito claro - ou de repente eu 'e que n~ao achei o ingl^es dele muito claro. Inclusive estivemos no local onde foram gravada algumas das cenas do Harry Potter, que na verdade 'e o refeit'orio de uma das faculdades.

Refeitório do Harry Potter, esperando estudantes para o jantar


Lelê e Ismara na frente, Marcus, André, Lelo e eu atrás




Cenas oxfordianas


Eu, Marcus, André, Lelo, Lelê e Ismara


André e eu em Oxford

No final do dia de turist~oes que tivemos, resolvemos ir a um PUB que o nosso guia tinha nos mostrado e dar de mais turist~oes ainda. Muito bala o PUB! Tri "mocado", como o Lelo falaria... Era num lugar escondid~ao mesmo, que n'os nunca ir'iamos desbobrir n~ao fosse o nosso guia. Era numa casa torta, antigona, com um p'e direito um tanto menor que os meus quase um metro e noventa. Os muitos avisos de "Mind the Head" n~ao foram o suficiente para evitar que, depois de alguns pints, l'a pelas tantas, eu batesse o cabec~ao em uma das vigas seculares de madeira. E da'i, l'a, al'em de provar excelentes ales e uma consagrada Guiness, me dei ao direito de, pela primeira vez em quase 3 meses de Londres, fazer uma Refeic~ao (com "R" mai'usculo mesmo) em um restaurante - paga por mim, pois meu primo outrora j'a tinha me oferecido uma janta em um italiano da City. Comi um caneloni com espinafre, mushrooms, molho bechamel e queijo, muito queijo, que estava estupendo! Mais ainda pelo clima do momento: great friends em um great place apenas enjoying the youth!
Durante esta semana tivemos mais uma agregação: o Gabriel, colega meu l'a na escola, foi morar l'a em casa com sua namorada. Agora dos 3 que 'eramos inicialmente j'a somos 5 (Marcus, Andr'e, Lelo, Gabriel e eu)!
Ontem, o Andr'e e eu fomos no IMAX, um cinema em terceira dimens~ao, assistir a um filme chamado "Walking on the Moon". Muito interessante! O cinema 'e do arco, a tela tem 20 x 27 metros e 'e 10 x maior do que uma tela comum de cinema. O sistema de som tem 12000 watts de pot^encia e 'e realmente o melhor que eu j'a vi ouvi! E os efeitos 3D eram realmente perfeitos. Eu j'a tinha assistido a outras coisas em 3D, mas esse me pareceu mais perfeito, E al'em de tudo isso, o filme era realmente bom: um document'ario que contava toda a hist'oria do programa Apollo e que faz o expectador sentir-se como se realmente estivesse caminhando na lua.

Holland Park, Londres

Agora a sec~ao "Hist'orias de um rickshaw rider":
Tinha eu levado um cliente para um hotel perto de Victoria Station. Victoria Station 'e uma das grandes estac~oes de trem que existe na cidade, e 'e um lugar um pouco afastado do centr~ao. O raio de ac~ao de um rider n~ao 'e muito grande, se comparado ao tamanho da cidade, que tem 7 milh~oes de habitantes. Isso quer dizer que eu at'e levo passageiros para outros lugares que n~ao sejam os mais centrais (Covent Garden, Leicester Square, Piccadilly...), mas n~ao muito longe. Pois ent~ao Victoria 'e um desses lugares que 'e meio termo, n~ao 'e nem grudada em Piccadilly Circus nem t~ao afastado assim, afinal j'a levei pessoas em lugares consideravelmente mais longe. E da'i, quando se faz essas corridas um pouco maiores, 'e bom porque obviamente s~ao corridas mais caras e, al'em disso, os clientes geralmente notam o esforco despendido e tendem a dar mais gorjetas. Mas o ruim 'e que depois se perde um longo tempo voltando para o "centro" e geralmente sem clientes, pois n~ao 'e grande a probababilidade de conseguir um cliente em Victoria ou em outro lugar afastado. Poi ent~ao voltava eu de Victoria quando, numa rua bem deserta, j'a talvez uma da madrugada, vejo um senhor saindo de um bar ou restaurante e, como de costume, largo o meu jarg~ao: "Do you want a ride?" O v'eio tava saindo do lugar e, ao que me lembre, era a 'ultima pessoa. Acho que ele estava literalmente fechando o restaurante... E ent~ao ele respondeu algo como: "Yes!" Eu j'a tinha passado uns bons metros em minha inércia, pois quando perguntei estava andando. Então parei e ele veio em minha direc~ao. A cena: o gentleman tinha seus bons quase 70 anos e carregava em sua m~ao direita um copo com gelos imersos num l'iquido transparente. Ele parecia um misto de bixeiro e cantor de bolero ou tango, n~ao sei bem. Vestia o seu palet'o, carinhosamente despassado depois de umas que outras, por cima de uma camisa abotoada at'e a metade do peito. Estampada no peito trazia uma pequena tatuagem, a qual n~ao me lembro o contexto, dada a efemeridade da situac~ao. Um cap'itulo a parte do estiloso tio eram seu acess'orios: prateados an'eis, talvez colar e um que outro brinco. Pois ent~ao depois do primeiro jarg~ao vem o qu^e? O segundo jarg~ao, 'e claro: "Hi! Where do you want to go?" E da'i ao iniciar sua resposta pude comprovar o seu grau alco'olico. O bolero-man n~ao chegava a estar caindo de borracho, mas deixava escapar sorrisos e sua l'ingua enrolava o seu ingl^es, que pra mim j'a seria enrolado em condições sóbrias. Ent~ao ele disse que queria somente atravessar a rua na bike e me perguntou quanto era. Eu pensei e disse: "'´E 50p", algo como two and a half reais. Ele sentou na bike e eu perguntei exatamente onde ele queria ir e ele me apontou a esquina oposta (diagonal). Desta maneira, o meu 'arduo trabalho seria atravessar a rua com o bixeiro. Fiz o percurso indicado e ao t'ermino ele desembarcou calmamente da minha bike. Ao pegar sua carteira do bolso pediu para que eu segurasse o seu copo. Assim o fiz e n~ao me conti em perguntar o que havia dentro do copo, pois era transaparente mas eu duvidava que fosse 'agua ou Sprite. A resposta: "Holy Water!" N~ao entendi o que era e repeti, com tom interrogativo: "Holy water?" Ao que ele fez o sinal da cruz e eu entendi que, claro (!), ele estava tomando 'agua benta... 'Agua benta do diabo talvez. Pois ent~ao enquanto eu segurava o copo do tangueiro ele tirou algumas moedas do bolso e deu uma olhada e tal... e eu pensando: "B'a, bem que esse cara podia me dar todas essas moedas..." Devia ter uns quase 3 pounds ali, mas ele voltou a guard'a-las, pegou a carteira e eu pensei: "B'a, o tiosinho quer encontrar uma moeda de 50 centavos mesmo." Pois eis que ent~ao o tango-bixo-bolero-man tira um dez~ao do bolso e simpaticamente estende o braco e me d'a... Para esclarecer, dez pounds equivalem a more or less 45 reais. Consta que o meu sorriso deve ter sido maior do que todos os que o dito cavalheiro tinha dado at'e ent~ao. Pois eu me despedi e j'a estava quase engatando a segunda, quando o senhor meu amigo, em tom de experi^encia, profere a seguinte frase: "One day..." Ao que eu, simples aprendiz, respondi: "Yeah... one day..."
E tomei meu caminho de volta ao centro do centro da cidade. Um grande abraco, com muita saudade,
Thomas