Depois do baita susto, o qual relatei sinteticamente no último e-mail, tudo deu certo: o cara devolveu minha câmera e a história acabou com final feliz. Semana passada foi muito boa. Especial, eu diria. Por dois motivos principais: o Renato, meu ex-colega de engenharia que está estudando em Marselha, veio para Londres passar a semana e o Natal aqui com a gente. Mundial! Pra começar, na terça-feira, que era aniversário dele, fomos - Renato, Chico, Marcus, Lelo e eu - na Pizza Hut e lotamos a barriga daquelas pseudo-pizzas que eles fazem aqui. Foi emocionante! Obviamente, não pela pizza; relembrei nossos saudosos almoços no Armazém do Sabor ou em outro buffet qualquer com a galera da faculdade reunida... Aquele clima de parceria mesmo. E então esse almoço foi a mesma coisa, só que na Pizza Hut de Piccadilly Circus, em Londres! Tinha o Lelo como variável de ruído, visto que não provém da engenharia, e faltou o André, que ainda não havia chegado de viagem. Mas ficou 6 por meia dúzia.

Daí o Renato passou a semana aqui e no sábado fizemos um festão de Natal aqui em casa. Tava muito bom, e em todos os sentidos! Comida excelente, um formoso pudim de leite de “overtable”, a melhor companhia de todas, música pra vizinho nenhum não reclamar, enfim, uma truly ceia de Natal entre amigos, loucura total. Muito Jorge Ben e Jack Johnson na caixa, a galera toda bebendo e se divertindo, e a parte que eu mais gostei: todo mundo cantando aos berros – e eu não só gritando como dançando sozinho no meio da sala, que cena... – para tentar acompanhar o violão! Sim, porque no nosso Natal teve até violão, e ligado no amplificador! Meu amigo, classmate e housemate Gabriel e eu puxamos a palheta e tiramos um som. Do arco, como diria meu pai.
Nosso memorável Natal
Bom, o que acontece é que os caras aqui na Inglaterra fazem do Natal o seu carnaval. Não no sentido de fazer tanta festa. Isso não, na real eles nem fazem festa na véspera e ficam o dia 25 todo em casa. Aí que está o problema: no dia 25 não tem ônibus, nem metrô, nem nenhum transporte coletivo. Simplesmente a cidade pára e todo mundo passa o dia em casa talvez rezando com o Papai Noel. No dia 26 é feriado também, chamado Boxing Day... E tem mais, no dia 27 é feriado bancário, ponto facultativo. Carnaval, não falei?Mas daí, por causa disso, aconteceu uma coisa realmente engraçada. Na nossa festinha aqui em casa tinha umas 20 pessoas, algumas das quais eu sequer conhecia. O que aconteceu foi que, no domingo, dia 25, quando acordo, já passado e muito o meio-dia, saio da quarto, vou chegando na sala e ouço uma barulheira. Quando vejo, a maioria dos convidados da nossa festinha ainda tava aqui. E então a nossa casa, pelo menos durante dois dias, virou uma coisa meio Novos Baianos, algo assim. As pessoas passaram o domingo inteiro aqui, dormiram de novo, e só na segunda voltaram para suas respectivas moradas. Segundo palavras que ouvi de alguém, o nosso Natal tava parecendo casamento de parente do interior.

Cenas do Natal insano
Mas então na segunda-feira, o Marcus, o André e o Lelo saíram de viagem para Holanda e Bélgica. Essa viagem foi decidida há muito tempo, e na época achei melhor não ir, pois além de já conhecer os locais para onde eles queriam ir, pensei que essa última semana do ano pudesse ser muito busy, o que renderia uma boa grana. Mas no fim da semana passada já estava arrependido. Como eu tinha passagem pra Paris comprada para sexta-feira, só poderia trabalhar 3 dias na semana - terça, quarta e quinta. E então vi que não seria um bom negócio, pois o valor que eu teria que pagar pelo aluguel da bike seria o mesmo que pago para usá-la a semana inteira. Falta de planejamento. Mas paciência, tive que trabalhar... E tava difícil! Na verdade só trabalhei um dia e meio. Na terça, apesar do frio, deu pra ganhar um dinheirinho e pelo menos cobrir o aluguel da semana. Além disso, terça-feira teve um gostinho especial, pois foi meu primeiro dia de trabalho com neve; bonito mesmo. Mas na quarta foi a noite mais fria do ano, segundo a TV, e daí eu tive que jogar a toalha. Fiquei uma hora parado em Leicester Square sem pegar um cliente, num frio até então sem precedentes. Voltei pra casa.
Essa semana teve um gostinho especial, pois trabalhei menos e tive a chance de acordar antes e sair de casa antes. Isso pode parecer uma simples questão de horário, mas faz uma grande diferença, pois pude ver o sol. E por incrível que pareça fazia tempo que eu não tinha a chance de ver Londres em plena luz do dia. No meu horário habitual de estudante-trabalhador, saio de cada pelas duas e meia e o sol está se pondo. Pego o metrô e quando chego ao centro para aula já está ficando escuro. E essa semana vários dias tive que sair mais cedo para resolver algumas coisas – compras – e realmente adorei! É como se eu tivesse me sentido novamente turista em Londres. Wonderful.

Eu e minha bike, na noite mais fria do ano

Neve na nossa rua
Mas a semana foi passando, o mês foi passando e sim, o ano passou! Vem chegando mais uma vez um novo ano e com ele todas as vontades e desejos de novo. Porque somos assim, o que não conseguimos no que passou, sempre queremos no que está vindo. E como é bom que assim seja. Dia desses recebi um pensamento, supostamente do Drummond, o qual eu já havia lido outrora. Diz assim:
("A genial idéia de fatiar o tempo"-Carlos Drummond de Andrade)
Mas então hoje ou amanhã, dois últimos dias do ano, enquanto vocês tiverem arrumando os porta-malas, eu estarei neste ano fazendo uma coisa diferente. Estarei arrumando minha mala para tomar o rumo da cidade-luz: Paris!
Acho que até antes de chegarmos aqui em Londres eu às vezes já comentava com as pessoas a respeito do grande sonho que eu tinha de passar o ano novo lá. Then, chegamos aqui e o sonho foi aumentando, compartilhado com outras pessoas que criaram o mesmo desejo, e no fim ele vai se realizar! Depois de muitos diálogos e convites, fui convencendo meus amigos, que foram convencendo os nossos outros amigos e no fim seremos quase 15 brasileiros, de diferentes lugares, que se encontrarão em Paris para uma verdadeira festa de ano novo. E sabem onde vai ser essa festa? Obviamente que vai ser na rua. Seja ao lado da Torre Eiffel, na Champs-Elysées, margem do Sena, I don't care. Onde for será maravilhoso! Como diz o Rafa, acompanhados apenas de champanhes nacionais. Pois sim, tomarei champanhes vindas donde? De Champagne! Mas a companhia será a melhor parte, só a galera mais parceira, seja os que vieram comigo ou os que aqui conheci.
E não quero que pareça que estou me exibindo, a minha intenção não é contar vantagem. Apenas estou absolutamente feliz por pensar que hoje, uma sexta-feira à tarde, estarei aqui em Londres tomando o rumo de Waterloo Station, para lá pegar o trem que 3 horas depois me deixará direto no centro de Paris. E assim acho que fecho meu ano, que foi um tanto atípico, com chave de ouro, prestes a passar por talvez um dos melhores momentos da minha vida: o réveillon em Paris!
E para deixá-los informados sobre meus planos de viagem, fico em Paris até o dia 5, quando o André, Marcus e eu alugaremos um carro e viajaremos pela França, chegando em Nice no dia 10. Daí me separo deles e vou para Marselha, encontrar novamente o grande Notórius Renato, onde serei recebido em sua residência por a coulpe of days. Dia 12 então pego um trem direto a Milão, onde dia 13 é chegado o grande dia de rever as 3 mulheres da minha vida: minha irmã, minha mãe e minha vó! E com elas ficarei passeando pela Itália até o dia 29 de janeiro, quando pegaremos o vôo para Londres. De volta a esta cidade, com elas ficarei até o dia 3 de fevereiro, quando retornam para o Brasil e eu retorno à minha realidade de estudante-trabalhador. Nada mal.
Durante todo esse tempo não pretendo mandar e-mails. Ou seja, vocês descansarão de mim durante mais de um mês. Mas não se preocupem que quando voltar provavelmente terei algumas histórias pra contar. Daí mando as edições atrasadas de uma vez só.
Desse ano que passou tenho só grandes recordações. Acho que não me equivocaria em dizer que foi o ano mais importante da minha vida. E vocês acompanharam quase a metade dele, através de meus relatos talvez por vezes chatos, mas sempre sinceros. Cada um tem seus desejos pro ano que chega. Acho que o meu é apenas que tudo continue como está. Tenho pela frente ainda mais meio ano de Europa, e tudo que quero é que tudo dê certo como deu até agora. E que a segunda metade de 2006, já com vocês aí no Brasil, seja maravilhosa também!
Espero que cada um tenha seus desejos e os veja realizados. Talvez não todos, para que daqui um ano possamos parar e lembrar novamente do Drummond. Um grande abraço, daqueles apertados da meia-noite da virada, com muita saudade de todos,
Thomas































