Longe de Casa é um convite para você sentar-se confortavelmente na cabine de uma bicicleta-táxi e se deixar levar pelas ruas de Londres e da Europa. Dando o rumo dessa aventura, um estudante brasileiro de 21 anos que resolve dar um tempo de sua rotina em Porto Alegre e, junto com alguns colegas de faculdade, abrir a cabeça para novas experiências de vida no Velho Mundo. Se você procura um guia de viagens sobre a Europa e Londres, talvez este blog possa lhe ser um bom thriller de aventura. Para quem quer divertidos contos, de repente se depare com boas indicações musicais. E se você é um jovem que também pensa em passar por uma experiência em algum lugar no exterior, o que você encontrará aqui não apenas lhe fará rir ou trará boas dicas turísticas, sobre bandas e cantores: além de informação e entretenimento, os posts deste site aos poucos tentarão lhe mostrar uma outra maneira de enxergar as coisas. A maneira como alguém de 21 anos encara a vida longe de casa: aprendendo sempre.

12 de maio de 2009

41.ª E METADE DA 42.ª: frio na barriga

Começo a escrever num momento de ânimo não muito bom, mas se não escrever agora sobre a última semana e meia, não o farei mais. Agora já são 00:32 de sexta-feira, e daqui a algumas horas, pela manhã, eu estarei pegando o avião rumo a Dublin. Os últimos 10 dias foram realmente muito especiais, mas acho que não vou conseguir contar as coisas direito e com calma. É que estou realmente nervoso. E na verdade nervosismo é um sentimento com o qual, acabo de descobrir, não me dou muito bem. Sei lá, me considero uma pessoa calma, quando muito rola uma ansiedadesinha só, mas essa vez o negócio tá complicado. Idealizem que estou pra começar a aventura mais louca da minha vida - até agora, pelo menos. Ficarei 37 dias viajando completamente sozinho, tudo por conta própria. Devo encontrar o Chico e outros amigos por alguns dias em Barcelona, mas o resto será tudo eu e eu. Então a sensação que sinto agora é muito estranha, é como se fosse um frio na barriga ao extremo. Isso se soma com a sensação de estar deixando Londres, o que me deixa meio triste. Na verdade depois eu voltarei para Inglaterra, onde ficarei mais uns 10 dias em Londres e outros 10 viajando pela Grã-Bretanha. Logo essa ainda não é a minha despedida desta cidade, mas é a despedida da vida que eu tinha aqui: últimos dias de trabalho, últimos dias nessa casa – onde morei desde o início –, últimos dias com algumas pessoas que nem vou mais ver. Ao mesmo tempo que, ao pensar em deixar Londres, fico assim, olho para o outro lado e vejo quantos lugares novos, pessoas novas e aventuras novas me esperam. Então tudo isso que eu falei se mistura e cria uma coisa: nervosismo.
Mas tenho algumas coisas para contar sim. A começar que semana passada foi minha última semana de trabalho, última mesmo. Também foi a semana que mais trabalhei de todas e a que mais ganhei dinheiro também. Nada mal em fechar com chave de ouro – carteira lotada. Quem leu meu último e-mail talvez se recorde que eu havia comentado que tinha trabalhado no domingo, véspera de 1.º de maio, e que tinha sido muito bom, poucos riders na rua e tal. Pois então a semana passada começou já assim. Depois seguiram-se dias belíssimos, onde a temperatura aumentou consideravelmente, a ponto de eu conseguir trabalhar um dia de camiseta de manga-curta até o final da noite. Vocês podem achar isso banal, mas é que depois de ter pego o frio do inverno durante meses que pareciam intermináveis, na real eu talvez tenha ficado meio complexado, o que faz com que uma temperatura tão agradável, a ponto de se ficar de camiseta à meia-noite, seja o suficiente para me fazer comemorar.
E então seguiram-se dias quentes but no sábado, o derradeiro dia de trabalho, o que aconteceu? Choveu e fez frio. Assim, pedalei minha tão querida bicicleta por um último sábado, que foi como qualquer outro, exceto pela carga sentimental que foi aparecendo de repente. As horas foram passando, eu levando os clientes para lá, para cá, e comecei a notar que aquela seria a última vez que eu estava levando alguém para Victoria, ou para o Covent Garden, ou naquele hotel. E ao mesmo tempo em que eu queria que tudo acabasse para ter aquele sentimento de dever cumprido, queria que continuasse, mais rides, mais risadas, mais pessoas diferentes para bater-papo. A madrugada entrou, a chuva parou e de repente já era 4 e meia da manhã, horário que o centro já está quase que completamente vazio, só uns gatos-pingados, como diria minha mãe. Então fiz uma coisa muito legal: já amanhecia, aproveitei a cidade vazia – de pessoas e veículos –, peguei minha câmera de vídeo e fiz um filme, pedalando a bike mesmo, pelos lugares que tanto vão me deixar saudade. Resolvi que não podia deixar a memória começar a me passar pra trás daqui uns anos, apagando as cores e formas destes lugares. Porque às vezes achamos que nunca vamos esquecer das coisas, mas acabamos esquecendo dos detalhes. Prova disso são as nossas casas. A vida vai passando, vamos nos mudando e, depois de muitos anos, é difícil lembrar-se dos detalhes de cada peça da casa, como era o armário da sala, onde ficava a TV no quarto e assim por diante. Daí peguei minha câmera e eternizei. O caráter documental da fotografia, mas com som e movimento incluso.
Domingo comi uma feijoada muito boa na casa de uma amiga, a Rosangela, e estava fenomenal! Assim já entro na semana de número 42, que foi realmente muito corrida. Apesar de já estar oficialmente em férias, ainda tinha que resolver, comprar e escolher um monte de coisas. Mas foi uma semana - ou pelo menos metade dela - muito bala! Quarta-feira foi meu aniversário e então convidei uns amigos para fazer uma roda de violão lá no Hyde Park. Tava muito tri! O dia tava lindo, alto astral da gurizada, tranqüilidade, algumas Stellas, eu me empolgando – como sempre – ao violão... Até que não foi muita gente, mas o pessoal que foi era parceria mesmo. Prova de que tudo se renova, e as amizades também. Dessa vez não havia ninguém que veio comigo do Brasil – como já lhes contei, os guris todos já se mandaram –, apenas pessoas que fui conhecendo ao longo do tempo por essas terras. Nada mais do que a idealização daquilo que eu, meio cabisbaixo, auto-preconizava para vocês, talves 2 meses atrás: de que, na ausência nos meus amigões do peito, eu teria que encontrar novas pessoas, novas amizades.

Meu aniversário no Hyde Park


Era mais um ciclo simbolicamente se fechando. Entre tantos outros discos da minha vida que já tinham girado. O disco das conquistas dos primeiros meses, quando chegamos aqui e tivemos que praticamente começar tudo do zero. Aos poucos isso era passado: estávamos adaptados, empregados e, sobretudo, felizes. Depois o inverno viria e castigaria; as noites de trabalho que eram amenas no início passariam a ser insistentemente geladas e más. Mas a perseverança foi superior, e mais um disco girou: há pouco vocês liam meu brado acima, feliz pela simples utilização de uma camiseta durante toda noite de trabalho. Pode parecer besteira, mas era nitidamente o ciclo se fechando; era eu me lembrando que o clima das noites de agosto do ano passado, já uns tantos meses atrás, havia voltado. Nada mais nada menos do que o verão novamente. E dentre outros ciclos fechados ou se fechando, o da busca por novas companhias...
Assim esses dias se passaram, consegui fazer tudo que precisava, levei todas minhas bugigangas lá pro apartamento do meu primo, onde elas irão ficar até a minha volta. E agora estou aqui. Vejo na minha frente cidades e mais cidades espalhadas por vários países, e vejo também a realização de uma grande etapa da minha vida. Os próximos dois meses serão literalmente, por mais clichê que pareça, conseqüência das gotas de suor que rolaram enquanto eu pedalava por aí. Agora sou eu, meu mochilão e a vontade de curtir tudo isso!
Vocês também poderão curtir umas férias de mim, pois não tenho intenções de seguir com meus boletins, ao menos nas próximas 5 semanas. Quero férias completas: estudo, trabalho, tecnologia. Depois, já em Londres, dou as caras.
Antes de me despedir, queria só relembrar o meu roteiro, caso alguém esteja curioso. Espero que não enxerguem algum grau de exibicionismo nisso; sei que facilmente as pessoas tendem a encarar dessa maneira. Primeiro passarei 4 dias na Irlanda, depois mergulho na Espanha e volto à superfície em Portugal. Sigo para Paris, um baguete com aquela manteiga que só eles sabem fazer, e sigo para Praga. Então faço as duas últimas cidades: Viena, na Áustria, e Budapeste, Hungria. And that´s it.
Fico por aqui nesse e-mail mais que pobre. Amanhã faço o happy hour em algum truly Irish Pub, provavelmente sozinho, tomando algumas Guiness. E brindarei, mesmo que on my own, a todos vocês. Pois assim como sei que estarei sozinho nas próximas semanas, sei também que muitos de vocês estarão freqüentemente me fazendo companhia, lá naquele lugar que nós chamamos de mente, e que um inglês sonoricamente diria: "on my mind". Um grande abraço para todos, com muita saudade,


Thomas

4 de maio de 2009

38.ª, 39.ª e 40.ª SEMANAS: quase deixando Londres e caindo na Europa

Fiquei 3 semanas sem me comunicar e agora mando um boletim triplo, ora pois. E realmente fiquei essas semanas sem escrever por pura falta de tempo. Três são os motivos. A minha viagem em si é o primeiro deles: quando penso que já está quase tudo resolvido, descubro que tenho mais lhões de coisas para decidir e organizar. Segundo, o trabalho. Tenho realmente trabalhado bastante, mas não que isso seja algo penoso ou que me aborreça. Pelo contrário, estou conseguindo reach todas minhas metas monetárias. E por último a boemia, que tem prazeirosamente me tirado algumas horas.
Mas então vou tentar relembrar os acontecimentos. Como todos sabem, a couple of weeks ago foi Páscoa, e aqui é feriado na sexta-feira - "santa" - e na segunda - que não sei se é "santa" também. Pois como sexta era feriado, o pessoal obviamente resolveu sair pra noite na quinta, como também acontece em qualquer véspera de feriado no Brasil. Então a quinta-feira foi para o rickshaw business como uma sexta-feira, ou seja, muito boa. Não contentes, as pessoas saíram na sexta de noite também, afinal era como se fosse o sábado da semana. E no sábado, ora... era sábado, então saíram de novo. Resultado: uma semana com virtualmente uma sexta e dois sábados, tudo que um rider sempre sonhou. Esse foi o parágrafo do trabalho.
Daí era domingo de Páscoa e, além disso, dois dias antes havia sido aniversário do Chico. Nós já haviamos inclusive comemorado naquela semana indo no Sports Café, um bar/club com temática esportiva, bem agradável até. Mas não contentes com apenas uma comemoração, no domingo fomos - Chico, Marcelo, nosso flatmate, e eu - na Ministry of Sound, um dos mais famosos clubs de Londres. Fizemos uma concentração bem interessante com algumas Stellas, se não me falha a memória, e então entramos lá sabendo dançar horrores! Tava muito bala, sonzeira eletrônica pegando até 5 da manhã e a gente curtindo ao modo inglês: cada um dançando na sua de qualquer jeito mesmo. Mas não é só por isso que entoei a palavra “boemia". É que nos últimos tempos tenho ido bastante a diferentes bares e tal, coisa que quem me conhece bem sabe que adoro fazer em Porto Alegre. Troco qualquer pista de dança por uma mesa de bar. Pois então, quando sobra um tempinho aqui, um day off acolá, tem rolado uns barzinhos bem bacanas: lugares que eu sempre passava e queria conhecer e só agora estou tendo a oportunidade. Meus companheiros principais desse parágrafo: Chico, nas baladas mais fortes, e Dany, meu primo, nas cervejas ou vinhos compartilhados por aí - e uma que outra companhia feminina para deixar tudo mais colorido.

Lá em cima: indo para a Ministry of Sound

As outras: Na ministry


Dia desses Chico e eu fomos assistir ao "We will rock you", um dos muitos musicais que povoam o West End, centro do centro de Londres. Como o nome já assopra, não é nada mais do que um musical com o Queen de tema principal. E não que isso não seja o bastante, muito pelo contrário. As músicas de Fred Mercury e sua trupe eram tão boas que seria difícil fazer um musical ruim, pra não dizer impossível. E então pude me deleitar com mais de duas horas de pura música, sendo majestosamente interpretada por uma honesta e excelente banda de apoio. Tudo isso acompanhado de muitos efeitos especiais, como mandaria o script de um mega-show de rock. Para os mais perdidos, Queen foi aquela banda inglesa fenomenal dos anos 70/80 da qual o Fred Mercury fazia parte. Sacou?

We will Rock you


Nesse meio tempo dei uma passada nas duas maiores lojas de CDs da Inglaterra, a Virgin e a HMV. As duas tavam em liquidação, com umas ofertas muito boas. Que fiz? Comprei muitos CDs, seguramente mais de 10! E dei várias dentro. Entre outros artistas já por mim apreciados, aproveitei para comprar álbuns de bandas de respeito, mas que eu ainda não tinha tanta intimidade. E assim o fiz com Miles Davis, The Smiths, The Beach Boys e YES. Todos me agradaram muito, mas esse último simplório nomesinho, YES, realmente me abalou! Fiquei me perguntando como que ninguém havia me mostrado isso antes. Até meu pai, que sempre foi minha principal fonte de conhecimentos para assuntos musicais de décadas longínquas, passou despercebido por esses caras. É óbvio que eu já tinha ouvido falar deles, conhecia uma que outra música que, vez que outra, toca na rádio. No mais, para mim o YES era simplesmente um dos criadores de uma coisa chamada "rock progressivo", que por sinal nunca entendi direito o que é. Mas qual não foi a minha surpresa quando me deparei com a música dos caras e vi que era superb, realmente muito boa. Grande descoberta para um cara de 21 sedento por novas - ou velhas? - referências musicais.
Mas acontece tanta coisa em 3 semanas na vida de uma pessoa que eu tava quase esquecendo de uma delas. O meu problema do banco foi resolvido: devolveram-me todo o dinheiro! Uma segunda-feira dessas fui acordado com uma ligação de uma mulher do banco. Como vocês já sabem, os meus horários aqui são pouco ortodoxos, então já passava de onze da manhã mas eu ainda curtia um bom ronco. Daí acordei, aquela coisa de não saber direito que horas são, se era ligação ou apenas o alarme do celular, que língua falar, ou seja: acordei ainda dormindo. E daí a lady se apresentou, disse meia dúzia de frases que eu não me lembro ou não entendi, e o que interessa é que ela disse que o meu dinheiro seria depositado integralmente na minha conta naquele dia, e isso eu entendi muito bem! Well, que fiz eu? Comemorei, é claro! O Chico casualmente tinha viajado e então fiz um rangão arregado - como diria meu saudoso amigo Novás - pra mim mesmo, on my own. Era segunda-feira, o que pra mim equivale ao domingo de uma pessoa normal - pois meus day offs são domingo e segunda - e então comemorei o final feliz de meu problema financeiro tomando umas cervejinhas e curtindo uma comidinha legal, que nem me lembro qual foi. Mas isso não bastava, e então de noite saí com meu primo e umas amigas. Pra onde? Um bar, é claro. Fomos no Porter House, talvez o bar mais bala que tem aqui. Além de ser cervejaria - vender sua própria cerveja -, os caras vendem também cervejas de all over the world. Um paraíso para os apreciadores de uma boa cervejinha - ou "pão líquido", teoria que os alemães costumam pregar, segundo meu primo me contou. Achei essa do "pão líquido" muito fraca, mas muito engraçada ao mesmo tempo. Mas então naquela semana - a passada - tudo começou dez patrão. Very well done.
Sexta passada Chico e eu saímos cedo para comprar nossos euros, que serão muito prazeirosamente gastos em nossas respectivas viagens. Fazia um dia lindo, temperatura amena, e depois de rodarmos por várias casas de câmbio acabamos comprando numa que fica na Strand. E a Strand fica perto de Waterloo Bridge. E daí vocês já podem imaginar. Compramos algumas Buds no Tesco e atravessamos a ponte como forma de comemoração do feito. Comprando os euros era como se simbolicamente estivéssemos comprando a nossa viagem, era como se todo o esforço de pedaladas e pedaladas em noites austeras se transformasse em alegria e recompensa naquele momento. Simplesmente wonderful!

Comemoração após transformarmos nossas pedalas em euros para a viagem.


Então os dias foram passando e de repente chegou a hora do Chico também se mandar, começar o mochilão dele. Obviamente ele não poderia partir sem uma última festinha ou qualquer coisa assim. Então ele marcou pra domingo de noite um agito aqui em casa. Eu, atipicamente, trabalhei neste domingo, pois tinha um guess de que seria forte, afinal segunda-feira seria feriado - primeiro de maio. E dei uma dentro, o bolso encheu mesmo. Comecei cedo, 15:30, e pelas 11 da noite começou a chover forte. Daí tinha muitos clientes e quase nenhum rickshaw na rua. A chuva tava pegando, a temperatura não tava das mais agradáveis e eu querendo muito ir pra casa curtir a festinha, mas também não querendo desperdiçar a oportunidade econômica. Então trabalhei até a 1:30 e me mandei. Cheguei em casa quase uma hora depois e o pessoal tava aqui e tal, até meio parados e tal. Na real tava só alguns dos moradores da casa mesmo: Chico, Lelê, Marcelo e Giovani. Cheguei... Baixa uma Leffe, baixa uma Stella, baixa o violão... E qual o resultado? Ficamos até as 6 horas da manhã bebendo, tocando violão e cantando alucinadamente. E então isso ocoreu por uma última e derradeira vez nessa casa. Quem lê meus e-mails sabe que fizemos isso inúmeras vezes ao longo do tempo que estou aqui. E como foi bom. Daí de repente os guris foram indo embora e a casa começou a ficar vazia, moradores novos e tal. Então nesse domingo, despedida do Chico, com certeza pela última vez, ao menos nessa casa, entoei todo aquele repertório que toco há uns bons anos e que vocês no Brasil provavelmente já tiveram a chance - prazer ou desprazer? - de escutar. Anexei algumas fotos para ilustrar a situação. A diferença é que sempre costumava ter mais gente em nossas rodas de violão. Mas o que interessa é qualidade e não quantidade.

A última roda de violão aqui em casa.


Fui dormir pelas 6 da manhã, depois de ter pedalado mais de 30 horas nos 3 dias anteriores, e às 10h já tava acordado. O Chico tinha que levar suas malas para a casa de uns parentes, numa cidade satélite de Londres, onde ia deixá-las enquanto viaja. Então ajudei a mala do Chico carregando uma de suas malas até Victoria Train Station, onde ele precisava pegar o trem. Na volta pra casa eu poderia pegar o metrô, mas me lembrei que havia uma linha de ônibus - número 52 - que fazia o percurso Victoria/Willesden Green (o meu bairro), a qual eu nunca havia pego e cujo trajeto passava por lugares muito bonitos. Era meio-dia de um dia lindo; uma segunda-feira, que por ser feriado, lembrava um grande domingão de sol. Peguei o ônibus. Que maravilha! Grande sensação, um álbum de imagens lindas para os olhos e um banho de mar para alma. Fui ouvindo o meu Miles Davis novinho - e excelente - enquanto o ônibus rasgava Knightsbridge, costeava todo Hyde Park e Kensington Gardens até chegar em Kensington e rumar a Notting Hill, passando por Ladbroke Grove e seguindo depois rumo ao norte até chegar no meu bairro. Se tenho dicas para quem vem a Londres, essa é uma delas: sentar no segundo andar do 52 e fazer o trajeto Victoria - Ladbroke Grove (ou vice-versa), de preferência num dia bonito, e só curtir as imagens, a arquitetura da cidade, a natureza e beleza dos parques, a vivacidade da cidade.
Cidade essa que já começa aos poucos a me dar nostalgia. Um dia depois o Chico tomou o rumo de Portugal e eu fiquei aqui, mas apenas por mais 10 dias. Depois de meses de companhia e parceria de todos esses personagens que citei ao longo dos tempos - André, Marcus, Chico, Lelo, Biri, Rafa -, agora sou eu e eu aqui. Mas não que isso me aborreça. Ironicamente, tem acontecido tanta coisa boa para mim nos últimos tempos que estou curtindo muito Londres. A sensação de missão cumprida começa a chegar e brincar com os sentimentos. Mas ainda tenho mais uma semana de trabalho, ainda restam alguns quilômetros a pedalar.

Novo time de riders brasileiros e um click em Southbank


E para acabar este boletim, é com muita emoção que informo a vocês que já tenho data de retorno para o Brasil. Invado a 41.ª semana para lhes contar que ontem finalmente troquei a data da minha passagem - que estava inicialmente marcada para dia 12 de março por puros motivos burocráticos de obtenção de visto - para o dia 9 de julho, chegando ao Salgado Filho dia 10 de julho pela manhã, uma segunda-feira. E então era isso. Fico por aqui e deixo vocês com algumas fotinhos e com meu grande abraço, que cada vez é mais apertado e carregado de saudade,

Thomas

10 de abril de 2009

37.ª SEMANA: Chaplin, Cambridge e o ônibus rasgando Londres

Agora já passam de 3 e meia da manhã de segunda-feira e vou começar a escrever. O meu horário aqui em Londres é, no mínimo, pouco ortodoxo. Trabalho sempre até tarde, vou dormir tarde e acordo tarde. É simples assim mesmo, nada de diferente e nem descompassado, só um pouco atrasado se comparado às pessoas "normais". Há pouco eu estava vendo o filme Closer; grande elenco: Jude Law, Natalie Portman, Julia Roberts e Cleve Owen. Both Chico e eu já haviamos assistido em outras ocasiões - ainda no Brasil -, mas queriamos ver novamente para prestar atenção nos locais onde foi filmado, pois se passa em Londres. O filme é realmente excelente, boa dica para quem ainda não viu. Mas todos sabem que gosto é gosto né; não quero mensagens raivosas de possíveis decepcionados. É apenas minha opinião.
Mas então acabou o filme e fiquei aqui sem sono e sem muito o que fazer: resolvi escrever. Acho que pela primeira vez escreverei meu folhetim em duas partes. Isso porque hoje - daqui algumas poucas horas - vamos para Cambridge, apenas para passar o dia, turistas mesmo. Então vou escrever agora sobre as coisas que já passaram, e amanhã escrevo sobre o nosso dia em Cambridge.
A semana foi realmente rápida. Muito frio - não adiantou muito festejar a primavera nos meus últimos e-mails -, o que provavelmente repercutiu em poucos clientes. Desta maneira, trabalhei mais nesta semana para ganhar consideravelmente menos que semana passada, quando choveu todos os dias, lembram-se? Pois é, muitos riders costumam dizer que preferem quando chove, pois há mais clientes. Eu cstumava discordar, mas estou revendo meu conceito.

Trabalhando


Pois esta semana Lelê, Chico e eu fomos dar uma volta em Chelsea, elegante e tradicional bairro de Londres. Praticamente apenas residencial e comercial, as pessoas pareciam todas de bem com a vida, sem aquela correria da grande metrópole. Qualquer coincidência com cidade do interior é pura coincidência, estávamos mesmo em Londres. E num dos cafés "à la Paris", mesinhas na rua e tudo - por incrível que pareça isso não é muito normal em Londres -, nos deparamos com Bob Geldof, roqueiro das antigas que foi o maior responsável pelo Live 8, festival-protesto que rolou ano passado ao redor do mundo. Ele inclusive foi por isso candidato ao Prêmio Nobel da Paz, mas acabou não levando. Estou anexando uma foto que tirei do cara.

Passeando por Chelsea


Além de Chelsea, dei mais uma passada no Museu Britânico, mas dessa vez pouparei vocês dos detalhes. Mudando completamente de assunto, muito obrigado pelos e-mails reconfortantes ou informativos sobre a história do meu cartão clonado. Ainda não tenho notícias relacionadas a isso; quando as tiver, manterei-os informados.
Ontem - domingo, agora já é segunda - peguei um programa um tanto diferente e bem legal. Sara - uma amiga italiana - e eu fomos assistir à Filarmônica de Londres tocando ao mesmo tempo em que eram passados dois filmes mudos de Chaplin, um curta chamado Rink, e Tempos Modernos, sua obra-prima. E tava muito bala! Foi num teatro bem moderno que eu nem sabia que existia, chamado Sadler´s Wells, que fica num lugar um tanto escondido, no meio do bairro de Islington. O cara - Chaplin - era realmente muito bom! Para o meu espanto, aquela música bem conhecida, chamada "Smile", gravada por tantas grandes vozes, faz parte da trilha de Tempos Modernos e foi composta por ele. Ou seja, o cara era o ator principal, diretor, roteirista e, como se não bastasse, compositor! Não é a toa que é uma lenda até hoje.
Lembro-me nitidamente do meu vô ouvindo a Natalie Cole cantar Smile, na nossa antiga casa da praia, em Atlântida. Um dia ele me disse que Smile significava "sorrir" ou "sorriso", e essa talvez foi uma das primeiras palavras inglesas que aprendi. No final do filme, depois de Carlitos e sua namoradinha se darem mal várias vezes, a música começa a tocar e ele, apenas com gestos, diz para ela algo como: "Não importa se as coisas dão sempre errado, estamos juntos e isso já é o bastante" Então ele consegue arrancar um sorriso dela e os dois caminham ladeira abaixo, em uma estrada emoldurada por montanhas. Simples assim mesmo. Espero que eu não tenha frustrado alguns, contando o final do filme. Apenas supus que não seriam grandes as chances de assistir dos que ainda não o fizeram. Mas pensei errado, sempre há tempo.
Entretando infelizmente será mesmo difícil ter outra oportunidade de assistir um filme mudo de Chaplin acompanhado ao vivo por uma orquestra. Coisas que Londres propicia.
Bom, vou pra cama, já são 5 da manhã. O ônibus para Cambridge sai as 8:30 de Victoria, o que significa que terei de acordar as 6. Matemática simples: uma hora de sono! Tchau!
Fui e voltei! Neste entrelinhas se passou o dia inteiro, e que dia! Tivemos muita sorte com o tempo: apesar de um pouquinho frio - é fácil descobrir vendo meu casaco quase que polar - o dia estava lindo, sol do início ao fim! Fiquei acordado half an hour na cama até que pegasse no sono e acabei dormindo meia-hora só. Incrivelmente pontual, as 6h o despertador me chamou. Pegamos o coach em Victoria, como previsto acima, e a saída de Londres já foi um show à parte. O ônibus cruzou todo o centro costeando o rio e depois cortou a City, imagens simplesmente emocionantes! Como já disse outras vezes, não estou acostumado em presenciar o período da manhã nesta cidade, dado meus horários loucos. Então atravessar a cidade num início de manhã regado à luz do sol foi algo realmente wonderful. Apesar de já conhecer relativamente bastante o centro da cidade, deixei Londres me tocar mais uma vez.
Mas o destino era Cambridge, duas horinhas de viagem e lá chegamos nós: Chico, as 3 mineirinhas e eu. Passamos o dia lá e a cidade é realmente belíssima. Fundada pelos romanos no ano de não me lembro quando, posteriormente foi o local escolhido por dissidentes da Universidade de Oxford para se estabelecerem e darem seqüência as suas vidas acadêmicas. Criava-se aí, ainda em 1209, a semente para o que viria a se tornar a Cambridge University, umas das mais renomadas universidades do mundo. Esta instituição por sua vez é atualmente dividida em 31 colleges, que funcionam de maneira autônoma, mesmo molde da Oxford University. Caso vocês estejam lembrados, some months ago nós também estivemos passando o dia em Oxford. As cidades são indiscutivelmente muito semelhantes, mas Cambridge me pareceu mais bonita e muito mais simpática. Talvez quando estive em Oxford fosse período de férias, confesso que não me lembro, mas o fato é que Cambridge me pareceu muito mais viva, alegre... Sei lá.
Fizemos um tour a pé de pouco mais de duas horas com um guia local, um Sir muito elegante e atencioso. Vestia uma sóbria gabardine inglesa e ia só nos dando as barbadas da cidade: histórias da criação das colleges, detalhes arquitetônicos, panorama histórico, causos cômicos... Realmente valeu a pena!

Um dia em Cambridge


E então vou lhes contar breves detalhes. Conhecemos por exemplo a Trinity College, a maior e mais conceituada, onde Sir Isaac Newton gastou 30 anos de sua vida. Só essa college coleciona 31 Prêmios Nobel. Também conhecemos um PUB que tem 400 anos - isso no seu prédio atual, pois há indícios de que ali havia um PUB desde mil trezentos e pouco - e que era freqüentado por dois caras chamados James Watson e Francis Crick. Pois foi lá que esses caras, em 1953, anunciaram a descoberta do que chamaram de "Secret of Life", nada a mais do que o DNA.
Bom, eu poderia gastar mais palavras descrevendo o nosso maravilhoso dia, mas trocarei as palavras por muitas fotos, elas talvez falem mais alto. Voltando para Londres simplesmente desabei no banco do ônibus; eram horas de sono atrasadas reforçadas ainda com os efeitos de uma gloriosa pint que havia apreciado no PUB. Acordei com o ônibus rasgando a City mais uma vez, mesmo cenário da manhã com nova iluminação. Era noite e agora os edifícios modernos eram iluminados por seus próprios refletores. Andares inteiros ainda acesos me lembraram aquela cena de algum filme na grande metrópole. O motorista começou a passar pelas estações de metrô e perguntar se alguém queria pular fora. Dessa maneira não fomos até Victoria; Chico e eu descemos em Embankment Tube Station, beira do rio. Ele pegou o metrô e eu queria ir à casa do meu primo, ao lado de Waterloo Station, então atravessei o rio via Jubilee Bridge, linda e moderna ponte só para pedestres. Eu ainda estava tonto de sono, tinha acordado no ônibus repentinamente alguns minutos atrás. Atravessando a ponte ouvi um silêncio agradável, uma brisa batendo, o maravilhoso panorama da cidade numa noite de céu aberto, uma segunda-feira, as luzes refletindo no rio, o rio... Comecei a ouvir as notas de um violão. Pouco adiante, no meio da ponte, um músico de rua dedilhava Garota de Ipanema ao violão. Difícil descrever. E então acordei de vez e me dei conta que estava em Londres.
Um grande abraço para todos, com muita saudade,


Thomas

5 de abril de 2009

36.ª SEMANA: cartão clonado e as luzes do Museu Britânico

Olá! Semana cheia, e-mail provavelmente grande. Segunda passada consegui convencer meus flatmates Chico, Lelê e Ismara a pegar uma noitesinha - a condição era que não fôssemos no Walkabout, o bar/club onde todos estudantes brasileiros costumam ir às segundas; o lugar é legal e tal, ceva barata, mas todas segundas lá não dá. Daí rodamos, entramos em dois lugares até conseguir achar um terceiro que nos agradasse um pouco, o Cheers. Não tem nada de mais, mas é de graça, no centro e a ceva não era barata. Legalzinho.
Mas essa semana que passou foi ocupada com alguns problemas também. Descobri que o meu cartão do banco foi clonado e sacaram todo o dinheiro da minha conta. E aí, como é que fica? Pois é, também gostaria de saber. Já fiz tipo de uma ocorrência no banco, expliquei a situação, anexei os extratos, e agora eles têm 15 dias para fazer a investigação. O problema é que tem um agravante: no mesmo dia que ocorreram os saques na minha conta (1 mês atrás), o meu cartão foi retido num caixa eletrônico. Era de noite e eu primeiro tirei o meu extrato. Daí fiquei na frente do caixa lendo e tal e neste meio tempo a máquina devolveu o meu cartão (aqui todas as máquinas são daquele tipo que tem que inserir o cartão e depois ela devolve) e eu não vi. Provavelmente ela fez algum barulho, mas além de eu estar lendo o extrato, estava com os fones de ouvido, então não me liguei. Quando olhei para a tela tinha um aviso do tipo "O seu cartão foi retido por questões de segurança". Então requisitei outro cartão, que não chegou. Requisitei de novo e então semana passada ele veio; fui conferir meu extrato novamente para ver se estava tudo certo e vi que tinha 4,45 pounds na minha conta! Ou seja, nada! Logo pensei que então a máquina provavelmente devolveu meu cartão por engano, algum tempo depois, e que o meu cartão estaria na mão de alguém. Esse alguém não sei como estaria tirando dinheiro da minha conta, já que só o cartão não é o bastante para tal. Mas depois notei que os saques haviam começado algumas horas antes da máquina engolir meu cartão, então isso foi pura coincidência, o meu cartão na verdade foi realmente clonado. Mas vai explicar isso pro banco!? Tenho receio que os caras achem que eu estou usando o fato da máquina ter retido meu cartão para passar eles pra trás. E isso que eu tentei resumir o caso para vocês. Na verdade tem outros varios detalhes, todos os quais eu tive que tentar explicar tim-tim por tim-tim em inglês, que saco! Bom, eu realmente estou esperando que dê tudo certo, do contrário vou ter que testar a Justiça Britânica, e daí não vai ser nada legal. Eu só tenho mais uns 40 dias aqui em Londres, e se tiver que botar o banco na Justiça ou sei lá o que (eles devem ter um PROCON organizado aqui, até nós temos aí) provavelmente não vai ser resolvido tão facilmente. But, that´s the life.
E então eu tava falando que a semana foi cheia. Uma das coisas que me tomou muito tempo eu já relatei, mas a minha próxima viagem está me dando trabalho também. E que trabalho bom! Uma coisa que eu sempre costumo dizer é que uma das melhores partes das viagens é o "antes de viajar". Aquela época em que a pessoa fica criando expectativas, literalmente contando os dias, tentando adquirir conhecimento sobre os lugares e coisas assim. E essa minha próxima viagem será a maior que já terei feito, a primeira que organizarei completamente on my own, até porque farei toda ela sozinho! Mas não quero me alongar muito nos detalhes. Mais algumas semanas e eu conto tudo para vocês. Mas o que me deixou feliz mesmo foi que na semana passada eu comprei todas as passagens aéreas! Agora o roteiro já está praticamente fechado. Então lá vai: saio de Londres dia 12 de maio e vou para Dublin. Fico 4 dias na Irlanda, uma Guiness aqui outra acolá e parto para Barcelona. Umas duas semanas de Espanha e visito nossos primos portugueses! Rapariga vai, rapariga vem e pego o vôo de Porto para Paris! Em Paris fico só duas noitesinhas, só para me despedir daquela cidade que amo tanto. E aqui vou ter que fazer um parênteses: ao longo dos últimos meses eu tinha dito para muitos de vocês que tinha idéia de ir passar um tempo maior em Paris e tal. Paris é uma cidade que já conheço bastante, mas minha idéia inicial era passar um mês lá, só conhecendo a fundo a cidade mesmo; mergulhar na vida da cidade. Mas logo eu realized que não teria dinheiro para passar um mês inteiro de bon-vivant em plena Paris, com certeza não a cidade mais barata do mundo, e que ficar um mês sozinho lá talvez não seria a melhor coisa a ser feita. Daí mudei para duas semanas e, mais recentemente, para dois dias. Easy. Fecha parênteses. Depois de comer uns truly baguetes franceses acompanhados de um bordeaux na beira do Sena, só eu e La Seine, como eles chamam o rio, rumarei a Praga. E então farei o trecho leste europeu da minha jornada: Praga-Viena-Budapeste. De Budapeste retorno a Londres. Depois ainda tenho mais um mês antes de retornar para o Brasil, então estou planejando outra viagem para lá. Mas para isso ainda terei que pedalar muitos pounds.
E por falar em pedalar, semana passada trabalhei 4 dias e nos 4 dias choveu! E choveu forte! At least não estava tão frio: temperaturas entre 7 e 12 graus. Então achei que o inverno tinha dado adeus definitivamente, pois nas últimas semanas a temperatura estava realmente ajudando. Mas então trabalhei ontem - terça - e fazia 1 ou 2 graus! E hoje a previsão é de frio de novo! Mas as flores estão começando a colorir toda a cidade, e os dias estão consideravelmente maiores. Por sinal, semana passada, mal iniciada a primavera, começou também o horário de verão aqui. Agora está anoitecendo pelas oito já, bem melhor.
Mas tirando noite, viagem e trabalho, a semana ainda teve cultura. Sexta passada tive novamente no Museu Britânico, onde despendi um pouco mais 2 horas apenas conhecendo uma sala das salas do museu, a de número 1 - de um total de 94 salas! Essa sala é a maior do museu e tem como foco principal o Iluminismo, corrente cultural que se espalhou pelo mundo ao longo do século XVIII. A criação do museu britânico, assim como a subseqüente aquisição de coleções nos anos posteriores, coincidiu com os pensamentos iluministas. Então os caras ao mesmo tempo contam a história da criação das novas ciências - como ecologia, arqueologia, geologia, história, astrologia e assim por diante - e da criação e desenvolvimento do próprio museu. Antes fui um pouco irônico, mas às vezes acho que minhas ironias são tão sutis que a maioria de vocês não pesca. Eu disse que a criação do museu coincidiu com as idéias iluministas, mas é claro que isso não foi coincidência alguma. O museu nasce e é, por assim dizer, estruturado em cima destas idéias; sem elas não haveria o sentimento de necessidade e busca por novos conhecimentos, o próprio museu não se justificaria. Uma das coisas que achei muito interessante é que até o início do século XVIII não havia o conceito de ciência, algo que é tão facilmente compreensível para nós nowadays. Até então, eles lidavam com algo que era chamado Filosofia Natural. E isso provavelmente não é apenas uma simples diferença de palavras, mas uma mudança realmente conceitual sobre o que se estava estudando, as respostas que se queriam. E foi então que nasceram ciências como a Egiptologia - criada basicamente por franceses e ingleses depois das empreitadas de Napoleão e Nelson por aquelas bandas - e a filologia, que, de uma maneira simplista de explicar, tinha como objetivo a compreensão de liguagens escritas antigas, e que depois tomou rumos mais abragentes, que não interessam agora. Pois antes eu falei nos franceses e tal. Pois é, apesar de terem sido praticamente os criadores do iluminismo - como corrente filosófica -, eles realmente só são citados no que tange o Egito. Em parte porque a sala aborda o iluminismo em sua parte mais científica, deixando de lado a grande importância política e social que este representou naquele século; mas principal e obviamente pelo eterno racha entre franceses e ingleses, que infelizmente acaba refletindo em algo que deveria estar acima de orgulhos patrióticos: o acesso à cultura e à história. E aí talvez me fiz um pouco confuso. Só quero tentar dizer, de uma maneira mais simples então, que o ódio recíproco entre ingleses e franceses infelizmente influencia na maneira com que eles abordam os fatos, inclusive nos museus. Desta maneira, a sala sobre Iluminismo do Museu Britânico não cita sequer Voltaire ou a Enciclopédia de D´Alembert. Mas provavelmente se o Louvre tivesse a sua, excluiria os ingleses também. Isso é lamentável e até cômico, pois os caras fazem uma sala sobre Iluminismo esquecendo, no entanto, dos seu próprios preceitos. Algo como, vamos mostrar tudo, mas os fraceses a gente deixa à sombra. Anyway, com ou sem franceses, a sala é um espetáculo de qualquer maneira. Quem tiver interesse e compreensão em língua inglesa pode acessar a versão virtual em http://www.thebritishmuseum.ac.uk/enlightenment/.
E então olhando tudo aquilo e ficando cada vez mais maravilhado com o fácil acesso que aqui se tem à cultura, tomei uma decisão importante: não vou mais à aula. Acho que eu já havia contado que o meu curso havia acabado e inclusive que estava procurando algum outro para fazer. Eu inclusive encontrei um de graça e tal, fui a uma aula, me pareceu bem legal. Mas daí me dei conta que o meu inglês eu posso muito bem melhorar no Brasil, mas a quantidade de coisas loucas, maravilhosas e diferentes que eu tenho aqui, no momento que eu estiver no avião, não mais as terei. O meu inglês atualmente até que não está ruim, e inclusive os museus estão sendo para mim uma enorme fonte de vocabulário. Imaginem só se em cada museu eu somar umas 2 horas de leitura das legendas e explicações; só isso já é uma aula. Sendo assim, decidi que esses 40 dias que faltam para começar a minha viagem serão utilizados para outras coisas que não o estudo. Primeiro, estou trabalhando realmente forte para juntar a grana que preciso. Segundo, a organização de todos os detalhes da viagem toma um tempo grande, prazeirosamente curtido por mim. E depois dessas duas coisas, ainda quero tragar Londres até a última ponta, se bem que eu dira que Londres é um cigarro que não tem fim. E depois dessa horrível eu fico por aqui, desejando a todos vocês uma ótima segunda metade da semana, já que esse e-mail veio um pouquinho atrasado. Um grande abraço, com muita saudade,
Thomas

27 de março de 2009

35.ª SEMANA: um pouco de turismo em Londres

Olá! Aqui estou eu então para mais uma semana de informes. E esta foi uma semana legal, deu para fazer algumas coisas bem conhecidas aqui de Londres, aqueles lugares que muitos turistas vão e que até agora eram desconhecidos por mim. Segunda-feira Chico e eu fomos num antigo navio de guerra chamado HMS Belfast, que há muito virou museu e está atracado no Tâmisa, fazendo companhia para a Tower Bridge. Este navio participou, entre outras, da Invasão da Normandia em 1944 e da Guerra da Coréia, entre 1950 e 1952. E o bala é que dá para visitar todas as instalações, desde os canhões e motores até a cozinha e aposentos do almirante. Além disso, os caras espalharam bonecos de cera por todo navio, imitando tripulantes, e criaram diferentes efeitos sonoros para cada ambiente. Assim, na sala de comando, por exemplo, pode-se não só ver os marinheiros atuando em meio a máquinas, rádios e mapas como também ouvir os barulhos ensurdecedores de uma batalha em pleno alto mar. Realmente bem bolado e muito interessante.

HMS Belfast


Saímos de gaiato do navio e fomos até a prefeitura de Londres, onde tínhamos uma audiência marcada com Mr. Livingstone, meu caro companheiro Ken, the Mayor of London. But, por contratempos de força maior, ele não pode nos receber e assim apenas visitamos o prédio da prefeitura em si, que é realmente muito bonito! E no floor do andar subterrâneo os caras simplesmente botaram uma foto de satélite de toda Londres, toda mesmo! Então você pode literalmente caminhar por Londres, procurar a quadra onde mora e ter uma proporção absolutamente real das distâncias entre diferentes lugares da cidade. Tudo isso em um piso acarpetado que cobre uma grande área, talvez maior que 15 por 15 metros.

City Hall, Prefeitura de londres


Mas a barriga tava chamando e para completar nosso dia de turista fomos para o Covent Garden Market filar uma jacket potato, talvez o programa que para mim tenha mais a cara de Londres - isso porque fiz a mesma coisa nas outras duas vezes que estive aqui como turista. Uma delícia! Todos que vem para cá deviam vivenciar isso, uma simples batata num lugar tão especial quanto é o Covent Garden.

Covent Garden


Pois quarta-feira fomos à Tower of London, um antigo forte/prisão que foi construído ao longo dos últimos 900 anos. Lá foram abrigados todos os presos de peso durante todos esses anos, em sua maioria por motivos políticos e religiosos. Muitos foram torturtados e ainda pode-se ver os aparatos de tortura originais, em meio a salas e torres truly medievais... Parecia que o Rei Arthur ou os três mosqueteiros iam saltar em meio às escadas claustrofóbicas e circulares das torres, ou passar por entre os canhões enferrujados espalhados pela fortaleza. Tudo isso muito bem construído com pedra sobre pedra e gigantes portões de madeira e ferro, como bem mandaria o script.

Tower of London

Eu, Chico e a Tower Bridge


Uma das atrações que pode se encontrar por lá são as "Jóias da Coroa", ou seja, alguns dos tantos colares, brincos, coroas e espadas da véia. E na ponta de um bastão qualquer lá, está a maior gema de diamante do mundo, com algumas centenas de quilates. Sou mais meu laptop, muito mais útil do que todas aquelas coroas e apetrechos que não servem pra nada.
E então depois de gastar algumas horas dentro da famosa Torre de Londres, realmente um dos highlights de Londres, rumamos para onde? Para um PUB, ora pois! (Tenho que começar a treinar o meu manuelês, já que Portugal vai ser um dos destinos da minha próxima viagem). Fomos a um PUB holandês vizinho de China Town, muito bacana! Como manda a tradição dos PUBs holandeses e, principalmente dos belgas, cada cerveja é servida no seu respectivo copo, muito bala. Mas, além de não ter muito dinheiro para gastar em expensive pints, eu tinha que trabalhar. Então fui até a garagem, peguei minha bike e rumei para o West End. Algumas horas later, pneu furado. Vira a bike, esvazia completamente o pneu, tira a câmara para fora, enche a câmara, acha o furo, esvazia a câmara, remenda o furo, põe a câmara para dentro, enche o pneu. No que eu enchia, notei que o pneu ainda estava furado, provavelmente o reparo havia sido mal feito. Começa todo o processo de novo. Não era o remendo mal feito não, esse tava "dez patrão"; havia um outro furo mesmo. Pronto, arrumado pela segunda vez; começo a encher e o bagulho começa a desencher. Lá vou eu fazer tudo pela terceira vez. Pronto, na terceira dá tudo certo. O protocolo todo tinha começado as 9:30. Agora eram 10:50, ou seja: eu tinha perdido a saída dos teatros, talvez o horário mais forte dos dias de semana. Tudo bem, a vida não é um moranguinho. Não posso esquecer de comentar que estava bem frio, e todo esse trabalho de uma hora e vinte teve que ser feito sem luva, pois a luva tira completamente a precisão manual. Se vocês conseguem se lembrar de algum dia muito frio de inverno saberão que as mãos tendem a doer muito quando se tem que fazer algum trabalho manual e elas estão muito geladas. E por assim dizer, consertar um pneu furado é uma tarefa que requer um pouco de força bruta também, o que fazia as mãos doerem mais ainda. Mas vamos lá, começo a andar, cinco minutos depois consigo duas clientes. Beleza! Ando uma quadra com elas e sinto que o pneu tá esvaziando de novo. Agora eu devia pôr uma palavra bem baixa para expressar meu sentimento, aquela que começa com "c", mas deixemos assim. Bom, uma quarta vez era demais... Entreguei as clientes para outro rider e voltei para a base de pneu furado mesmo. Antes que alguém esteja pensando "que cara babaca, é claro que tinha alguma coisa fincada no pneu que tava furando a câmara...", eu retruco: podia até ter, mas eu não encontrei. No outro dia troquei a câmara e o mecânico examinou minuciosamente o pneu; também não encontrou nada.
Sexta- feira repentinamente o inverno parece ter acabado. A temperatura que em média ficava entre 2 e 6 durante a noite subiu para algo em torno dos 10! Um grande acontecimento no rickshaw business! Mas daí veio uma chuva que não foi nem um pouco legal, afinal chuva, vento e dez graus de temperatura ainda não é o ambiente mais interessante para se trabalhar. Mas antes de começar a chover, no início da noite, fiz uma ride um tanto quanto diferente. Estou parado em Covent Garden e chegam dois caras, vestidos bem normalmente, aparentemente estudantes de seus 20 e poucos, e me perguntam com a maior naturalidade, obviamente em inglês: "Bá cara, tu não sabe onde nós podemos ir para fumar maconha?" Logo perguntei: "Mas vocês querem ir num bar e fumar dentro do bar?" Sei lá né, os caras podiam achar que estavam em Amsterdam, tem cada maluco... Daí um deles respondeu: "Não cara, nós queremos algum lugar sossegado com uma vista legal e tal..." Bom, falou em vista legal, a primeira coisa que me ocorreu foi Waterloo Bridge, é claro. Ao que respondi: "Olha bicho grilo, posso levar vocês para Waterloo Bridge e tal, deixo vocês no meio da ponte e vocês puxam o fuminho descansados, bela visão da cidade, sem policiais... levo vocês por tantos pounds..." Os caras, um inglês e outro sul-africano, pensaram, conversaram e aceitaram. Antes pediram uns minutinhos que tinham que ir até um cash point para sacar a grana e me pagar. E então levei os caras lá pro meio da ponte. Chegando lá ainda me lembrei de um jardinzinho que tem atrás da London Eye, que é muito tranqüilo e de onde se tem uma vista fenomenal da roda-gigante. Daí deixei os caras na ponte e mostrei para eles o tal lugar e eles acharam legal as minhas dicas e até me deram uma gorjetinha. Maconheiros legais aqueles... E eu achei tudo muito engraçado, pois as pessoas pedem as mais variadas coisas para mim, mas nesse estilo foi a primeira vez. Ser rider não é apenas levar as pessoas para a rua ou o local tal que elas pedem. Ser um bom rider é também ter respostas para o que as pessoas querem. Se alguém te pede para levar num restaurante tailandês ou num de frutos do mar, você tem que saber onde é e levar a pessoa lá. Não é que seja obrigado, obviamente ninguém obriga. Mas quanto mais se sabe, mais os clientes gostam e mais se ganha grana. Então você tem que conhecer muitos lugares diferentes e ser um tanto esperto também. Esses dias um casal de New York queria comer chocolates... Eles simplesmente chegaram e me pediram para levá-los em algum lugar onde poderiam encontrar bons chocolates e no qual pudessem curtir um café também. Daí na hora me deu um branco: óbvio que devem ter muitas chocolaterias pelo centro, mas eu nunca tinha notado nenhuma em particular. Mas daí forcei meu processador e me deu uma luz: me lembrei de uma loja de departamentos famosíssima e que tem chocolates lindos, sobre a qual eu inclusive já comentei uma vez, Fortnum & Mason. Eles que abastecem os porões do Palácio de Buckingham, ou seja, a geléia que a rainha come é de lá. E daí levei os caras lá. E então é por isso que disse antes que um rider tem que ter a resposta também. But, nunca imaginei que ia ter que pensar em algum lugar calmo pro cliente puxar fumo...
E como essa história eu teria várias outras, mas são mais longas e para descrever aqui com acurácia seria tarefa difícil para mim e também para vocês, ao lerem. Só posso dizer então que, apesar de ter tido um sábado também muito chuvoso e pouco rentável, pude dar boas risadas com alguns clientes e cenas da louca noite londrina. E é por histórias como essa que contei - e muitas outras que acontecem - que eu gosto desse meu emprego. É claro que é cansativo e várias coisas às vezes encomodam, como o frio e o dia que tive o pneu furado 4 vezes e voltei para a garagem com 3 pounds no bolso, os mesmos 3 que serviram para pagar a câmara nova no dia posterior. No entanto o fato de trabalhar num cenário tão louco, que é o West End, no meio de pessoas tão malucas, que são os habitantes dessa cidade, vindos de todos os cantos do mundo, poder dar boas risadas com tudo isso e ainda fazer um dinheirinho... É por tudo isso que eu adoro fazer o que faço!
Well, fazia muito tempo que eu não contava nenhuma peripécia da bike. Como tinha passado fevereiro parado, nem tinha como contar nada novo mesmo, mas agora, como vocês viram, começaram a surgir novamente algumas historinhas senão malucas, diferentes. Digo isso porque alguns de vocês nem recebiam meus folhetins no ano passado, quando eu costumava comentar mais sobre como é a vida de um rider. E para quem por acaso ainda não entendeu direito o que é um rider ou um rickshaw, saiu uma reportagem sobre o rickshaw business num site para brasileiros em Londres. Eu inclusive fui convidado para participar da reportagem, mas preferi ficar calado e não ajudar a divulgar esse ainda relativamente desconhecido nicho de mercado entre os brasileiros. Porque até existem alguns brasileiros trabalhando como eu, mas não devem ser mais de 15. Quando a brasileirada descobrir isso vai ser complicado. E como sei que esse site é tri influente, principalmente sobre o pessoal novo que está vindo para cá, achei melhor não falar nada. Mas é óbvio que a reportagem saiu do mesmo jeito e quem quiser pode acessar para entender mais como funciona tudo. Tipo, tem algumas informações equivocadas e tal, mas de uma maneira geral explica bem o esquema. O site é http://www.oilondres.com.br/trabalho/rickshaw.htm
Então era isso pessoal, um grande abraço a todos e uma ótima semana, com saudade,

Thomas