Fugindo do carnaval e voltando quase um mês no tempo, lembro-me que o último e-mail que escrevi acabava comigo voltando do aeroporto de Heathrow, aqui em Londres, depois da minha família ter embarcado. Pois desde lá algumas semanas se passaram, e confesso que elas não foram das mais fáceis. Muitos motivos, alguns óbvios outros não, mas que também não precisam estar todos listados aqui. O primeiro de todos é bem simples. Eu havia passado mais de um mês viajando, grande parte disso com minha família, e de repente estava aqui de novo nesta cidade fria e escura. Todos já devem ter notado que eu adoro Londres, mas isso não quer dizer que por vezes esta cidade possa não parecer tão amigável assim. Principalmente nesse frio chato que insiste em não ir embora. E foi praticamente por causa do frio que não trabalhei neste mês. Na verdade trabalhei dois sábados, mas depois não consegui mais bicicleta para tal. É que na minha empresa eles dão preferência para quem aluga a bike a semana inteira, o que eu preferi não fazer. Daí chegava o sábado e as bikes estavam todas alugadas. Mas fazer o que né?! Pelo menos pude curtir alguns poucos weekends de folga, coisa que eu nem sabia o que era aqui em Londres, pois sempre trabalhei nas sextas e sábados, os dias de mais clientes. Também acabei não aproveitando muito esses findis de folga por falta de parceria, pois a maioria dos guris estava trabalhando. E aí está outra coisa que me balançou um pouco nas últimas semanas. Aos poucos a galera está voltando e eu e o Chico seremos os últimos dos moicanos. O Rafa e o Lelo já foram. O Gabriel vai hoje, o Marcus está indo nesta sexta e o André e o Biri daqui uns 10 dias. Daí vamos ver como vai ser. Na verdade comigo vai acontecer uma coisa bem estranha, ao contrário da maioria das pessoas que vem para cá. Como nós viemos em bastante gente, acabou sendo muito cômodo, ainda que talvez errado, ficar baseado apenas nas mesmas amizades. Isso fez com que não nos preocupássemos muito em buscar novos parceiros, afinal já tínhamos nossos grandes amigos sempre por perto. Quem vem para cá sozinho, no entanto, acaba às vezes se vendo mal no início, mas com o passar do tempo adquire muitas novas amizades, o que torna as coisas mais fáceis numa seguda fase. E agora é como se eu estivesse prestes a fazer o caminho contrário. Mas tudo não pode ser sempre facil.
No entanto nestas semanas também rolaram algumas coisas bem legais. Como vocês devem se lembrar, eu contei que havia ficado num hotel com a minha família naquela semana, e que por sorte ainda havia vaga para mim na minha casa, mesmo depois de ter passado um mês fora. Pois naquela sexta, depois de sair do aeroporto, tive que ir até o hotel novamente para pegar minhas coisas que lá haviam ficado. Mala é mala, e foi uma destas que tive que trazer para casa aquele dia de noite. Despite of todo esforço na logística da mala, cheguei em casa e a galera estava toda aqui em casa, preparando a janta, e aquilo foi como um retorno a realidade, mas não que isso seja ruim. Pelo contrário: apesar da tristeza de não ter mais a família ao lado e de chegar ao fim da viagem, voltar pra casa e confraternizar novamente com os amigos era como um consolo, algo que mostrava que a vida em Londres era boa também. E então naquela sexta todos contaram suas histórias nas diferentes jornadas em que cada um havia embarcado. No dia posterior era sábado e eu tinha bicicleta, pois havia alugado pela semana inteira para levar elas para passear. Pois então aproveitei e fui trabalhar. O pneu furou 2 vezes e eu consertei, mas na terceira desisti. Estava claro que o problema era no pneu mesmo e não na câmara; as vezes eu arrumasse seriam as vezes que ele furaria de novo. Daí só trabalhei até a meia-noite e fui embora. Antes de ir para casa passei no hotel novamente para pegar a última mala que havia ficado lá.
E então o domingo que sucedeu foi memorável. O Lelo devia ter voltado no sábado, mas deu overbooking no vôo e ele teve que ficar um dia a mais aqui. Coitadinho nada. Ganhou mais de 400 pounds nessa brincadeira. E ganhou também a oportunidade de curtir mais um dia conosco aqui em Londres. Fomos ao mercado de Brick Lane, um dos mais famosos da cidade. Na verdade Londres tem 3 grandes e famosos mercados de rua: Camden Market, Portobello Road e Brick Lane. Este último era o único que ainda não havia sido explorado por nós. O mais legal que fizemos lá foi ter comprado alguns bagels na talvez mais famosa padaria da cidade. Bagel é o nome de um pãozinho tradicional judeu, o qual os caras fazem muito bem nesta padaria. A padaria é uma lenda da cidade, e na verdade foi a única coisa que restou lá do antigo bairro judeu. Hoje em dia o bairro é tomado por indianos, o que fez o lugar tomar a fama de "Bombaim em Londres", mas essa padaria continua lá, abrindo 24 horas por dia, todos os dias da semana, e vendendo seus produtos a preços bem acessíveis. Tudo isso reflete em filas bem grandes, mas nada que nos espantasse. Filamos sim uns bagels, que estavam muito bons mesmo. Mais tarde, falando com minha mãe e vó por telefone, elas disseram que minha bisavó costumava fazer os tais pãozinhos. Daí eu me lembrei mesmo que o meu vô sempre falava em uns tais de "bêigales", que ele dizia serem muito bons. Então assimilei que se tratava da mesma coisa, e que ele tinha razão, são bons mesmo.
Lelo, André, Marcus, Chico e eu em Brick Lane
E assim passamos o nosso último dia todos juntos. Marcus, André, Lelo e eu: os caras que durante muito tempo haviam morado junto e criado uma grande amizade. Neste dia o Chico também estava presente, já que depois de ter passado os primeiros meses em Londres morando em outro lugar, agregou-se a nós, vindo mirar na nossa casa. E alguns dias mais tarde o Biri também veio para cá. Acabamos aquele dia em Camden Town comendo a tradicional liquidação de fim de tarde do chinês e dos doughnuts. Pra registrar essa parceria, estou anexando duas fotos quase iguais, que diferem em apenas uma pessoa. Na primeira aparece o Lelo, que como eu já disse, foi nosso companheiro durante muito tempo em nossa singela casinha de Willesden Green, que vem a ser o nosso bairro. E na outra foto, o Chico, que vem a ser o quarto elemento, depois do André, Marcus e eu. Ele veio conosco, mas demorou 6 meses para se juntar a nós. Antes tarde do que nunca. Então está registrado. Ambas as fotos tiradas na estação de metrô do nosso bairro, onde costumamos passar mais de uma vez diariamente.

1.ª foto: Marcus, André, Lelo e eu
2.ª foto: entrao Chico e sai o Lelo
Naquela semana eu voltei para aula, mesma turma, diferente professor: tudo a mesma coisa. E desde então estou na mesma turma, mesmo professor, mesma coisa. Apesar de ter certeza que já deveria ter trocado de nível, não sei por que não sou trocado. Parece que é porque não tem vaga no outro nível, mas isso eles não admitem. Só tenho mais uma semana e meia de aula. Depois meu curso acaba e nessa escola não fico mais. Estou procurando e discutindo comigo mesmo o que devo fazer nos próximos meses.
Nesse meio tempo fui ao show do Belle & Sebastian, uma banda escocesa da qual gosto muito, e estava muito bom! Os caras fazem uns rockzinhos bem suaves, quase ingênuos, mas de uma linha melódica excepcional. São músicas realmente bonitas, cantadas por uma voz quase confidente, acompanhada por intrumentos de timbres belíssimos, em sua maioria acústicos. O show não foi excepcional, mas pude ver materializado na minha frente o som dos caras, e por assim dizer, os próprios caras. Pois eu tinha os CDs e tal, mas nunca havia visto imagem alguma deles, e foi muito legal vê-los tirando exatamente os mesmos sons, mesmos timbres, mas ao vivo. Valeu mesmo.
Então fevereiro assim passou. Fiz algumas outras coisas legais: conheci o interior da Tower Bridge, fomos a Portobello Road, em Notting Hill, uma que outra janta pros amigos. Mas o que mais fiz mesmo foi escrever e pensar na vida. Escrever, vocês já devem imaginar o quê. Levei muito tempo mesmo para escrever todos os e-mails sobre a minha viagem e organizar todas as fotos no meu álbum online. Espero que grande parte de vocês tenha, senão gostado, ao menos lido, e de repente acessado o site. Realmente deu trabalho, mas foi compensado por alguns e-mails que recebi em troca. Valeu mesmo àqueles que mandaram algumas palavras a respeito, é muito gratificante. E sobre o pensar na vida, isso – para mim - é normal.

Passendo por Londres: Portobello Road e Piccadilly Circus
Como falei lá no início do e-mail, hoje é terça-feira de carnaval, que nesse ano ainda insistiu em cair no último dia de fevereiro. Aqui na Europa o fim de fevereiro é como o fim de qualquer outro mês, mas para nós, brasileiros, tem um significado especial. Amanhã, primeiro de março e ainda mais, quarta-feira de cinzas, é como se fosse o primeiro dia do ano. É como se os novos planos, que todos fazemos a cada ano, tivessem de ser começados a serem postos em prática amanhã. E sobre isso acho que eu não preciso explicar nem falar muito, todos sabem e sentem. E quem não entendeu ainda, deixo dois simples versinhos, que dizem mais do que qualquer coisa que eu possa escrever. Mas antes lhes deixo meu grande e saudoso abraço.
"São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração"
Antonio Carlos Jobim
Thomas






















