Longe de Casa é um convite para você sentar-se confortavelmente na cabine de uma bicicleta-táxi e se deixar levar pelas ruas de Londres e da Europa. Dando o rumo dessa aventura, um estudante brasileiro de 21 anos que resolve dar um tempo de sua rotina em Porto Alegre e, junto com alguns colegas de faculdade, abrir a cabeça para novas experiências de vida no Velho Mundo. Se você procura um guia de viagens sobre a Europa e Londres, talvez este blog possa lhe ser um bom thriller de aventura. Para quem quer divertidos contos, de repente se depare com boas indicações musicais. E se você é um jovem que também pensa em passar por uma experiência em algum lugar no exterior, o que você encontrará aqui não apenas lhe fará rir ou trará boas dicas turísticas, sobre bandas e cantores: além de informação e entretenimento, os posts deste site aos poucos tentarão lhe mostrar uma outra maneira de enxergar as coisas. A maneira como alguém de 21 anos encara a vida longe de casa: aprendendo sempre.

28 de fevereiro de 2009

29.ª, 30.ª e 31.ª SEMANAS: fevereiro em Londres

Hoje é terça-feira de carnaval, último dia de fevereiro. Enquanto aqui em Londres faz algo em torno de 0 grau, sei disso porque hoje nevava quando eu ia para aula, aí no Brasil vocês vão curtindo aquele último diazinho de folia. Terça-feira de carnaval na verdade é mais um dia para arrumar tudo e se mandar do que para festear em si. Claro que meu primo da Bahia, que também recebe meus e-mails, não deve concordar muito, mas esta é a visão de um gaúcho de Porto Alegre, e para nós o carnaval acaba hoje mesmo. Mas antes de deixar o assunto carnaval, me lembrei de uma coisa que aconteceu hoje e achei muito engraçada. Chego na aula e sento ao lado de um colega coreano. Dá alguns minutos e o cara me mostra uma página do jornal com uma foto enorme de uma mulher desfilando no Rio, quase totalmente nua. Aquela coisa que nós sabemos do que se trata, mas instiga a imaginação de qualquer gringo. Na mesma página havia algumas fotos menores de outras morenas mais, seios de fora, fantasias, plumas, aquela coisa. E ele me mostrou e começou a comentar algumas coisas, sempre com aquele sotaque asiático que vocês talvez consigam imaginar. Ele me perguntou como era o carnaval e se era normal as mulheres ficarem completamentente nuas, como naquela foto. Obviamente eu disse que sim, que durante o carnaval todas as mulheres andavam assim na rua. Imaginem um coreano, que esses dias estava me contando que na Coréia os namorados demoram duas semanas para darem as mãos e 2 meses para se beijarem. Agora imaginem os olhos do coreano - que não é criança, parece que tem 24 - quando eu disse que no Brasil durante o carnaval aquela cena era normal. Depois tive que desmentir pro cara né, vai que ele saísse dali e procurasse uma agência de viagem. Além do mais, não queria alimentar ainda mais este estereótipo de Brasil-carnaval-mulher-pelada.
Fugindo do carnaval e voltando quase um mês no tempo, lembro-me que o último e-mail que escrevi acabava comigo voltando do aeroporto de Heathrow, aqui em Londres, depois da minha família ter embarcado. Pois desde lá algumas semanas se passaram, e confesso que elas não foram das mais fáceis. Muitos motivos, alguns óbvios outros não, mas que também não precisam estar todos listados aqui. O primeiro de todos é bem simples. Eu havia passado mais de um mês viajando, grande parte disso com minha família, e de repente estava aqui de novo nesta cidade fria e escura. Todos já devem ter notado que eu adoro Londres, mas isso não quer dizer que por vezes esta cidade possa não parecer tão amigável assim. Principalmente nesse frio chato que insiste em não ir embora. E foi praticamente por causa do frio que não trabalhei neste mês. Na verdade trabalhei dois sábados, mas depois não consegui mais bicicleta para tal. É que na minha empresa eles dão preferência para quem aluga a bike a semana inteira, o que eu preferi não fazer. Daí chegava o sábado e as bikes estavam todas alugadas. Mas fazer o que né?! Pelo menos pude curtir alguns poucos weekends de folga, coisa que eu nem sabia o que era aqui em Londres, pois sempre trabalhei nas sextas e sábados, os dias de mais clientes. Também acabei não aproveitando muito esses findis de folga por falta de parceria, pois a maioria dos guris estava trabalhando. E aí está outra coisa que me balançou um pouco nas últimas semanas. Aos poucos a galera está voltando e eu e o Chico seremos os últimos dos moicanos. O Rafa e o Lelo já foram. O Gabriel vai hoje, o Marcus está indo nesta sexta e o André e o Biri daqui uns 10 dias. Daí vamos ver como vai ser. Na verdade comigo vai acontecer uma coisa bem estranha, ao contrário da maioria das pessoas que vem para cá. Como nós viemos em bastante gente, acabou sendo muito cômodo, ainda que talvez errado, ficar baseado apenas nas mesmas amizades. Isso fez com que não nos preocupássemos muito em buscar novos parceiros, afinal já tínhamos nossos grandes amigos sempre por perto. Quem vem para cá sozinho, no entanto, acaba às vezes se vendo mal no início, mas com o passar do tempo adquire muitas novas amizades, o que torna as coisas mais fáceis numa seguda fase. E agora é como se eu estivesse prestes a fazer o caminho contrário. Mas tudo não pode ser sempre facil.
No entanto nestas semanas também rolaram algumas coisas bem legais. Como vocês devem se lembrar, eu contei que havia ficado num hotel com a minha família naquela semana, e que por sorte ainda havia vaga para mim na minha casa, mesmo depois de ter passado um mês fora. Pois naquela sexta, depois de sair do aeroporto, tive que ir até o hotel novamente para pegar minhas coisas que lá haviam ficado. Mala é mala, e foi uma destas que tive que trazer para casa aquele dia de noite. Despite of todo esforço na logística da mala, cheguei em casa e a galera estava toda aqui em casa, preparando a janta, e aquilo foi como um retorno a realidade, mas não que isso seja ruim. Pelo contrário: apesar da tristeza de não ter mais a família ao lado e de chegar ao fim da viagem, voltar pra casa e confraternizar novamente com os amigos era como um consolo, algo que mostrava que a vida em Londres era boa também. E então naquela sexta todos contaram suas histórias nas diferentes jornadas em que cada um havia embarcado. No dia posterior era sábado e eu tinha bicicleta, pois havia alugado pela semana inteira para levar elas para passear. Pois então aproveitei e fui trabalhar. O pneu furou 2 vezes e eu consertei, mas na terceira desisti. Estava claro que o problema era no pneu mesmo e não na câmara; as vezes eu arrumasse seriam as vezes que ele furaria de novo. Daí só trabalhei até a meia-noite e fui embora. Antes de ir para casa passei no hotel novamente para pegar a última mala que havia ficado lá.
E então o domingo que sucedeu foi memorável. O Lelo devia ter voltado no sábado, mas deu overbooking no vôo e ele teve que ficar um dia a mais aqui. Coitadinho nada. Ganhou mais de 400 pounds nessa brincadeira. E ganhou também a oportunidade de curtir mais um dia conosco aqui em Londres. Fomos ao mercado de Brick Lane, um dos mais famosos da cidade. Na verdade Londres tem 3 grandes e famosos mercados de rua: Camden Market, Portobello Road e Brick Lane. Este último era o único que ainda não havia sido explorado por nós. O mais legal que fizemos lá foi ter comprado alguns bagels na talvez mais famosa padaria da cidade. Bagel é o nome de um pãozinho tradicional judeu, o qual os caras fazem muito bem nesta padaria. A padaria é uma lenda da cidade, e na verdade foi a única coisa que restou lá do antigo bairro judeu. Hoje em dia o bairro é tomado por indianos, o que fez o lugar tomar a fama de "Bombaim em Londres", mas essa padaria continua lá, abrindo 24 horas por dia, todos os dias da semana, e vendendo seus produtos a preços bem acessíveis. Tudo isso reflete em filas bem grandes, mas nada que nos espantasse. Filamos sim uns bagels, que estavam muito bons mesmo. Mais tarde, falando com minha mãe e vó por telefone, elas disseram que minha bisavó costumava fazer os tais pãozinhos. Daí eu me lembrei mesmo que o meu vô sempre falava em uns tais de "bêigales", que ele dizia serem muito bons. Então assimilei que se tratava da mesma coisa, e que ele tinha razão, são bons mesmo.

Lelo, André, Marcus, Chico e eu em Brick Lane


E assim passamos o nosso último dia todos juntos. Marcus, André, Lelo e eu: os caras que durante muito tempo haviam morado junto e criado uma grande amizade. Neste dia o Chico também estava presente, já que depois de ter passado os primeiros meses em Londres morando em outro lugar, agregou-se a nós, vindo mirar na nossa casa. E alguns dias mais tarde o Biri também veio para cá. Acabamos aquele dia em Camden Town comendo a tradicional liquidação de fim de tarde do chinês e dos doughnuts. Pra registrar essa parceria, estou anexando duas fotos quase iguais, que diferem em apenas uma pessoa. Na primeira aparece o Lelo, que como eu já disse, foi nosso companheiro durante muito tempo em nossa singela casinha de Willesden Green, que vem a ser o nosso bairro. E na outra foto, o Chico, que vem a ser o quarto elemento, depois do André, Marcus e eu. Ele veio conosco, mas demorou 6 meses para se juntar a nós. Antes tarde do que nunca. Então está registrado. Ambas as fotos tiradas na estação de metrô do nosso bairro, onde costumamos passar mais de uma vez diariamente.

1.ª foto: Marcus, André, Lelo e eu

2.ª foto: entrao Chico e sai o Lelo


Naquela semana eu voltei para aula, mesma turma, diferente professor: tudo a mesma coisa. E desde então estou na mesma turma, mesmo professor, mesma coisa. Apesar de ter certeza que já deveria ter trocado de nível, não sei por que não sou trocado. Parece que é porque não tem vaga no outro nível, mas isso eles não admitem. Só tenho mais uma semana e meia de aula. Depois meu curso acaba e nessa escola não fico mais. Estou procurando e discutindo comigo mesmo o que devo fazer nos próximos meses.
Nesse meio tempo fui ao show do Belle & Sebastian, uma banda escocesa da qual gosto muito, e estava muito bom! Os caras fazem uns rockzinhos bem suaves, quase ingênuos, mas de uma linha melódica excepcional. São músicas realmente bonitas, cantadas por uma voz quase confidente, acompanhada por intrumentos de timbres belíssimos, em sua maioria acústicos. O show não foi excepcional, mas pude ver materializado na minha frente o som dos caras, e por assim dizer, os próprios caras. Pois eu tinha os CDs e tal, mas nunca havia visto imagem alguma deles, e foi muito legal vê-los tirando exatamente os mesmos sons, mesmos timbres, mas ao vivo. Valeu mesmo.
Então fevereiro assim passou. Fiz algumas outras coisas legais: conheci o interior da Tower Bridge, fomos a Portobello Road, em Notting Hill, uma que outra janta pros amigos. Mas o que mais fiz mesmo foi escrever e pensar na vida. Escrever, vocês já devem imaginar o quê. Levei muito tempo mesmo para escrever todos os e-mails sobre a minha viagem e organizar todas as fotos no meu álbum online. Espero que grande parte de vocês tenha, senão gostado, ao menos lido, e de repente acessado o site. Realmente deu trabalho, mas foi compensado por alguns e-mails que recebi em troca. Valeu mesmo àqueles que mandaram algumas palavras a respeito, é muito gratificante. E sobre o pensar na vida, isso – para mim - é normal.

Passendo por Londres: Portobello Road e Piccadilly Circus


Como falei lá no início do e-mail, hoje é terça-feira de carnaval, que nesse ano ainda insistiu em cair no último dia de fevereiro. Aqui na Europa o fim de fevereiro é como o fim de qualquer outro mês, mas para nós, brasileiros, tem um significado especial. Amanhã, primeiro de março e ainda mais, quarta-feira de cinzas, é como se fosse o primeiro dia do ano. É como se os novos planos, que todos fazemos a cada ano, tivessem de ser começados a serem postos em prática amanhã. E sobre isso acho que eu não preciso explicar nem falar muito, todos sabem e sentem. E quem não entendeu ainda, deixo dois simples versinhos, que dizem mais do que qualquer coisa que eu possa escrever. Mas antes lhes deixo meu grande e saudoso abraço.

"São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração"
Antonio Carlos Jobim

Thomas

22 de fevereiro de 2009

28.ª SEMANA: Londres com a família

Era domingo, dia 29 de janeiro, e nós desembarcávamos no aeroporto de Gatwick, um dos aeroportos que servem a Londres. Pegamos um trem em direção a Victoria, estação de trem/metrô/ônibus no centro da cidade. Fazia um dia lindo, daqueles difíceis de serem presenciados no inverno londrino. Céu azul, nenhuma nuvem em vista, realmente lindo. E como foi boa a sensação de voltar a Londres. A minha viagem havia sido realmente maravilhosa, mas isso não impedia que eu ficasse feliz de retornar a essa cidade. Porque quando se viaja tudo é novo, por vezes não se sabe como agir, como lidar com as situações. E daí tem aquela parte do transporte: onde pegar o transporte público, onde comprar a passagem do transporte público, onde se pede informação sobre onde se compra passagem e onde se pega o transporte público. E o idioma complicando tudo...
Mas daí se chega numa cidade onde você já sabe como as coisas funcionam, sabe facilmente aonde ir, as pessoas - dentro do possível - lhe entendem, e você - também dentro do possível - entende as pessoas. Sei lá, não tô conseguindo explicar. Mas o fato é que foi bom retornar a Londres depois de 1 mês fora. Mas mesmo que eu soubesse onde era o nosso hotel e como chegar até lá, não tinha mãos e força suficientes para levar as minhas malas conjuntamente com as de minhas companheiras. Porque mulher viajando tem a incrível tendência de ser atraída por todo e qualquer tipo de loja. Bom, às vezes elas me obedeciam e se seguravam para não entrar. Afinal, muitas vezes era questão de ou ver os lugares interessantes das cidades ou ver as lojas. Daí elas me ouviam. Mas nem sempre fui feliz na minha pregação, e o fato é que milagrosamente as bagagens haviam aumentado substancialmente em tamanho e, principalmente, em peso. E quem as carregou? O André, é claro! Tive que chamar meu grande parceiro, que já estava em Londres fazia uma semana, para ajudar na logística, que consistia em pegar um ônibus de Victoria Station até Holborn, onde ficava nosso hotel. E no fim deu tudo certo. Fazia um maravilhoso domingo ensolarado e os chinas de Chinatown comemoravam o ano novo chinês, talvez por isso o ônibus estava tão cheio, é verdade, mas nada que 3 ratos de Carris - André, minha irmã e eu - não fossem capaz de tirar de fichinha. E as véias foram lá, tranqüilamente sentadas.
Bom, em Londres a coisa ia ser um pouco diferente. Até então tínhamos feito a Itália toda acompanhados de guias profissionais, informação mastigadinha e tal. Aqui obviamente o guia era eu. Então aproveitei o início de noite para levá-las a Camden Town para filar uma comidinha asiática a 1 pound. Há muito tempo atrás eu havia comentado para vocês sobre esse lugar que existe aqui em Londres. É um bairro onde existem várias feiras, mercados e lojas das mais variadas coisas. Nem vou tentar dizer o que se encontra lá porque se encontra de tudo. O que vocês puderem imaginar de bugiganga, lá tem. E tem um monte de banquinhas de comida também, de várias partes do mundo, especialmente da Ásia. Eles vendem em cumbuquinhas de isopor, ao preço médio de 3,50 pounds. Mas lá pelas 6 da tarde eles começam a fazer liquidação a 1 pound. E então as levei para dar um passeio por lá e aproveitar para almoçar, já que já era noite e as barrigas estavam roncando. Elas, ao que me consta, adoraram. Mortas de fome, em poucos minutos comeram aquelas comidas chinesas empapadas em gordura, feitas por mãos de higiene duvidosa... E quem se importava? Nem tiveram tempo em pensar a respeito. E eu também não; nem sabia direito o que estava comendo, mas comi. E estava bom.
Esse é um programa dominical que os guris e eu às vezes fazemos. Hoje, por exemplo, é um domingo e daqui há pouco os caras estão indo para lá. Dessa vez não vou, ficarei aqui em casa escrevendo este e-mail que já está um tanto atrasado, refere-se a 3 semanas atrás.
Mas então vamos lá, voltando 3 semanas no tempo. Deixamos Camden e fomos direto para o hotel, descansar e dar aquela arrumada nas coisas.
O dia seguinte foi de caminhada. As três já conheciam Londres, mas nunca é demais dar uma passada por Covent Garden, comer uma jacket potato, Leicester Square, Piccadilly Circus, Regent Street, Oxford Circus, Carnaby Street. Só aqueles lugares bem turísticos mesmo, e nem por isso menos especiais. Muito pelo contrário, o que há de melhor em Londres do que some stroll por Covent Garden ou um devaneio pela Regent?
Na Terça-feira as levei para um passeio pelas Docklands, a região leste da cidade, onde se encontram as docas, nada mais do que pequenos canais muito antigos que atualmente enfeitam o Tâmisa, e que eram utilizados como portos. Na verdade as docas foram construídas, como em qualquer outro lugar do mundo, para aumentar a área atracável do rio, já que em uma dada época o rio era tão congestionado que os barcos não tinham mais espaço para parar. Fazendo um paralelo, é como se fosse os estacionamentos privados que hoje em dia encontramos em prédios espalhados pelas cidades.
E é nas docklands que se encontra o bairro mais moderno da cidade, um distrito financeiro chamado Canary Wharf, onde está o edifício mais alto da Europa, Canada Tower. Então passamos por lá, um lugar realmente muito moderno e bonito, e depois fomos para Greenwich. Para quem costuma ler meus e-mails e tem boa memória, algumas vezes já fiz menção a este lugar. Greenwich é um bairro da cidade bem afastado do centro, onde por sua vez passa o Meridiano de Greenwich. É um lugar muito legal, onde na verdade não tem muito a ver com Londres. A mim parece muito como uma cidadezinha costeira, sei lá. Não deixa de ser, na verdade, pois fica encostado no Tâmisa. Mas as coisas lá, talvez a arquitetura, sei lá... Parece que a atmosfera é meio praiana. Talvez contribua o fato de lá estar a sede da Escola Naval e do Museu Marítimo Nacional. Greenwich na verdade foi durante muitos anos considerada o ponto de entrada de Londres, quando se trata de alguém rumando pelo Tâmisa, vindo do Mar do Norte.
Lá está também o antigo Observatório Astronômico Real, ponto exato por onde passa o Meridiano. Desculpem estar repetindo isso. Mas é que nos últimos tempos a minha lista de destinatários cresceu bastante, e eu acho que o e-mail que eu mandei contando sobre Greenwich foi muito tempo atrás. Daí fomos até o observatório, que fica num morro, no meio de um parque, tiramos a foto clássica com um pé em cada "lado" do mundo - apesar de que confesso que se fosse a linha do Equador seria mais emocionante - e elas se divertiram com os esquilos espalhados pelo parque.
O dia foi passando e quando vimos já era noite. Ainda passamos pela City, a parte mais antiga da cidade, onde hoje em dia fica o principal distrito econômico de Londres - e, por assim dizer, da Europa - e podem ser vistos prédios modernos misturados com alguns bem antigos, e no meio de tudo isso, igrejas, muitas igrejinhas. Mas levei-as apenas para mostrar dois prédios muito interessantes que tem lá. Elas gostaram.
Pois durante a noite eu peguei minha bicicleta e levei-as para dar uma volta. Na verdade não era minha bicicleta, pois àquelas alturas, depois de um mês fora de Londres, era óbvio que a minha bicicleta já estava nas mãos de algum outro rider há muito tempo. Mas isso nada muda no nosso passeio. Alertei-as para pôr o máximo de roupas que pudessem, e elas assim o fizeram. Pegamos um cobertor do hotel, pois o cobertorzinho que tenho para os clientes se cobrirem seria muito pouco para elas. Antes fui lá pegar a bicicleta na garagem e depois passei no hotel. Lá estavam elas na recepção. Então fomos; muito engraçado! Acho que gostaram. Riam, cantavam, e o mais engraçado era que todos os riders ficavam olhando. Tipo, janeiro ao que eu saiba foi um mês horrível no rickshaw business. E daí os poucos riders guerreiros que estavam trabalhando, em sua maioria sem pegar uma corrida sequer, ficavam olhando e provavelmente pensando: pô, esse cara é fóda, como que ele conseguiu 3 clientes pra ficar dando banda neste frio? Depois, já era 10 da noite, larguei a bike na base e ainda as levei - de metrô - para conhecer a minha casa. A vó não foi, preferiu se recompor no hotel.

Dando uma volta gelada de rickshaw


Dia seguinte eu já havia programado um encontro com vários amigos que fiz aqui em Londres. E então tiramos algumas fotos neste dia tão especial. Algumas estão anexadas. Saímos do Madame Tussauds e demos uma passadinha no Regent´s Park, que para mim rivaliza com o St. James Park o título de parque mais bonito de Londres. Obviamente e infelizmente, por ser inverno, muitas árvores estavam sem folhas e quase não havia flores, uma paisagem bem diferente daquela que pude presenciar no último verão. E confesso que não vejo a hora desse inverno dar adeus. Mas isso é papo para outra hora.

Na ordem: J. Lo, Einstein, Spielberg, Exterminador, Beatles, Chaplin, Não me lembro o nome e Morgan Freeman


Depois de se divertir com os esquilos e a quantidade de aves que habitam o parque, tivemos o almoço mais londrino possível: sanduiches, iogortes e bolinhos no Pret a Manger, uma rede de lanchonetes/cafeterias que existe aqui em Londres. E eu me dei conta de que é nesse tipo de lugar que os londrinos almoçam. Assim como o Pret, existem outras como o Nero, Starbucks - maior do mundo - e Costa. Mas isso não interessa nem um pouco para vocês. Só estava wandering about o cotidiano desta cidade.
Almoçamos e fomos dar uma volta por Mayfair, talvez o bairro mais posh da cidade. E um dos mais legais também. É como se fosse o Moinhos de Vento de Londres. Acabamos na Fortnum & Mason, uma loja enorme e muito bonita, em Piccadilly Street. Uma passadinha rápida por Piccadilly Circus, como de costume iluminada por seus anúncios publicitários, e... PUB! Levei minha mãe e irmã - minha vó tinha ido para o hotel - para ter contato com a mais pura tradição inglesa, um PUB. Depois fomos para o hotel e nos preparamos para mais uma voltinha de rickshaw. Mas essa foi mais curta que a do dia anterior. Acabei o tour levando elas para Waterloo Bridge, aquela ponte da qual tanto falo, onde se tem a melhor vista de Londres. Depois as levei na casa do Dany, meu primo italiano que mora aqui, para uma rapida visitinha - já eram quase meia-noite - e fomos para o hotel. Descanso.
Quinta-feira: British Museum e Cirque du Soleil. Primeiro fomos ao famoso Museu Britânico, que é realmente fabuloso. Não vou contar nada porque me recordo que já despendi muitas palavras em folhetins anteriores tentando descrevê-lo. À noite pegamos a Piccadilly Line rumo a South Kensington, ou melhor, ao Royal Albert Hall. Novamente vou tentar não me repetir e não vou descrever o teatro novamente. Apenas dizer que ele é maravilhoso. Assim como também foi o show que assistimos, called "Alegria". O Cirque du Soleil é um gupo canadense criado em 1984 por artistas de rua e desde lá os caras cresceram um pouquinho, tendo hoje em dia 6 produções diferentes que correm o mundo simultaneamente, assim como os shows regulares de Orlando e Las Vegas. E foi genial, uma mistura de circo com teatro, música, enfim... Difícil de descrever. Ainda mais num venue tal que é o Royal Albert Hall, e com uma companhia tão especial: minha mãe, vó, irmã e o Chico, que pegou carona e foi muito bem vindo.

Cirque du Soleil - Alegria


Acabado o espetáculo, hora de ir para o hotel e arrumar tudo, agora por uma última vez nesta seqüência de viagens desde o início do ano. Dia seguinte elas estariam voltando.
Dia seguinte. Muitas horas gastas durante toda amanhã para arrumar tudo. Mala sendo comprada de última hora, aquela coisa toda... À tarde, nas últimas horinhas com a família, fomos assistir a um filme 3D no IMAX: Wild Safari, um documentário sobre os grandes animais da África. E então fomos transportados para dentro de um Land Rover, fazendo um safari em plena África do Sul. Tudo obviamente enhanced pela realidade tri-dimensional.

IMAX


Saímos do cinema para uma última caminhada. E assim mostrei para elas talvez uma das partes mais bonitas de Londres, chamada Southbank. É lá que está a London Eye, maior roda-gigante do mundo, mas que infelizmente ficou para a próxima. Eu havia ficado a semana inteira esperando um dia de sol... e nada. Tirando o domingo, dia em que haviamos chegado, todos os outros dias foram completamente nublados, como bem mandaria o script de uma viagem filmada em Londres. Último pedido para alguém tirar uma foto nossa e era isso.

Derradeira foto com a família


Fomos para o hotel pegar as malas e rumamos para o aeroporto. Mas as mesmas malas que precisaram da ajuda do André na chegada precisariam agora chegar até o balcão de check-in. Agora o trajeto era um pouco diferente. Tínhamos que ir para o aeroporto de Heathrow, via Piccadilly Line. Isso facilitava muito, pois podiamos pegar essa linha na estação que ficava quase em frente ao nosso hotel. Mas eram muitas malas e muitas escadas, algumas rolantes e outras não. Plano. Todas as malas na recepção do hotel. Minha mãe, irmã e eu levávamos algumas malas até a estação. Mais precisamente até a plataforma exata na qual teriamos que pegar o metrô. Enquanto isso a minha vó ficava no hotel tomando conta das malas restantes. Então o plano funcionava assim: minha mãe ficava parada na plataforma da estação cuidando das malas que nós já haviamos levado e a minha vó ficava no hotel com as outras. E eu e a minha irmã, no auge de nossas juventudes, carregando as malas do hotel para a estação. Se não me engano 3 viagens foram suficiente. Pronto. Todas as malas estavam lá na plataforma, inclusive as malas donas das malas. Era hora do rush, estação realmente cheia, e a Piccadilly Line é talvez a principal linha de Londres. Como tínhamos muitas malas e o tempo de abertura das portas não é tão grande, pensei que seria mais prudente que entrássemos no primeiro vagão. Assim, se alguma coisa desse errada, ao menos o maquinista facilmente notaria pelo espelhinho retrovisor do trem. Não, brincadeiras a parte, existe mesmo um espelho fixo no final da plataforma para auxiliar o maquinista. Mas daí, a minha mãe, que já tinha observado uns 10 trens passarem enquanto cuidava as malas e nos esperava, me disse que os primeiros vagões estavam sempre vindos muito lotados, e que não teria como efetuarmos o processo. No entanto, disse ela que o último vagão passava sempre tranqüilo. Então levamos todas as malas para o outro canto da estação, e por assim dizer iríamos agora enfiar todas as malas pela bunda do trem. Malas prontas. Minhas instruções para a parte mais complicada da missão: "Vó, tu entra no vagão rapidamente e nos dá retaguarda, ou seja, sai da frente e deixa espaço livre para realizarmos os trabalhos. Mãe e Tonia, vocês entram, cada uma com uma mala, largam rapidamente e ficam a postos, que eu, ainda na plataforma, passarei as demais malas para vocês. Por sua vez, eu serei o último a entrar, completando com pontualidade britânica a situação. Mas, por favor, deixem as pessoas primeiro sairem do vagão, do contrário os retardatários podem causar um sério acidente, prejudicando nossa missão". E tudo deu certo mesmo! E ainda sobrou tempo. Também, vocês tinham que ver as caras das pessoas que estavam dentro do vagão. Muito engraçado! Quando a minha irmã entrou com a mala dela, a tocou de uma maneira que a mala quase matou um lá. Mas no mais foi só isso. Depois, com mais calma, fiz uma pilha com elas, as malas, onde sentei e me encostei durante os 50 minutos de viagem até o aeroporto. Chegando lá, tudo foi mais fácil, pois era a última estação da linha, e sendo assim o trem ficava bastante tempo com as portas abertas. Encontramos alguns carrinhos, jogamos as malas em cima, e eu concordei que a roda foi a maior invenção de todos os tempos.
E assim elas se foram e eu estava novamente retornando à minha vida normal em Londres. Depois de um mês fora da Inglaterra e mais uma semana como turista naquela cidade, tudo tinha que voltar ao normal. Era uma sexta de noite e a semana realmente não havia literalmente acabado. Mas como sou eu quem escrevo e posso escolher quando começar e parar, vou parar por aqui, numa sexta-feira mesmo. Espero que tenham gostado dos últimos e-mails que mandei, contando minhas aventuras com os amigos e depois com a família. Os próximos serão sobre eu em Londres, mas acho que Londres ainda tem muito a me oferecer. E, sendo assim, eu ainda terei muitas coisas para contar para vocês. Vamos ver... Um grande abraço a todos, com muita saudade mesmo,

Thomas

18 de fevereiro de 2009

27.ª SEMANA: ITÁLIA, PARTE 2

Deixamos Florença e fomos para Roma, passando por Assis no meio do caminho. Em Assis ficamos por pouco tempo, suficiente apenas para uma rápida caminhada pela cidade, conhecer a Basílica de São Francisco de Assis e fazer uma parada para almoço. No caso, nosso almoço consistiu em muitos doces que compramos em uma das confeitarias da cidade. Provavelmente as confeitarias de Assis tem os doces mais bonitos que já vi na vida, e então não conseguimos resistir. Mas os que eu comi na verdade eram bem mais bonitos - e caros - do que bons.
Assis é na verdade um pequenino vilarejo que fica em cima de um morro. Acho que a maioria das construções que se vê lá hoje são as mesmas que o então Francisco deve ter vivenciado, por volta dos anos mil cento e alguma coisa. Exageros à parte, estar lá é como se transportar no tempo, pois é tudo muito pitoresco, apesar de essa palavra não me agradar muito. E as casas são todas construídas em uma pedra de coloração rosa fraquinho, o que dá um toque peculiar e muito característico.
Rumamos a Roma, que é realmente muito especial. Eu tenho um primo italiano que morou lá e agora mora aqui em Londres. Ele uma vez me disse uma coisa - que na verdade deve ser repetida por todos os romanos, pois a minha guia, que era romana, disse a mesma coisa - que é pura verdade. "O que dizer de uma cidade que é, por si só, um museu?" Porque Roma é realmente um museu a céu aberto. Antes de ir para lá eu não tinha idéia de que havia tantas partes da Roma Antiga que ainda estavam tão bem conservadas. É realmente amazing! Para vocês terem uma idéia, existe um prédio chamado Pantheon que foi construído originalmente entre 27 e 25 AC. Depois foi destruído em um incêndio por volta de 80 DC e reconstruído pelos anos 120. É óbvio que desde lá muitas intervenções foram feitas, até porque ele virou igreja, apesar de ter sido construído em uma época em que a Igreja nem existia. Na verdade foi graças a isso que ele foi conservado até hoje. Na Europa muitas vezes isso ocorreu: templos ou prédios muito antigos que em algum ponto do tempo foram transformados em igrejas, e por isso se mantiveram até hoje. Para alguma coisa a Igreja Católica foi útil, mesmo que sua intenção inicial não fosse a pura e simples conservação de um templo romano. Mas o fato é que o prédio está lá sendo utilizado até hoje, e é magnífico. A sua porção principal é composta por um domo, formado por um hemisfério prefeito de 43,5 m de diâmetro interno. O topo deste domo é aberto, como se faltasse a "tampa". É um detalhe realmente interessante por vários sentidos. O furo é muito grande, com cerca de 9m de diâmetro. Por ele entram os raios do sol e da lua, bem como a água da chuva. Só estes 3 elementos já seriam o bastante para demonstrar a singularidade deste monumento. Mas do ponto de vista de engenharia, é ainda mais incrível. Os caras fizeram, sempre lembrando que há quase 2000 anos, uma casca esférica - alguma coisa pelo menos eu aprendi nas aulas de Mecânica Estrutural I, com meu grande mestre Segóvia - sem a dita pedra angular. É difícil explicar aqui de uma forma simplificada; os princípios físicos que regem os arcos e abóbadas até podem ser simples para quem tem um bom relacionamento com a física, do contrário seu entendimento pode ser dificultado. Bom, é mais fácil se vocês simplesmente acreditarem em mim e entenderem que isso foi realmente uma façanha incrível. E para tentar explicar um pouco melhor a representatividade do Pantheon vou precisar abordar outra edificação gigantesca, que é a Basílica de São Pedro, a maior igreja já construída, com área interna capaz de abrigar quase 60 mil pessoas. Ela começou a ser construída em 1506, mas inicialmente nenhum arquiteto foi capaz de realizar a cúpula, dadas suas enormes dimensões. O trabalho ficou parado, quando, alguns anos mais tarde, Michelangelo, aos 72 anos, já após ter realizado o David e os afrescos da Capela Cistina, foi chamado para empreender a façanha. E então ele foi buscar conhecimento e inspiração nas cúpulas de duas grandes edificações que eu tive o prazer de conhecer: a Duomo de Florença e o Pantheon de Roma. E aí que eu queria chegar. Michelângelo conseguiu entender os princípios sobre os quais o Pantheon tinha sido contruído, mesmo tendo um enorme "furo" no topo. Conjuntamente com as técnicas construtivas utilizadas na Duomo de Florença, que havia sido construída um século antes por Brunelleschi - outro cara que revolucionou a arquitetura à época, Michelangelo conseguiu idealizar a maneira com que a cúpula da Basílica poderia ser construída. Mas aí vem um detalhe que eu achei maravilhoso: Michelangelo então projetou a cúpula da Basílica de São Pedro com diâmetro interno de 43m. Se vocês estão lembrados, isto significa meio metro a menos do que a dimensão do domo do Pantheon. Uma demonstração clara da admiração tal que ele tinha pelo Pantheon. E eu compartilho o mesmo sentimento. Inclusive, se alguém tiver interesse, a página
it.wikipedia.org/wiki/Pantheon_(Roma) traz muitas informações interessantes sobre a arquitetura e história do Pantheon. Este endereço está em italiano, mas pode-se acessar o site em português, ainda que bem menos completo, pelo endereço pt.wikipedia.org/wiki/Pante%C3%A3o_de_Roma. Também encontrei uma página interessante sobre a Basílica de São Pedro, na qual vocês podem encontrar a história da igreja muito mais detalhada: www.cyberartes.com.br/indexFramed.asp?pagina=indexAprenda.asp&edicao=132 .
Bom, desculpem-me os devaneios arquitetônicos. Acho que é justificável quando se trata de um estudante de engenharia. Mas eu comecei a falar do Pantheon quando dizia que em Roma ainda podiam ser vistos muitas partes da Roma Antiga. E isso eu achei fantástico. Existe uma grande área, ao lado do Coliseu, chamada Foro Romano, que, se eu bem entendi, era a parte central da cidade antiga. É como se tivesse sido o que a Praça da Matriz é para Porto Alegre ou o que Trafalgar Square é para Londres - meus dois mais óbvios parâmetros de comparação e assimilação. O que acontece é que por toda Europa existem ruínas de construções do Império Romano, mas geralmente são muito danificadas e com acesso restrito; pode-se apenas olhar a uma certa distância. No Foro Romano, além de ser uma área muito grande com diversas construções, algumas bem conservadas, pode-se caminhar e apreciar tudo com muito mais intensidade. É quase impossível, quando se caminha pelo meio das ruínas, não se pegar pensando e imaginando como seria tudo aquilo há 2000 anos atrás. É o mais próximo que consegui chegar de uma viagem no tempo, se é que vocês me entendem. Sem algumas cervejinhas, é claro.

Foro Romano

E a sensação de estar no Coliseu é muito parecida. Todo mundo tem uma vaga imagem do Coliseu e tal. Mas estar lá ao vivo e poder entrar em um lugar tão magnífico, e relativamente bem conservado, é uma sensação muito diferente.
E outros vários monumentos incríveis e lindíssimos habitam Roma: o Vaticano como um todo, a Fontana di Trevi, Monumento a Vittorio Emanuele II... Este último é um dos monumentos mais lindos que já vi; realmente fantástico. Foi construído após a unificação da Itália em 1870 e o nome faz referência ao primeiro rei da Itália. Dentro dele existe um museu que trata do Risorgimento, ou seja, período em que se lutou pela Unificação Italiana. E então pude tomar conhecimento - a minha ignorância anterior não permitia - de que Giuseppe Garibaldi foi um cara importantíssimo também para a história italiana. Na verdade ele é considerado uma lenda naquelas terras. Dentro do museu havia menção ao tempo que ele viveu no Rio Grande do Sul, uma carta à Anita Garibaldi e outras coisas mais. Encontrei um site muito interessante sobre a biografia de Garibaldi; quem tiver interesse o endereço é pt.wikipedia.org/wiki/Giuseppe_Garibaldi.

Monumento a Vittorio Emanuele II


Mas Roma não é feita só de história e monumentos. É feita de italianos e suas Lambrettas e Vespas de motoristas muito malucos. E os de automóveis não se salvam. Os italianos, aos poucos fui assimilando, são um povo muito peculiar. Na verdade a Itália é um tanto diferente. Sem dúvida é um país de primeiro mundo, com todos os méritos que isso possa representar. Mas eles tem aquela coisa que os latinos têm, e que os fazem um pouco mais bagunçados que o resto da Europa. Mas eu não quero me fazer mal interpretado. Uma bagunça que só acrescenta um certo tempero. Uma coisa de saber aproveitar e viver as coisas de uma maneira mais light, mas ao mesmo tempo mais intensa. A nossa guia costumava dizer: "Piano, piano...". O que em inglês seria o famoso "Take it easy..." ou em português algo como "não te estressa..." De qualquer maneira, o “piano, piano” deles soa muito melhor, ainda mais quando docemente falado por uma italiana, de preferência. Eu ainda não conheço Portugal e Espanha, mas tenho um guess de que por lá as coisas devem ser mais ou menos assim. No entanto ainda acho que na Itália eles vivem com ainda mais intensidade. Não se encontra nos italianos aquela disciplina estrita de um típico inglês ou aquela displicência total de um sul-americano. Os italianos, por sua vez, conseguiram pegar o filé de cada um – como, again, diria o Chico.

Passeando por Roma


E aí acontece outra coisa engraçada, mas que é difícil de abordar e explicar. Acima eu estava apenas fazendo uma brincadeira, com um pedacinho de veracidade, sobre as semelhanças de personalidade que todo o mundo ocidental tem com os italianos. Na verdade eles não pegaram nada de ninguém. Se formos considerar que o mundo ocidental veio de Roma e Grécia, temos que admitir que nós pegamos deles. Afinal, somos chamados de latinos por quê? Bom, espero ter-me feito claro até aqui. Só que obviamente entre a queda do Império Romano e o descobrimento do Brasil se passaram mais de 1000 anos, e esse elo de ligação entre tipos e humores é um tanto longínquo. Só que então, nós do Brasil, principalmente das regiões sul e sudeste, tivemos um outro contato muito forte com os italianos, este muito mais recente. Logo não se precisa ser muito clever pra saber que qualquer pseudo-déjà vu que eu possa ter sentido entre as personas italianas e meus conterrâneos brasileiros não é mera coincidência. É óbvio que os italianos deixaram muitos traços, pelo menos entre os gaúchos, únicos que eu tenho conhecimento de fato para afirmar categoricamente. E então chego onde eu queria chegar: estando na Itália pude sentir um pouco de Brasil - ou um pouco de Porto Alegre ao menos. E isso não é só uma constatação minha. Na verdade não falei sobre isso com minha família, mas troquei uma idéia com o André, que andou pelas bandas da Itália no mês passado, e ele também me confessou isso. E como essa sensação de povo mais acolhedor é boa... É bem aquela coisa da nona, da massa caseira ou do vino rosso. E tudo sempre acabava com um simples prego, a maneira com que eles dizem "por nada", depois de receberem um grazie (obrigado). O detalhe é que eles sempre diziam.
Eu poderia continuar falando de Roma, onde ficamos por 3 dias e meio, e teria muito mais coisas para contar, pois a cidade é realmente superb. Mas a semana ainda não havia acabado e, sendo assim, ainda tenho algumas coisinhas para contar dos outros lugares que fomos depois. Mas não poderia deixar Roma para trás sem citar um lugar genial que nós fomos, chamado Campo de´ Fiori. Na verdade é uma simples feira onde se encontra frutas, verduras, temperos, peixes, flores, queijos e as mais variadas especiarias. Seria simples se não estivéssemos na Itália. Aos citados, adiciona-se outros ingredientes, a saber: a feira acontece numa praça cercada por edifícios truly italianos, aqueles de 4 ou 5 andares, o mais comum estereótipo que vem à nossa mente quando se pensa em um edifício italiano. Coloca-se entre os produtos e os clientes as pessoas que vendem os produtos, ou seja, os feirantes. Italianos. Tudo isso deve ser iluminado com o sol das 10 da manhã, a uma temperatura fria – esteriotipamente européia – mas agradável: em torno de 9 graus. Opcionalmente, mas de grande contribuição no paladar final, pode-se imaginar também um burburinho em idioma italiano, daquele bem cantado mesmo. E deu, está pronto na cabeça de vocês a imagem deste lugar que fomos. E eu imagino que assim como esse devem existir vários em cada cidade. Por lá compramos um parmegiano e um gorgonzola ricamente maturados em alguma queijaria italiana e algumas tâmaras desidratadas nos campos da toscana, que foram consumidos no ato. Capisci?!
Mas chega de Roma para vocês. O nosso tour acabou numa quarta-feira, dia 25 de janeiro, mas ficaríamos na Itália até domingo, dia em que voaríamos para Londres. Sendo assim, compramos outro tour para conhecer um pouco da costa oeste italiana, feição a qual não havíamos tido contato ainda. A costa italiana é relativamente extensa, dado que a bota tem um modelo um tanto estreito, de cano alto, e que à Itália ainda pertencem 3 generosas ilhas. Logo, escolhemos apenas a few lugares para gastar os nossos 3 dias que estavam sobrando. Compramos então uma outra excursãosinha que nos levaria a Pompéia, Sorrento e Capri. E fomos.
Primeira parada: Pompéia, sobre a qual não vou perder muito tempo dissertando. Muito legal. Não a melhor coisa que vi na Itália; longe de ser a pior.
Segunda parada: Sorrento. Uma cidade belíssima, onde, apesar de ser na costa, na verdade não existem praias, pois a cidade está numa planície que fica a uns 50 metros acima do mar. Algo muito diferente, pois ao se tentar chegar ao mar por alguma rua da cidade, sempre se chegava a algo como um precipício. Eu não sei direito o que é uma falange (devo ter dormido nesta aula de geologia), mas alguma coisa me diz que eu poderia dizer que eram falanges e que a cidade ficava toda em cima destas. Espero que eu não esteja dizendo nenhuma impropriedade.
O mais bala quanto a Sorrento foi o nosso hotel, onde dormimos dois dias. Era um hotel muito bom, realmente de classe, e o que é melhor: com uma vista maravilhosa da cidade, do Vesúvio e, bem ao fundo, de Nápoles. Realmente maravilhoso. Tínhamos as jantas e os cafés da manhã incluídos no hotel. E os salões onde rolavam as refeições eram lá em cima, no sétimo andar. Imaginem que o hotel já era num morro um pouco acima do nível da cidade. A cidade, por sua vez, era uns 50 metros acima do mar. E nós ainda estávamos no sétimo andar. A vista era realmente emocionante. Os salões eram completamente envidraçados, então os meus companheiros de café da manhã eram, além da minha vó, mãe e irmã, o Vesúvio e o Mediterrâneo. E não era só lá em cima, todos os quartos do hotel tinham sacada de frente para o mar. Acordávamos com o reflexo azul do Mediterrâneo no teto do quarto - bá, essa eu me puxei.
Mas ainda estava por vir talvez um dos pontos altos de toda a viagem: a Costa Amalfitana. Tentarei ser breve. Tínhamos o dia livre em Sorrento. Sem essa de muito tempo livre, sem nada para fazer. O esquema tem que ter emoção - em inglês, "thrill" seria uma boa palavra para descrever esse sentimento. Então pegamos um ônibus de linha que ia para Positano e depois Amalfi, duas vilas da Costa Amalfitana. Não tínhamos a mínima idéia de quanto ia demorar e tal, mas eu pensei que era coisa de meia hora ou um pouco mais. O ônibus demorou quase duas horas para chegar a seu destino final, pela estrada mais fóda - desculpem o termo - que eu já vi na vida. Eu já tinha passado uma vez por uma estrada complicada nos alpes italianos em uma outra viagem, depois eu e os guris pegamos uma outra muito punk na Provence, como relatei para vocês alguns dias atrás, mas essa aí que pegamos com ônibus de linha eu confesso que me caguei. O cara dirigia muito rápido num ônibus tamanho normal, em uma estrada em que às vezes ele mal se inscrevia na curva, mesmo utilizando os dois sentidos da via! Era realmente encagaçante! Imaginem que de um lado eram montanhas e do outro eram o penhasco e o mar, lá embaixo. Agora imaginem uma curva de uns 120 graus para esquerda, contornando uma parede de rocha, com o precipício do lado direito. Daí, como em todas as curvas não havia largura suficiente para passar o ônibus e um carro no sentido contrário, o motorista as contornava dando buzinadinhas para que os carros que supostamente tivessem vindo parassem. Difícil descrever. Adrenalina pura.
Mas a vista era compensadora, e Amalfi e Positano são absolutamente lindas. Apesar de ter feito um dia muito feio e de ser baixa estação, o que fazia com que a cidade estivesse bem vazia, sem muita vida e tal, mesmo assim eu achei maravilhoso. Aquilo no verão deve ser um dos lugares mais especiais do mundo.
Em Amalfi comemos na cantina mais italiana possível. O Sole Mio de fundo e uma garçonete atenciosíssima. Puro ar mediterrâneo. Degustei um peixe absolutamente fantástico, que me lembrou os saudosos papa-terras que meu pai e eu pescávamos em Atlântida, uns 10 anos atrás.
Ficamos apenas algumas horas em Amalfi, o que me deixou com gostinho de quero mais. Não descarto a idéia de curtir o friozinho na barriga de novo e voltar para lá no próximo verão, quando embarcarei no meu mochilão. Mas isso é só puro devaneio.
No outro dia fomos á Ilha de Capri, muito famosa entre os famosos. Primeiro fomos à (verdadeira) Gruta Azul, uma gruta que é parcialmente inundada pelas águas do mar. A entrada da gruta é minúscula, e o único modo de passar pelo pequeno espaço entre a pedra e a água são umas pequenas canoas. E só se consegue entrar lá quando o mar está alegre, o que, me disseram, acontece 2 vezes por semana. Quanto ele está brabo, neca de pitibiribas, como diria meu pai. Nem sei como eu me lembrei dessa. Mas então nós conseguimos entrar e é realmente belíssimo lá dentro, pois a luz entra por baixo (a abertura da gruta na parte submersa é maior, o que faz com que a água fique iluminada) e deixa a água com uma coloração azul fluorescente, belíssimo. E não posso deixar de fazer um comentário. Na outra vez que estive na Europa com a minha avó, há alguns anos atrás, ela me levou para Chamonix, França. Agora estivemos na Gruta Azul. Depois não me perguntem da onde vem minha mente suja; herança literalmente adquirida.

Entrada da Gruta Azul, a verdadeira.

Conhecemos Capri em si depois, belíssima também, mas como Amalfi, completamente vazia. Tomei meu último branco, o melhor por sinal, em um restaurante cheio de japoneses. Pois sim: eles viajam em qualquer época e estão em qualquer lugar.
Voltamos para Roma, onde dormimos uma última noite. No dia posterior poríamos os pés na Inglaterra. Mas era domingo, e outra semana começava. Um grande abraço e minhas verdadeiras considerações para quem novamente conseguiu ler tudo. Vocês podem encontrar as fotos que anexei e muitas outras no meu fotolog, ele está bem atualizado. Com saudade,

Thomas

15 de fevereiro de 2009

26.ª SEMANA: ITÁLIA, PARTE 1

Então era 12 de janeiro e eu pegava o trem de Marselha para Milão. A excursão pela Itália que eu iria fazer com a família começava só dia 13, assim como elas também só chegavam neste dia. Logo, eu ainda teria mais um pernoite em Milão. Em ter estadia reservada, chegando lá até fui até ao hotel no qual ficaríamos com o grupo nos dias seguintes. Era meia-noite e achei uma diária de 150 euros para uma pessoa um tanto salgada. Tá certo que era um hotel 4 estrelas, Starhotel Ritz... Mas e eu com isso?! Atravessei a rua e fiquei no Hotel Teco, a 60 euros - cifra que já achei salgada, se comparada aos menos de 20 euros por noite que tínhamos pago nos albergues da França.
Acordei bem cedo e fui para o aeroporto. E então elas chegaram e estava inaugurada uma outra parte da minha jornada. Apresento para vocês minhas novas companheiras de viagem: vó, mãe e Tonia - como costumo chamar minhar irmã. Elas aparecem na primeira foto anexada, que tirei dentro dos bondes de Milão. Ao que consta minha mãe e minha vó no momento curtiam um saudosismo, relembrando "dos tempos do bonde"... And so comigo elas ficaram durante três semanas, duas na Itália e uma em Londres. And it was perfect! Mas eu vou contar aos poucos para vocês.

Mãe, vó e Tonia no bonde em Milão


O nosso tour chamava-se Easy Pace Italy, algo como "Itália a passos calmos". Levava esse nome porque ficava praticamente 3 dias em cada lugar, escapando daquela correria que as excursões tendem a ser. Ideal para nós, pois devido ao problema que a minha vó tem no joelho, era melhor que fizéssemos as coisas com mais calma. Afinal, para qualquer um, viajar já é pesado. Então foi perfeito, tínhamos bastante tempo livre para fazermos o que quiséssemos, e além disso tivemos a sorte de pegar uma excursão de uma empresa muito boa. Ônibus excelente, hotéis muito bons, e uma guia muito dedicada. Debra, uma italiana completamente apaixonada pela Itália, o que contribuiu muito para que aos poucos eu gostasse mais e mais das coisas que via. Afinal a mulher conseguia contar e explicar tudo de uma maneira muito peculiar; mostrar a verdadeira Itália, não só a Itália dos estereótipos, aquela para turista ver.
Começamos nosso tour por Milão, que foi a cidade mais fraquinha no meu ponto de vista. Milão é considerada a capital econômica da Itália, e talvez por isso não tenha aquele ar truly italiano que mais tarde eu aos poucos iria tomar contato. Até o centro histórico da cidade não tem muito a mostrar. Como exceção cito a famosa Duomo, a catedral de Milão, simplesmente magnífica, e a Galleria Vittorio Emanuele, belíssima! Entre a Duomo e uma das entradas dessa galeria fica a praça principal de Milão, afinal toda cidade que se preze tem que ter sua praça mais importante. E essa praça com estes dois prédios fantásticos formam um conjunto belíssimo. Mas no mais foi só isso que me marcou mais.
Num dos dias livres em Milão pegamos uma excursão opcional para ir ao Lago di Como, um lago no extremo norte italiano, na região dos pré-alpes, quase divisa com a Suiça. Lindo, completamente cinematográfico! Pegamos um barco e fomos a uma cidadesinha chamada Bellagio, na beira do lago, wonderful! Depois andamos pelo lago e pudemos apreciar os palacetes que margeiam todo lago. Um deles, segundo a guia, era do George Clooney. Na real parece que ele comprou essa casa depois de filmar "Doze Homens e Outro Segredo", que teve algumas das cenas rodadas lá.

Lago di Como, norte da Itália


Deixamos Milão, que os próprios italianos - não os milaneses, obviamente - reconhecem não ser um bom exemplo de città italiana, e tomamos o rumo de Veneza. Mas no meio do caminho fizemos uma parada estratégica em Verona, a eterna cidade de Romeo e Julieta. Ficamos não mais que duas horas na cidade, tempo para apenas um café e uma caminhada. E foi o suficiente para eu começar a ficar maravilhado pela Itália. O centro histórico da cidade é lindo, com ruas tortuosas e edifícios escuros e antiqüíssimos, completamente medieval. Stupenda, como diria uma ragazza. Começávamos a sentir aquele clima italiano. A começar pela tradição de tomar café de pé, encostado nos balcões. E que café por sinal. Primeiro que parecia ser a medida de um gole, exatamente. Assim como os ingleses prezam por suas cervejas medidas em pints, os italianos tem seu café servido em uma xicrinha que enche uma ou no máximo 1,3 vezes a boca. E mesmo assim, com doses tão pequeninas, os italianos são os maiores consumidores per capita de café do mundo, o que prova que café é uma unanimidade nacional. E então eles entram nas cafeterias/lanchonetes, e ficam de pé, na frente do balcão, degustando seu cafezinho. E outro detalhe: o preço dos lanches e bebidas que fica afixado na parede, geralmente atrás do caixa, é só se o cliente for tomar de pé. Se a pessoa for sentar o preço é bem mais caro. E isso é como se fosse uma lei nacional, todos são assim.
Mas então chegamos em Veneza... E Veneza é uma cidade à parte. À parte não só da Itália, mas do resto do mundo também. Mesmo tendo conhecido Veneza - era a única cidade da Itália que eu já conhecia - em outra ocasião, pude novamente me espantar por ela. Uma ilha onde, provavelmente todos já sabem, não existe carros ou qualquer meio rodoviário de transporte. Ou seja, os táxis são barcos, os ônibus são barcos, as lambretas e vespas são barcos, os barcos são barcos. Achei genial, pois a idéia que eu tinha era de que nowadays praticamente não existiam mais quase pessoas morando lá, que era uma coisa só para turista e tal. Mas não, ao andar pelas minúsculas ruas, que são regularmente rasgadas por estreitos canais, pudemos notar que os venezianos ainda estão por lá. E não são poucos. É realmente um lugar único, e não só pelos canais em si. Durante muito tempo os venezianos foram como uma sociedade afastada do resto do mundo. Na verdade eles tinham contato sim - eram exímios comerciante -, mas os "outros" não tinham acesso a eles. E lá desenvolveu-se uma arquitetura única, gótica, mas um gótico muito distante do "gótico padrão". Não entendo nada de arquitetura, mas apostaria que deve ter uma escola arquitetônica dita veneziana, ou gótico-veneziano. Na verdade, o gótico na Itália tomou um caminho um pouco diferente, pois de uma maneira geral eles utilizaram rochas mais claras para construir suas edificações. O exemplo mais clássico é o famoso mármore de Carrara. Já no resto da Europa, as igrejas góticas ou foram feitas em rochas mais escuras ou muitas vezes até foram moldadas em rochas claras mas que sujam muito, adquirindo tons de cinza muito escuros. Essa escuridão, somada aos traços naturalmente fortes e pesados deste estilo, as deixam ainda mais obscuras... Well, tudo isso não ocorre em Veneza, lá o gótico fez-se mais leve e agradável. Ao menos para mim.
Mas voltando do devaneio arquitetônico completamente leigo - e coisa que eu não gosto de fazer é dar palpite sobre o que eu não tenho conhecimento, mas tudo bem, essa vez passa -, eu ia dizendo que Veneza é fenomenal. Em um dos nossos dias livres fomos a uma excursão opcional para Burano, uma ilha de pescadores. Infelizmente estava um dia muito feio, chuvoso, e não pudemos aproveitar o passeio de barco pela laguna – de Veneza até a ilha – pois a visibilidade era horrível. Chegando em Burano fomos direto a um restaurante típico, onde nos esperava uma farta refeição aos moldes italianos, ou seja: muita massa, vinho e antipastis a mais. Assim como este, ao longo da excursão participamos de alguns outros jantares e almoços que eram opcionais. E foram todos maravilhosos; aos poucos contarei para vocês. Este em Veneza tinha como tema principal frutos do mar, afinal tratava-se de uma ilha de pescadores. E pude comer um peixe grelhado estupendamente, preparado com ervas italianas, que ao que consta foram cultivadas no fértil solo irrigado pela laguna, onde os diversos aromas ganham vigor e os sabores são enriquecidos em seu mais alto nível... Dio mio! E um branco refrescante das uvas de Burano ajudou em todo o processo. Mas depois do antipasti, primeiro prato e segundo prato, ainda estava por vir a sobremesa. Rapadurinhas de amêndoa, deliciosamente crocante, e uma bolachinha típica da região, que devia ser apreciada depois de se mergulhar no vinho por 30 segundos, rigorasamente contados e verificados pela Debra, nossa guia italiana. Bom, no final de tudo, tomou-se novamente o barco para retorno a Ilha de Veneza. Engraçado foi que todas as pessoas do grupo haviam modificado generosamente seus humores. Comida e, principalmente, bebida liberadas fazem a diferença. E não excluo a mim ou a meus relatives: todos rimos de tudo também.
Ainda tive tempo de visitar o Palazzo Ducale, o antigo palácio dos doges venezianos, que, explicando de maneira simplista, eram os chefes de governo da Antiga Veneza. O prédio já é fenomenal por fora, mas o seu interior consegue impressionar mais ainda. Não adianta tentar explicar, seria em vão. Nesta ocasião também pude atravessar a famosa Ponte dos Suspiros, que liga o Palácio à antiga prisão. Era por esta ponte que os prisioneiros passavam antes de seu julgamento e conseqüente execução. Como estavam há muito sem ver a luz do dia, pois suas celas eram completamente fechadas, ao passar na ponte eles viam um último raio de luz e então supostamente suspiravam. Daí, Ponte dos Suspiros. Acho essa história toda muito engraçada, pois na verdade eles eram mortos em praça pública, em plena Piazza di San Marco, à luz do dia. Sendo assim, isso já derruba a teoria do último suspiro. But, é isso que me contaram, e eu fingi que acreditei. Mas o que interessa é que eu passei na pontesinha e cheguei a ir na cadeia e tal. Sinistra...

Veneza


Mas a semana ainda não havia acabado. Depois de pegarmos neve em Veneza, muito frio mesmo, fomos baixando um pouco mais e invadimos a Toscana. Nosso novo paradeiro: Florença, o berço da Renascença. Talvez um dos lugares do mundo ocidental com maior carga cultural possível. O lugar onde os grandes mestres, senão nasceram, despenderam anos de suas vidas em trabalhos que buscavam tão somente a perfeição. Pra vocês terem uma idéia, no batistério da cidade existe uma porta enorme de bronze chamada de "Portões do Paraíso", na qual um cara chamado Lorenzo Ghiberti gastou 23 anos de sua vida para concluir a obra, numa época em que a média etária estava entre 40 e 45 anos. Por Florença estiveram pessoas como Leonardo da Vinci - onde, por sinal, pintou a famosa Mona Lisa -, Galileu Galilei, Botticelli, Donatello, Raphael Sanzio, Giambologna e, é claro, Michelangelo Buonarroti. Todos esses caras são considerados deuses por lá, mas nas artes Michelangelo foi o mestre dos mestres. Ele viveu 89 anos, o que para época era algo como se hoje fossem 120 anos, sei lá. E produziu a vida inteira. Aos vinte e poucos ele já tinha terminado o David, considerado uma de suas obras primas. Porque quando se aborda Michelangelo é praticamente impossível apontar uma obra prima. Tive a oportunidade de ver suas maiores obras: o David, que atualmente está na Galleria dell'Accademia; uma das Pietás, que está no Museu da Duomo em Florença; os afrescos da Capela Cistina, simplesmente magníficos, e a Pietá da Basílica de São Pedro, ambos em Roma.
Em Florença há um museu de pinturas chamado Galleria degli Uffizi, que é o templo da pintura renascentista. Ali estão as principais obras de todos os grandes, e colocadas em ordem cronológica. Isso é muito importante para um leigo como eu, pois permite com maior facilidade observar o desenvolvimento da técnica, em um tempo no qual não havia fotografia e que se tentava passar para a tela o máximo possível de veracidade. Aí que as novas noções de perspectiva foram altamente utilizadas e mudaram para sempre os conceitos artísticos, enterrando de vez a arte bizantina, duramente plana e religiosa. Alguns dias depois eu poderia conferir isso na talvez mais incrível obra de arte que já pude ver: o teto da Capela Cistina, por Michelangelo. Ele pintou aquilo de uma maneira tão perfeita que parecem figuras em 3 dimensões. Realmente impressionante. Para quem está um pouco perdido, é nesse conjunto de afrescos que está aquela célebre imagem dos dedos de duas pessoas se tocando. Essa imagem, por exemplo, representa a criação do homem, e as duas famosas mãos pertencem a Adão e Deus. Assim como essa imagem, a íntegra dos afrescos do teto retratam todo Antigo Testamento. Para quem tiver mais interesse sobre a biografia e obras de Michelangelo, achei um site muito interessante cujo endereço é www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=197.
Florença foi realmente uma cidade que ultrapassou todas expectativas. Pra vocês terem uma idéia, na praça central da cidade, Piazza della Signoria, existe uma construção em um patamar um pouco mais alto, tipo um palco, chamada Loggia dei Lanzi. Nesse pseudo-palco ficam muitas esculturas geniais, como se fosse um museu ao ar livre. E na verdade é assim que eles o consideram mesmo. É meio difícil registrar tudo que me impressionou lá. Então acho que vou ficar por aqui. Quem tiver curiosidade entra em meu fotolog que obviamente vai encontrar muitas fotos ilustrando o que conto aqui.

Florença


Mas antes de me despedir de Florença não podia esquecer um passeio que fizemos por lá, no meio das montanhas Chianti, onde, por sua vez, é produzido o famoso vinho Chianti. Fomos ao Monastério La Certosa, um mosteiro muito antigo construído no alto de um morro. Fomos à noite, e fazia parte do passeio primeiramente uma visita ao mosteiro em si e depois uma janta preparada pelos monges. A visita foi muito legal, pois era de noite e não havia ninguém lá a não ser nós, a guia, e os 2 ou 3 monges que ainda habitam o local. E olha que é muito grande, mas hoje só sobraram alguns poucos habitantes. Depois então fomos ao banquete dos monges. Fenomenal: aquela comilança de novo, muito vinho, muita diversão. Os monges serviam a comida e cantavam, tocavam, muito bala! No final de tudo ainda tinha a degustação dos licores produzidos por eles mesmo. E vamos lá! Tinha o de laranja, o de menta, o de não sei o que lá... e tinha o Viagra - o monge oferecendo o licor Viagra pra galera. Experimentei o dito cujo. Graduação alcoólica: 90º. Imaginem uma vodka. Agora Imaginem algo que tem mais do que o dobro de álcool que uma vodka. Difícil né? Também acho difícil de imaginar que eu consegui beber. E para os que não acreditam, comprei uma garrafinha que neste momento já deve estar no armário das bebidas, no meu ap do Brasil. Pedi para minha mãe levar. Quando eu voltar, quem quiser pode tentar experimentar o Viagra dos monges.
E ainda fizemos mais um passeio opcional à Pisa, que também incluía um almoço em uma vinícola nos planaltos da Toscana. E mais coisa boa... Comi por lá a melhor massa da minha vida. Mas dessa vez vou deixar os detalhes para trás. Só posso dizer uma coisa: mamma mia! Quanto à Pisa, além da torre que é muito bonita e realmente muito torta, existe uma igreja e um batistério belíssimos. Na verdade a torre foi construida para ser o campanário desta igreja, ou seja, para apenas suportar os sinos.
Deixamos Florença e a Toscana na manhã seguinte. Era um domingo e por conseguinte uma nova semana. Outra semana, outro e-mail. Mereço descanso, são 4:41 da manhã. Merece também um prêmio quem conseguiu ler isto até o final. Mas por enquanto a única coisa que posso oferecer é um abraço virtual! Com muita saudade,


Thomas

9 de fevereiro de 2009

25.ª SEMANA: Tour de France

Então dia 5 de janeiro pela manhã retiramos nosso carrinho da locadora, o qual já estava previamente reservado, e pegamos a estrada, numa coisa meio Easy Rider ou algo assim. O Lelo se separou de nós na ocasião, então a parte countryside da nossa viagem pela França foi feita com a companhia do André e do Marcus. Pegamos o carro - um Pegeot Partner, muito parecido com o Renault Kangoo - e tínhamos Nice como destino final, em plena Côte d´Azur. Mas no mais era isso, entre Paris (norte) e Nice (sul) tínhamos, simplesmente, a França. E assim fomos.
Primeira parada, uma cidade chamada Chartres. Aquele tipo de cidade meio cinematográfica, bem interior europeu mesmo, pequenina, top of the hill... E muitas cidades assim ainda passariam por mim nesse um mês de viagem. Lá ficamos apenas algumas horas, que foram suficientes para, além de passar muito frio, conhecer a belíssima Catedral de Chartres, dita uma das mais belas igrejas góticas de toda Europa.
Paramos em um Carrefour e compramos o que viria a ser nossa sobrevivência durante os dias posteriores. Fácil, pois tínhamos o carro de armazém.
Rumamos então para Blois, uma pequena cidade no Vale do Loire. Dormimos num hotelzinho bem caseiro, muito honesto, tipo uma pousada de Gramado. No outro dia fomos a dois castelos do Vale do Loire. Loire é o nome de um rio, e confesso que não sei por que, existem muitos castelos ao longo do vale do rio Loire. Ao todo são 39 castelos. Como nós não tínhamos saco e nem tempo pra ver todos, escolhemos só dois. E ao que me consta, escolhemos os ditos mais belos: Chambord e Chenonceau. Realmente belíssimos; pena que o dia estava nublado, então não pudemos tirar fotos tão boas assim. Se alguém quiser ter idéia melhor dos castelos, sua história e tal, os sites são
www.chenonceau.com e www.chambord.org.

Pelos castelos do Vale do Loire


Deixamos a região do Vale do Loire e rumamos a Lyon. Chegamos em Lyon quase meia-noite e conseguimos descobrir um albergue. Mapa na mão, o faro indicava que era em cima de um morro. E pelo mapa que tínhamos só uma rua levava ao tal hostel. Só que na real o mapa indicava que era uma rua só para pedestres e tal, ou uma escada, alguma coisa assim. Let's find out! Chegamos lá e era uma escada mesmo. Não uma escada normal, mas com degraus espaçados e baixinhos - para os porto-alegrenses, algo como aquela escadaria ao lado da Igreja Nossa Senhora da Conceição. O que fazer então? Subir a escada de carro. E assim o fizemos. E no final da ladeira ainda tinha uma curvinha 180 graus, que fez com que toda perícia do André, que estava na direção naquele momento, fosse posta a prova. Tá certo que ele contou com a ajudinha do Marcus, que prontamente saiu do carro e deu uma de flanelinha profissional. Eu, confortavelmente sentado no banco de trás, apenas observei e ri de tudo. Depois de inúmeras rés e primeiras engatadas, cheiro de embreagem queimada e de ter ficado com uma roda no ar, vencemos a curva. Do contrário teriamos voltado pra Londres. No outro dia descobrimos que tinha uma rua bem mais fácil de subir, que dava na frente do hostel. Só que no meu mapa ela aparecia como contramão para subir. Melhor, otherwise teria sido muito fácil.
Lyon é uma cidade belíssima, ficamos um dia e duas noites lá. Era sábado e foi muito legal ver a galera da cidade mesmo passeando na Rua da Praia deles. Foi aquele tipo de lugar que fomos sem saber nada, nunca ter lido nada a respeito, e acabamos nos impressionando bastante. Well done.

Ponte em Lyon


Então no domingo, ainda de madrugada, deixamos Lyon em direção a Nice. Mas neste trecho resolvemos pegar umas estradinhas menores, pois a paisagem prometia. Estávamos prestes a conhecer a famosa Provence! E então seguimos as placas para Gorges du Verdon. E de repente chegamos lá. Gorges du Verdon até onde eu saiba é o nome de um rio, e esse rio corre no vale de um cânion; aquelas paisagens espetaculares, superb! E então, para subir, descer e andar pelo cânion, pegamos uma estrada muito, mas muito sinuosa. No fim de tudo, quando os caras não conseguiram vencer as montanhas, fizeram uma ponte fantástica, em concreto armado. E só nós lá. Aquela natureza maravilhosa; ninguém passava naquela estradinha e naquela ponte. Então Marcus e eu resolvemos não usar o toilette; por supuesto o próximo seria a algumas dezenas de quilômetros.

Gorges du Verdon, Provence


Fomos cada vez mais nos aproximando do Mediterrâneo, mas antes de Nice ainda demos uma paradinha num vilarejo medieval chamado Saint-Paul de Vence. Lindo!
E, finalmente, chegamos em Nice. No dia posterior acordamos e fomos a Mônaco, que é simplesmente demais! Pegamos um dia belíssimo, aquele Mediterrâneo maravilhoso, e Mônaco, que por si só já é inexplicável, como gosta de dizer o Chico. Mônaco é a cidade mais bem cuidada que eu já fui na vida, tudo é perfeito. Existem vários pequenos parques por vários locais da cidade, e eles são realmente muito bonitos. É óbvio que, estando em Mônaco, e de carro, não podíamos deixar uma coisa passar em branco. E então, um por um, fizemos o circuito completo da Fórmula 1. Muito bala! Depois estacionamos o nosso carro na Marina de Mônaco, quase ao lado de uma Ferrari e um que outro Porsche, e fomos passear pela cidade.
À tardinha fomos curtir o pôr-do-sol em Cannes, que perto de Nice e Mônaco não tem muita graça.

Monte Carlo, Mônaco


No outro dia, já 10 de janeiro, fizemos o check out no hostel e entregamos o carro na locadora de manhã bem cedo, conforme acerto prévio. Como tínhamos que pegar o trem somente à noite, ficamos rateando em Nice o dia inteiro, o que de jeito algum é má idéia. E então tive um dos dias mais especiais de todo esse mês viajando. Depois de caminharmos pela cidade, some stroll em Vieux-Nice - a parte antiga de Nice -, passamos o resto do dia na praia. E foi fenomenal... Pois além de termos tido um dia pra descansar um pouco, afinal viajar é muito bom mas fisicamente bem cansativo, pudemos simplesmente tirar o dia pra jogar conversa fora. E então ficamos curtindo a vida num jeito Riviera Francesa de ser.

Curtindo a Riviera Francesa


Mas então a noite caiu e eu precisava tomar o trem pra Marselha e os guris iam para Veneza. Então me separei deles e meu trem rumou a oeste, Marselha, onde eu encontraria o grande Notorius, Notorius Renato – aquele mesmo que havia passado o Natal conosco em Londres. Por Marselha fiquei duas noites e quase dois dias, uma cidade bem diferente das outras. Um pouco estranha por não ter uma arquitetura característica como a maioria das cidades européias tem. Não sei por que me recordou Porto Alegre, e o Renato, morador da cidade há muito, confessou-me ter a mesma impressão.

Porto de Marselha


Em Marselha tive a oportunidade de conhecer um dos locais mais bonitos que já estive na minha vida. Um local que se chama calanques e é um pouco difícil de explicar com palavras. Então acho melhor que vocês olhem as fotos para ter uma idéia - criei um álbum chamado "Tour de France" no meu fotolog com muitas fotos da nossa viagem pelo interior da França. Na verdade este local não é na cidade de Marselha. Para ir para lá, primeiro peguei um ônibus que ia para um campus de uma universidade. Depois de mais de meia hora de ônibus parecia que eu tinha chegado ao Campus do Vale. E depois ainda tive que caminhar mais ou menos por uma hora por uma trilha até chegar ao destino final. Isso era umas 8 da manhã, e fui sozinho. Nessa uma hora que caminhei por essa trilha cercada de montanhas ainda intocadas, se 5 pessoas passaram por mim foi muito. Cheguei lá e era como se fosse só pra mim, um silêncio, uma paz. Muito bala. Não dava pra ouvir nem as ondas... não havia ondas.

As Calanques e Notórius, Notórius Renato


Então dormi na residência do Renato, último vinho francês, último bon jour, e já era 12 de janeiro - uma semana depois de ter deixado Paris. Peguei o trem para Milão e assim acabava minha trip pela França. Acabava também a parte da viagem com os amigos, e um elemento novo em minha vida européia estava por vir: a família! E quanto eu tinha esperado por aquele momento... Mas aí já era outra semana, e se eu esperei tanto por isso, vocês podem esperar um pouquinho também. Um grande abraço, com saudade,

Thomas