E estou eu aqui mais uma vez na frente dessa fubica - como diria minha mãe, por sinal não faço a mínima idéia do que seja uma "fubica"... - que é esse computador aqui de casa. Mas acho que não devo reclamar dele, afinal sei que é um luxo ter um computador em casa (pelo menos para casa onde moram estudantes brasileiros em Londres). Então nada de reclamar.
Hoje fez um dia muito bonito e deu pra sair de camiseta tranqüilamente. Talvez um último aceno do verão, antes de deixar o frio chegar de vez. Hoje, segunda, como vocês já sabem, é meu dia de folga, então milagrosamente são 10 da noite e estou em casa. Isso não acontece há muito tempo, pois mesmo nos meus dias de folga eu costumo chegar tarde em casa, sempre aproveito pra dar uma passeada em algum lugar, às vezes vamos pra noite, sei lá. O Marcus e o Lelo por exemplo agora estão no Walkabout, que é um pub. O André está trabalhando no bar, e eu achei melhor vir pra casa e fazer algumas coisas mais importantes, como escrever o meu folhetim e pesquisar algumas coisas importantes na Internet. Por falar em "trabalho no bar", agora finalmente estamos todos trabalhando em lugares fixos. O Chico e o Biri já faz um tempo que estão de rider como eu. O Marcus e o Lelo, como falei semana passada, também aderiram à classe. E o André conseguiu pegar a vaga do Lelo no bar e agora está oficial e "fixamente" empregado. Legal isso, finalmente todos estáveis - monetariamente é claro, já que estabilidade psicológica alguns não alcançaram ainda... volta e meia cria-se um divã, quase sempre em plena cozinha, e cada um expõe suas aflições e devaneios para o ouvido alheio mais próximo.
Aos poucos está dando mais tempo (e dinheiro) para curtir as coisas da cidade. Mas não só lugares como museus, pontos turísticos e afins. Tipo, essas coisas óbvias obviamente serão vistas e revistas, mas acho importante tragar ao máximo as coisas que Londres oferece em termos de agenda cultural, como shows, eventos, palestras, e tudo mais que existe aqui. E acreditem, rola muita coisa legal nessa cidade. E não só aqui né. Qualquer grande cidade tem muito a oferecer. Eu pelo menos sempre tentei participar das coisas legais que rolam em Porto Alegre - o que não quer dizer que sempre consegui -, e fui a coisas muito legais, de todos os gêneros. E não é de hoje que pego no pé das pessoas sobre isso. Nunca é tarde pra começar a fazer umas coisas um pouco diferentes. E então nas últimas semanas, dentro do possível - horários e dinheiro -, eu tenho tentado fazer isso. Aqui existe uma grande facilidade, que é uma revista chamada "Time Out", um semanário com toda a agenda cultural; muito, muito completo! Algo que com certeza deve existir em toda grande cidade do mundo. E então na semana passada, por exemplo, fui num concerto especial sobre música barroca na St. Martin in The Fields, uma Igreja que fica em frente a Trafalgar Square - principal praça de Londres -, e que tem uma intensa agenda cultural. O concerto que fui faz parte de uma série de concertos que acontece toda semana e que se chama "Candlelights" (candelabro). Algo como uma pequena orquestra de cordas, acompanhado de um óbvio e chato cravo, tocando clássicos de Bach, Mozart, Vivaldi e outros, em uma igreja que deve ter mais de um par de séculos, tudo isso à luz de velas! Um espetáculo! De repente me dei conta de onde estava e o que estava fazendo e me arrepiei. Ouvir um majestoso Vivaldi em meio a silhuetas de colunas neoclássicas iluminadas a velas... Fantástico! Tipo, pode parecer estranho um cara de 21 já estar nessa de música clássica, mas acho que todos sabem que se eu pudesse eu respiraria música... E de mais a mais, muito ia a concertos em Porto Alegre - só pra não parecer que apenas porque vim pra Europa estou querendo dar uma de intelectual; sem essa né...


Eu em Russel Square Tube Station
Na terça-feira fomos à Abadia de Westminster e na quarta fomos ao Parlamento. Os dois muito legais! Tipo, eu não sei qual é o significado da palavra "abadia" (se é a mesma coisa que igreja ou se tem alguma diferença), o fato é que a tal da Abadia é praticamente um cemitério. É um prédio enorme que foi inaugurado em 1066! Claro que depois disso sofreu inúmeras mudanças e intervenções arquitetônicas. Mas o mais interessante é que conforme os reis e rainhas e princesas e príncipes iam morrendo, eles iam sendo enterrados ali. E aos poucos foram empilhando jazigos e mais jazigos e hoje a famosa Abadia de Westminster deve ser com certeza um dos cemitérios mais bonitos do mundo. Parece piada isso que eu estou falando mas não é.
No outro dia fomos ao Parlamento; além da arquitetura impecável, pelo menos eu estava num lugar no qual quem manda pelo menos são pessoas eleitas pelo povo, e não quem já nasceu com a espada na mão e a coroa na cabeça. É que aqui tem essa história de monarquia e tal e os caras daqui (os ingleses de uma maneira geral) reverenciam muito isso. Claro que hoje em dia a rainha não manda mais em nada - nem nos netinhos dela acho que ela não apita mais -, mas durante séculos obviamente não foi assim. Rei era rei e fim de papo: nascia assim e assim continuava; mandava e tava feito. Então, aqui nos prédios do governo é uma “melação só" pros reis e rainhas, quadros e mais quadros e estátuas e mais estátuas... Mas pelo menos lá no parlamento era um pouquinho diferente. Bem pouquinho na verdade, pois também era cheio de pinturas e estátuas da realeza. Mas lá pelas tantas tinha umas estátuas de um que outro primeiro-ministro. Tipo, o único que eu conhecia era o Churchill, mas acho que um primeiro ministro eleito democraticamente vale mais do que um imperador eleito saguinariamente.

Eu, andré, Marcus e Lelo no Parlamento
Daí eu descobri - pela Time Out - que na quarta-feira ia ter uma palestra entitulada "Projetando a London Eye". E daí o meio-engenheirosinho de plantão obviamente adorou a idéia. Era num lugar chamado "Instituto de Física" e eu mostrei pro André; ambos achamos que o negócio ia ser quente, então depois da aula nos mandamos pra lá. E foi mesmo! Muito interessante! A paletra era do cara que projetou a London Eye - a maior roda-gigante do mundo, 135m de diâmetro, quem quiser saber do que se trata, o site é www.ba-londoneye.com. Ele deu uma palestra de uma hora na medida certa: sem aprofundar muito, mas também não para leigos, de modo que conseguimos entender tudo! Claro que aí não posso deixar de fazer referência aos meus mestres da faculdade, em especial aos professores Segóvia, Masuero e Luiz Carlos (Bis). Não querendo puxar o saco é claro, eles sabem o quanto os considero. Voltando: na plateia só velhinhos – supostamente membros do Instituto - e uma meia dúzia de estudantes como nós. Muito bom mesmo, considerações sucintas sobre todas as partes do projeto. Mais ainda porque, no final, ainda filamos um rango po lá - êta gaudério grosso esse tchê! Camarãozinho à milanesa, franguinho empanado e vinho branco. Uhuuuu, o ouro!
E então no sábado o que eu fiz? Realizei um grande sonho: fui ao Royal Albert Hall, o teatro mais grandioso e provavelmente o mais bonito de Londres. É o local onde foi gravado aquele show "Music for Montserrat" - o pessoal da turma do colégio sabe do que estou falando. Eu tinha muita vontade de ir a um show lá e então consegui unir o agradável ao mais agradável ainda. Fomos o André, Dany, Lelo e eu, assistir às "Quatro Estações" de Vivaldi no sábado à noite. Wonderful! O Teatro é enorme e belíssimo e o Vivaldi era mesmo O Cara! Arrepiante! Os músicos estavam todos vestidos a la Sgt. Peppers e com perucas. E como eu e o Lelo estávamos trabalhando no sábado à tarde, fomos de bicicleta para lá (na chuva!), estacionamos nossas bicicletas mais ou menos como os outros expectadores estacionavam suas Mercedez, e assim adentramos ao teatro, que é o rei dos teatros de Londres. Entramos vestidos de rider mesmo e molhados com um misto de suor e água da chuva. E muito felizes! Logo que acabou o teatro saímos correndo, mais felizes ainda, pegamos nossas bikes e demos carona para o pessoal que saia do teatro. E então levei um casal para estação de metrô mais próxima conversando a respeito do show! Quase que eu disse pra eles: "Rider também é cultura". O concerto foi quase free, pois a corrida de depois quase pagou o ingresso do espetáculo, que era bem barato se comparado a padrões culturais brasileiros. Mas depois trabalhei até às 5 da manhã para recuperar o dinheiro que eu não tinha ganho no tempo em que estava no teatro. Só prazer não adianta né. Como alguém já disse: "trabalho enobrece". Se enobrece não sei, mas pelo menos paga o teatro.

Rickshaw do Lelo estacionada ao lado do teatro
E agora a última da semana. Sei que este e-mail tá comprido, mas é que a semana foi larga mesmo. No domingo eu e o André nos mandamos pra Greenwich, que é um bairro na beira do Tâmisa, no lado leste da cidade - antigamente era como se fosse a porta de entrada do lado oriental da cidade. E lá existe um morro, o que aqui é algo quase ímpar, pois a cidade é super plana. Em cima deste morro está o antigo Observatório Astronômico Real. E então em 1884, segundo um acordo internacional, o horário de Greenwich tornou-se a base de medida do tempo para o resto do mundo. Eu não entendo nada de história, mas provavelmente a Inglaterra daquele tempo era os Estados Unidos de hoje. Se esse acordo fosse hoje a base de medida provavelmente seria a Casa Branca, mais precisamente a cadeira daquele bundão do Bush.
Estava anoitecendo e estávamos, André e eu, já quase descendo o morro (o observatório fica no cume desse morro) quando de repente, do nada, um laser verde cruza o céu! Impressionante! O feixe de laser saía (ou chegava) num ponto do prédio do observatório e ia para um lugar no horizonte, tão distante que não dava pra descobrir da onde. Estávamos nós diante da linha – meridiano - que divide a terra em leste e oeste. Era uma coisa que eu sempre tive vontade de conhecer, desde a época do colégio, lá pela oitava série, quando se aprende pela primeira vez nas aulas de geografia.
E então era isso! Desculpem as palavras que sobraram. Um grande abraço, com muita saudade,
Thomas