Longe de Casa é um convite para você sentar-se confortavelmente na cabine de uma bicicleta-táxi e se deixar levar pelas ruas de Londres e da Europa. Dando o rumo dessa aventura, um estudante brasileiro de 21 anos que resolve dar um tempo de sua rotina em Porto Alegre e, junto com alguns colegas de faculdade, abrir a cabeça para novas experiências de vida no Velho Mundo. Se você procura um guia de viagens sobre a Europa e Londres, talvez este blog possa lhe ser um bom thriller de aventura. Para quem quer divertidos contos, de repente se depare com boas indicações musicais. E se você é um jovem que também pensa em passar por uma experiência em algum lugar no exterior, o que você encontrará aqui não apenas lhe fará rir ou trará boas dicas turísticas, sobre bandas e cantores: além de informação e entretenimento, os posts deste site aos poucos tentarão lhe mostrar uma outra maneira de enxergar as coisas. A maneira como alguém de 21 anos encara a vida longe de casa: aprendendo sempre.

23 de agosto de 2008

4.ª SEMANA: A Surpresa com Camdem Town

Caros amigos e familiares:


Começo eu a escrever, aqui no computador de casa, sobre a minha quarta semana em Londres. Agora o domingo já se foi e são quase uma da madrugada de segunda-feira. Não sei quando vou mandar isso pra vcs, pois aqui em casa ainda não tem Internet. A mulher diz que já assinou o negócio, que é só chegar a caixinha com o CD de instalação pelo correio... Mas na real acho que tá enrolando mesmo. Já faz 3 semanas e meia que estamos aqui e quando chegamos ela disse que em 5 dias ia ter Internet... Uma ova! Mas tudo bem, não é por isso que eu vou me estressar também...


Big Ben, Marcus, André e eu

Dia histórico: o Lelo junta-se a nós


Momentos da rotina caseira: muita parceria e violão


Essa semana foi também muito legal, assim como as outras. Claro que aos poucos a vida aqui vai tomando forma, e o lado "turista" dos primeiros dias aos poucos vai dando lugar pro lado "morador de Londres"... Mas não que isso seja ruim, muito pelo contrário! E também esse lado turista sempre tem que estar presente. Hoje por exemplo, tiramos o dia para fazer uma caminhada pelo Regent's Canal, que é um canal bem escondido que existe no meio da cidade e beira o Regent's Park, acabando em Camden Town (um bairro da cidade). O fim da caminhada deu-se em Camden Market, que é uma feira muito, mas muito louca que existe aqui em Londres. Alguns de vocês (o pessoal que conhece o Chico) provavelmente leram o e-mail que ele mandou contando sobre este bairro. Pois é, as coisas que tinham lá eram muito legais mesmo! Tipo, tinha de tudo pra vender, tudo mesmo... Nem vou tentar listar porque era tanta coisa que só estando lá pra entender. E coisa nova, usada, roupas, móveis, tambores, incensos, instrumentos... Ih, a lista é grande mesmo. Tinha uma loja bem grande muito louca, com uma decoração futurista e umas roupas malucas mesmo, chamada Cyberdog; quem vier pra cá não pode deixar de conhecer! Ah, e tinha um monte de barraquinhas com comidas de tudo que é lugar do mundo. Uma pena que não tinha nenhuma de churrasco... Esses brasileiros que vêm pra cá (e são muitos!) não sabem ser empreendedores. Tipo, aqui tem muito indiano, acho que nessa cidade, se somarmos os árabes e os indianos dá quase a quantidade de ingleses... E esses indianos daqui vieram não sei quando pra cá e fizeram muita grana. Claro que não todos, mas é muito normal ver os caras em BMWs e Mercedes que mesmo aqui são caríssimas. Já os brasileiros são todos pé rapados mesmo. Mesmo os que estão aqui há anos, não conheci nenhum ainda que tenha grana mesmo... Pois é, vai ver que tá aí o mapa do tesouro: abrir uma barraquinha de churrasquinho em Camden Market.. O que vocês acham: Little Cat Barbacue by Camden! Ou então: O Gato de Camdem! Só que aqui carne no supermercado é muito cara, e não tem gato na cidade. O esquema seria assar as pombas mesmo.
Daí eu ia dizendo que nessa feira tinha comida de tudo que é lugar do mundo... E tinha um amigo nosso que estava conosco e já tinha ido lá outra vez, e nos avisou: "Então (paulistanês), o canal mesmo é esperar até as seis, porque daí os caras não têm o que fazer com a comida e vendem tudo por 1 pound!" Daí obviamente nós, que estávamos em cinco - brasileiros chinelões -, esperamos até às cinco para comer. Eu acabei comendo antes, pois encontramos uns donuts muito bons e baratos lá, de um tio de uma barraquinha que começou a fazer a liquidação antes das cinco... Ele ficava berrando: "Three per pound, three per pound!" Era muito engraçado! Daí a barraquinha do tio encheu de gente para comprar os donuts e nós fomos também... Mas os guris não se contentaram e um pouco antes das seis foram lá e compraram também umas comidas de uma barraquinha japonesa; disseram que tava tri bom. E nessas nós já estávamos bem cansados, pois estávamos desde às 13:30 caminhando... Mas nada de parar! Aproveitamos que fazia um dia lindo e o pôr-do-sol se aproximava e fomos lá para a Tower Bridge, aquela ponte mais famosa de Londres que todos vcs já devem ter visto em fotos. E demos uma dentro, pois chegamos lá e o sol tava se pondo bem ao longo Tâmisa, como imaginávamos que ia acontecer... Compramos umas cervejas e ficamos lá ao lado da ponte jogando conversa fora... E assim acabou nossa semana.

Gabriel ,Marcus, eu, Lelo e André em Camdem


Clássica foto do André na Tower Bridge


Semana que foi muto legal! Na quinta era aniversário do Marcus e daí marcamos com a galera e fomos num PUB chamado The Slug and Lettuce. Mas esse PUB era com música e pista, tipo noite mesmo. É que aqui os PUBs normais até tem uma musiquinha de fundo tocando, mas não tem pista de dança e são só bares mesmo. As 23h param de vender bebida e mandam os clientes embora. E alguns tem permissão para funcionar até mais tarde, como esse que fomos. Mas também não passou muito... Um pouco depois da meia-noite as luzes se acenderam e a balada acabou... Mas isso não é ruim, muito pelo contrário. Tipo, aqui se você quer ir pra balada dia de semana é muito melhor, pois começa bem antes e acaba antes também. Daí tipo uma da madrugada dá pra chegar em casa e ir trabalhar ou estudar no outro dia. Muito mais lógico do que aí no Brasil, onde as pessoas jantam pelas 8 ou nove da noite e tem que ficar fazendo tempo até a meia-noite pra sair de casa e ir pra noite. Mas é claro que aqui tem lugares que a noite segue até mais tarde... E obviamente tem as raves, que sei lá que horas acabam, ainda não fui a nenhuma.


Aniversário Marcus no The Slug and Lettuce

Mas então eu ia dizendo que na quinta comemoramos o aniversário do Marcus neste PUB e estava bem legal! Tirando um problema que tivemos na entrada. Tipo, alguns amigos nossos chegaram mais cedo e entraram no lugar. Daí quando chegamos o lugar já estava muuuito cheio e o cara não queria nos deixar entrar! Tipo, as nossas amigas que estavam conosco na fila entraram na nossa frente e quando chegou nossa vez o cara disse "Only regular costumers" (somente clientes assíduos) e não queria nos deixar entrar. Deixava um monte de gente entrar e só não deixava nós. E olha que nós até que não estávamos mal vestidos, estávamos como todos os outros. Bah, comecei a ficar brabo e cheguei a procurar algum policial, mas não encontrei... No fim entramos com umas brasileiras que nem conhecíamos, fingindo ser seus namorados. Daí o cara deixou.
Quanto ao trabalho, esta semana só trabalhei 3 dias, pois não tinha bicicleta disponível para mim. O meu chefe lá é meio enrolador... Mas pelo menos nesses 3 dias de trabalho já deu pra tirar pelo menos o valor que gasto em uma semana, então está bom. O cara - meu chefe, que de chefe não tem nada, pois é um gurizão colombiano que montou uma empresa e simplesmente aluga os rickshaws para os riders - disse que esta semana vou ter uma bike só para mim, inclusive na sexta e sábado, que são os melhores dias. Vamos ver se o cara não vai enrolar de novo...
No mais era isso! Um grande abraço para todos, com saudade,


Thomas

15 de agosto de 2008

3.ª SEMANA: Rickshaw Business

Caros amigos e familiares:

Olá! Estou escrevendo na segunda pela manhã... Aqui são 10 e pouco da manhã e aí no Brasil são 6 e pouco... Muitos de vcs devem estar acordando agora para começar mais uma semana de trabalho. Os estudantes da UFRGS, meus colegas ou não, hoje começarão mais um semestre... e assim a vida vai. E a minha aqui também vai! Acho que vou levando muito bem as coisas, por enquanto nenhum imprevisto, nada de que possa reclamar. Sei que ainda é cedo para pensar que tudo deu certo e que sempre vai dar. Mas acho que pelo menos a primeira fase (que eu acho que deve ser a mais difícil), aquela de chegar, conseguir moradia, emprego, ou seja, conseguir se adaptar a essa vida tão diferente da que eu levava no Brasil, essa eu consegui trilhar bem!
Essa semana comecei a trabalhar nas bicicletas, ou melhor, nas rickshaws! Bem legal, muito legal na verdade! Trabalhei bastante, me cansei bastante, é verdade, mas foi legal do mesmo jeito! Tipo, eu saio da aula e vou para a garagem de um hotel pegar a minha bicicleta - a garagem desse hotel é como se fosse a sede dessa empresa que eu trabalho, todas as bicicletas ficam lá. Nessa caminhada até o hotel, que é bem legal, pois passa pelo centrão de Londres (na verdade eu estudo no ponto mais central, que é picadilly Circus), eu aproveito para comer minha janta, que nada mais é do que 2 sanduíches que eu preparo com muito esmero pela manhã, antes de sair de casa. Levo também uma maçã, uma barra de cereal, alguma bolacha, um suco... Enfim, tudo que qualquer um de nós (eu e meus amigos que vieram comigo) tem comido ao longo das últimas semanas. Mas, mãe e pai, não precisam se preocupar! Estou almoçando em casa, e daí dá para fazer uma refeição mais reforçada! Então depois de ter jantado pelas ruas de Londres eu chego no hotel e pego o rickshaw. O meu trabalho se resume a ficar dando voltas até que alguém queira uma carona. E é isso! Claro que existem várias técnicas para conseguir mais clientes... Você pode ficar - na verdade não pode, é proibido, mas todos fazem - apertando numa sinetinha que tem na bicicleta para chamar a atenção das pessoas, ou então ficar falando com elas, o que eu particularmente acho mais legal... Tipo: "Lady, do you want a ride?" ou, quando vejo um turista meio perdido, aqueles que olham pro mapa procurando a rua mas não sabem nem que rua estão procurando pois não têm a mínima idéia de onde estão, daí eu solto aquela óbvia pergunta: "Sir, where do you want to go?" E assim fico durante umas 6 horas seguidas, alguns dias mais, outros menos... Obviamente tem a parte ruim do negócio. Por exemplo, no primeiro dia eu fiquei só girando e girando para descobrir os menores caminhos de um lugar a outro, pois de bicicleta é diferente do que andar a pé. Eu tenho que seguir as mãos das ruas! Por exemplo, se um cliente quer ir do Covent Garden a Charing Cross Station é um caminho, se ele quer ir de Charing Cross Station ao Covent Garden é outro caminho... Na verdade se eu fosse o cliente eu iria a pé, pois é 5 minutos de caminhada, e se ele for de carona comigo eu cobraria 3 pounds... Mas melhor para mim não é mesmo?! Outra coisa ruim do negócio é que, caso chova, o cliente até não se molha, pois tem um toldinho que protege bem os passageiros, mas o rider (no caso, eu)... Esse não tem saída. Na real até tem: ontem comprei um casaco impermeável com capuz, daí dá pra tentar enganar São Pedro... E tem outras coisas ruins também: é um trabalho meio inconstante, tem dia que ganha bem, tem dia que não, e obviamente é muito, muito cansativo! Mas mesmo assim eu gostei! Eu fico das sete até uma ou duas da madrugada dando voltas nos lugares mais legais de Londres, conhecendo e conversando com pessoas de todos os lugares do mundo... Apesar de ficar evidente que sou um mero imigrante - não só eu, como a maioria dos outros riders -, todas pessoas são super educadas, respeitam um monte...
Queria que todos vocês tivessem aqui para ver o rio Tâmisa à noite... Essa semana tive que atravessar o rio quando fui levar um casal num hotel no lado sul da cidade; muito bala o panorama da cidade à noite em cima da ponte! E a cidade fica legal à noite, pois lá pelas 10 e pouco diminui consideravelmente a quantidade de carros nas ruas, e daí fica muito legal andar... Passei algumas vezes pelo Parlamento e Abadia de Westminster à noite... muito diferente! Durante o dia é aquele monte de gente se espremendo pra ver o Big Ben, aquela confusão... De noite, pela meia-noite você passa lá e é muito mais legal, pois é só você e aqueles prédios centenários... Frente a frente...
E a minha semana foi assim, e é legal, pois agora pelo menos tenho uma rotina. As duas primeiras semanas foram muito legais, mas cada dia tínhamos que fazer uma coisa diferente, uma correria... E aquele peso de ficar procurando emprego... Nesta semana as coisas se acomodaram: agora eu vou dormir entre duas e três da madrugada, acordo pelas dez, pela uma da tarde eu almoço, arrumo as coisas e vou pra aula que começa às 3. Às seis acaba a aula, o resto eu já contei... E tudo recomeça no outro dia!
Na sexta-feira eu não trabalhei, daí levei o violão pra escola e depois da aula reunimos uma galera e fomos pro Green Park fazer uma serenata pra rainha. Não sei se ela gostou muito, mas nós adoramos! (Compramos uns vinhos no meio do caminho e ficamos lá até escurecer, como aquele outro dia no Hyde Park... saímos acho que já eram dez horas passadas. Muito legal!

Eu e Eduardo, meu colega da Malvern, na roda de violão no Green Park


No sábado estava chovendo e resolvemos ficar em casa... Primeiro dia que fizemos um programa caseiro, mas estava legal de qualquer jeito. Muita conversa fora que no fim rendeu até uma primeira música feita por estas terras. E fizemos a versão em inglês também, minha primeira música em inglês!

André, Marcus e eu em processo de composição no nosso quarto


Ontem (domingo), eu e o Marcus queríamos ir a uma loja que era do outro lado da cidade e pegamos o ônibus errado... Tipo, vimos que o ônibus ia pra Edgware, que é no centro, daí pensamos: "Feito! Pegamos esse e no centro pegamos outro para onde queremos..." Só que fomos parar lá na zona 5, no canto oposto da cidade... E era em Edgware mesmo... É que achamos que ia pra Edgware Road... Pô, como iriamos saber que tinha uma estação Edgware Road e outra Edgware...?! Mas daí pegamos o metrô e em pouco mais de meia hora estávamos na outra ponta da cidade, onde queríamos ir...
Acho que era isso... as pessoas andam dizendo que os e-mails que estou mandando são livros... acho que não é pra tanto... de repente capítulos... Aí vai o terceiro capítulo então! Um grande abraço, com saudade,
Thomas
P.S.: O site da empresa que trabalho é http://www.londonrickshaws.co.uk Quem não souber do que se trata um rickshaw, é só entrar pra ficar sabendo!

10 de agosto de 2008

2.ª SEMANA: As Coisas Começam a Se Ajeitar

Pessoal:

Escrevi um e-mail no domingo no computador lá de casa (que ainda não tem Internet) e era para ter enviado na segunda-feira. Mas não deu, entao estou enviando só agora. De lá para cá já aconteceu muita coisa, mas outra hora eu conto. Então abaixo segue... Um grande abraço!

Caros amigos e familiares:

Estou começando a escrever no domingo pela manhã. Agora são 9:45 e faz um baita sol. Esta semana teve dias lindos, com muito sol mesmo! E um calorzinho até! Deve ter feito uns 26, 27 graus em um ou outro dia. Isso para nós aí no Brasil nem é calor, mas aqui é a temperatura normal de verão eu acho. Pelo que as pessoas daqui me falaram, é difícil fazer muito mais calor que isso. Mas de qualquer forma, de manhã cedo ou durante a noite, a temperatura sempre cai e fica complicado de usar só uma camiseta durante o dia todo. O negócio é sempre ter um casaquinho junto.


Nossa casa

Esta semana foi muito legal mesmo! Apesar de passar a semana procurando emprego - e não encontrar -, fizemos muitas coisas legais! Bom, mas primeiro vou falar a respeito da procura por trabalho. Fomos a muitas agências, passamos por muitos restaurantes e hotéis perguntando por vagas (obviamente não fizemos isso juntos), mas nenhum de nós conseguiu nada. O Marcus inclusive foi na recepção de um hotel e perguntou se eles tinham vaga, ao que a moça lhe respondeu: "Sim, temos muitas disponíveis". Daí, conta ele, perguntou que tipo de vaga e qual era o valor, e ela lhe disse: "Temos quartos de 100, 120, 150 libras..."
Mas agora vem a parte legal: eu não consegui nenhum emprego mesmo (fixo ou temporário), mas consegui o esquema aquele dos rickshaws (táxis-bicicleta), que havia comentado para vocês. Não dá pra chamar de emprego eu acho, já que eu serei mais ou menos um "profissional liberal". Agora serei um rider (=caroneiro em português, ou seja, o cara que pedala a bicicleta)! Hoje de tarde será o meu treinamento e o cara disse que já posso começar depois do treinamento. O Marcus também vai entrar no esquema, e nesta primeira semana eu irei compartilhar uma bicicleta com ele. Desta maneira, hoje a bicicleta fica comigo, amanhã é a vez dele, terça comigo e assim por diante. Daí pelo menos temos um dia pra descansar as pernas. Provavelmente vou ficar uns dois ou três dias com as pernas doloridas, já que faz tempo que não pedalo, muito menos numa bicicleta que já deve ser pesada por si só, ainda mais com duas ou três pessoas na carona... E isso durante umas seis horas seguidas! Mas aos poucos as pernas vão se acostumar! Não pretendo fazer isso durante muito tempo, porque no mês que vem ou no outro já começa a fazer frio, e daí pra mim - tenho bronquite asmática - vai ficar complicado. Mas se eu pedalar pelo menos durante um mês acho que já dá pra tirar um bom dinheirinho. E além do mais, as agências nem estão recolhendo currículos porque estão saturadas... É que no verão europeu muito imigrantes - da Europa mesmo, Polônia e outros lugares - vêm pra cá pra fazer algum tipo de trabalho e lucrar um pouquinho. E essas pessoas, por terem passaporte europeu e saberem mais inglês que os brasileiros, acabam pegando muitas das vagas que existem. Pelo menos isso é o que todos brasileiros aqui nos dizem. Mas dizem também que em setembro as coisas melhoram, pois os caras voltam pra seus países e as agências começam a recrutar novamente. Espero que isso não seja lenda! E tem o esquema dos atentados também, as pessoas que moram aqui me disseram que a cidade está muito mais vazia que o normal. E menos turistas significa menos trabalho para nós, imigrantes.
E então neste primeiro mês vou ser rider e com o passar do tempo vou saber se vale a pena ou nâo. A única coisa de ruim que pode acontecer é que eu acabe trocando figurinha... deixa eu tentar explicar: é que para usar a bicicleta eu pagarei tipo de um aluguel pro dono das bicicletas. Daí tudo que eu ganhar na rua fica pra mim. E então, obviamente, tenho que ganhar pra cobrir o preço do aluguel da bicicleta e ainda sobrar pro lucro. Por isso que disse que em úlimo caso (se eu ganhar pouco) vou trocar figurinhas...
Mas apesar da procura por emprego, a semana foi legal. Olha, e também nem acho essa coisa de ficar procurando emprego tão chata. Acho que faz parte de tudo né! Não teria muita graça chegar aqui e conseguir uma coisa assim na barbada. Essa coisa de batalhar e batalhar é que no final traz mais felicidade, I think. E por falar no inglês, essa semana começaram as aulas. Quanto a isso algumas coisas legais, outras nem tanto. Tipo, a escola tem muitos, mas mutos brasileiros! Isso é ruim porque querendo ou não tu acaba falando um pouco de português nas aulas e no recreio (o recreio, por sinal, dá para passar em Picadilly Circus, o ouro!)... Por outro lado é muito legal porque já fizemos muitas amizades, os brasileiros meus colegas são legais mesmo! Tudo gente fina. Daí tem mais uns colombianos e uma coreana na turma. O professor é muito bom, explica muito bem e é bem atencioso. Quanto ao método, por enquanto não gostei muito, pois é pura conversação, por enquanto nada de escrever. Mas o André, que está um nível a mais que eu, disse que ele tem que escrever um monte e tal... Então fico mais tranqüilo. E várias pessoas já me disseram que conforme se avança nos níveis, a quantidade de brasileiros já diminui. O André tem só 3 colegas brasileiros parece, vai ver que o problema é o meu nível mesmo. Essa semana aprendemos a contar (one, two, three) e o tal de verbo to be... heheheh Brincadeirinha...

Marcus, André e eu em Trafalgar Square

Na quarta depois da aula nos encontramos em Trafalgar Square com o Chico e o Biri - dois caras que vieram do Brasil com a gente mas não moram conosco - depois da aula e fomos até um jardim que tem atrás da London Eye. Compramos umas cervejas pelo caminho e ficamos lá até tarde jogando conversa fora; um grande pôr-do-sol em um grande lugar...
Na sexta depois da aula nos encontramos com o Mário e o Luis, dois colegas da faculdade que estavam há um ano aqui e voltaram no sábado para o Brasil, e fomos a um PUB perto da escola. Tava muito tri! Ficamos até o lugar fechar - aqui às 11 da noite os PUBs param de vender cerveja, acendem as luzes e aos pucos começam a mandar os clientes embora. Muito legal ouvir todas histórias dos caras, que ficaram um ano aqui... Passaram por umas brabas, mas aos poucos foram crescendo e no fim conseguiram alcançar todos os seus objetivos!
E ontem (sábado) fizemos um encontro com os colegas brasileiros no Hyde Park. Uma grande roda de violão com piquenique e tudo. Cada um levou algo e fizemos uma coisa que os ingleses fazem bastante: levam comidas e bebidas para os parques, fazem uma roda de amigos e ficam lá por horas e horas... Mais ou menos o que nós aí no Brasil fazemos nas praias... aqui eles fazem nos parques também... E tava muito legal mesmo! Ficamos das 16:30 até as 21:30 tocando, cantando, bebendo, comendo... Só saímos quando começou a esfriar e ficar muito escuro (não conseguíamos mais enxergar nossas coisas direito). Depois viemos pra casa e fizemos uns bifes de porco que tínhamos comprado esta semana. Até que tava bom. Aqui carne é um artigo de luxo, pelo menos para nós (por enquanto). É uma pena que eu não possa enviar as fotos ainda... Já tirei umas fotos muito legais, as de ontem ficaram muito tri!

Cláudia e eu na roda violão no Hide Park

Mas acho que era isso. Valeu pelos e-mails que recebi durante a semana de muitos de vocês! Desculpem não poder responder particularmente a todos, pois, como ainda não temos acesso à Internet aqui em casa, tenho que pagar muito caro pra acessar na rua. Mas nem por isso deixem de mandar notícias! Eu sempre leio os e-mails de todos, o problema é responder, já que é bem mais demorado.
Agora vou lá pro centro da cidade ficar andando e andando com mapa na mão pra tentar aprender um pouco mais sobre as ruas e onde ficam os lugares (hotéis, teatros..). Afinal taxista que se preze tem que saber levar os clientes onde eles querem. E como já começarei hoje pela noite a trabalhar, tenho que me mexer pra aprender o máximo possível! Um grande abraço a todos, com saudade,


Thomas

1 de agosto de 2008

1.ª SEMANA: E a Aventura Começa

André, eu e Marcus no aeroporto em Porto Alegre: a primeira foto da nossa jornada.

Bom, então aqui estou, em Londres!! E estou bem, acho que é o mais importante. Pra começar, estou enviando este e-mail para muita gente, e acho que algumas nem sabem que eu iria viajar, quanto menos que eu já viajei! Então, aos que não sabiam: vim para Londres com mais 3 amigos da faculdade e ficarei aqui provavelmente durante um ano... vim estudar inglês, conhecer novas coisas, diferentes pessoas, culturas, enfim... tudo que muitas pessoas da minha idade tem feito e fazem há muitos anos. Acho que essa situação do Brasil também contribui para que as pessoas tomem destinos diferentes. Além dessa política de merda, que insiste em ano após ano nos envergonhar cada vez mais, tem o grande problema da violência, que, ao meu ver, é o maior de todos. Talvez eu ache que seja o maior, pois afeta diretamente a cada um de nós (brasileiros). E estando aqui não há como não fazer comparações... A sensação de poder sair a pé à noite e andar, andar, sem precisar ficar olhando o tempo inteiro para os lados com receio de que a qualquer momento alguém te aborde, como acontece no Brasil; poder andar o dia inteiro com câmera fotográfica e discman à vista; ver pessoas usando notebooks no meio de uma praça... é muito diferente...
Mas chega de ficar discutindo sobre o Brasil. Antes de começar a contar sobre essa primeira semana aqui em Londres, gostaria de dizer que os meus últimos dias aí no Brasil foram muito especiais! As várias festas, jantas, almoços e encontros de despedida foram muito legais! Não vou fazer aqui referência a ninguém em especial, pois as próprias pessoas (família e amigos) que estiveram presentes nestes dias sabem disso!! Valeu mesmo por todo carinho, cada abraço e palavras... eu não esperava tanto...
E sobre a minha vida aqui!? Chegamos na segunda-feira pelas nove da manhã... Até passar pela imigração e pegar os ônibus, metrôs e a caminhada até o albergue, chegamos lá já era meio-dia passado... E olha... fazer todo esse trajeto com uma mala de 33 Kg, violão e mochila de uns 8 Kg não foi fácil... e depois caminhamos uns 20 minutos até chegar no albergue... Pra acabar com chave de ouro, ficamos no 4.º andar do albergue... escadas! Escadas grandes, degraus pequenos e a mala!

Do aeroporto ao albergue: o primeiro tube
Chegando no albergue: a escada e a mala

A nossa primeira preocupação era logo sair do albergue, pois estávamos pagando muito caro lá! Então na terça olhamos 7 casas ao total! Na verdade, para quem não sabe, os imigrantes (como nós) aqui normalmente alugam quartos em casas que moram pessoas de vários lugares do mundo. Então, quando falo que olhamos 7 casas, na verdade olhamos apenas um quarto de cada uma, a cozinha e o banheiro. Algumas tinham sala, outras a sala foi transformada em quarto. Mas o que interessa é que escolhemos uma! Bem boa até! E é daqui que estou escrevendo agora. A casa tem computador, mas está temporariamente sem internet. Desta maneira, quando acabar de escrever, vou lá no Cyber café - que não tem nada de café, só de Cyber - para mandar para vcs. A casa é grande, não sei quantos quartos tem, pois como o nosso quarto é no térreo, nunca estive no segundo andar da casa, mas acho que tem 5 quartos. Tem uma sala bem espaçosa que tem dois sofás de couro e televisão, uma outra sala de jantar, uma cozinha grande com máquinas de lavar roupa, secar e lava-louças. Não tem microondas, mas tem um fogão bem bom e um forno bonzinho também. Só que tem poucas panelas, pra cozinhar tem que fazer um pouco de malabarismo. Além de nós três, que estamos morando num quarto, dentro do qual não conseguimos transitar muito bem, dado que há apenas UM e pequeno (!) guarda-roupa, o que faz com que tenhamos que deixar muitas coisas dentro das malas... e cada um dos DOIS “malas” dos meus amigos tem DUAS malas... daí já imaginam como é né!? Bom, eu ia dizendo que além de nós 3, moram na casa mais um casal de brasileiros, um outro brasileiro, 2 caras da República Tcheca e um casal de italianos... E parece que está pra chegar mais gente. Bom, como vocês podem ver, a casa é grande, mas tem bastante gente também... O maior problema da casa são os tchecos, que são muito porcos! Lavam os copos com a mão e sem sabão... panelas só com água quente - sem sabão e esponja - e tomam conta da geladeira! Pelo menos nós tomamos conta de um frigobar que tinha na cozinha, daí por enquanto não tivemos problemas quanto a isso...


Então na quarta-feira já levei a mala para a nova casa - para fazer a mudança em duas partes - mas ainda dormimos no albergue, pois já estava pago. Então na quinta pela manhã fizemos a segunda parte da mudança... Pronto, haviamos conseguido passar pelo primeiro obstáculo! Daí relaxamos um pouco e passeamos nos dias que se seguiram... Relaxamos em parte né, pois ainda haviam algumas coisas pra fazer logo, fomos à polícia fazer o registro obrigatório, os guris tinham que comprar o celular deles, fomos ao supermercado mais barato fazer o “rancho"... Sendo que não deu pra comprar muitas coisas, pois para ir deste supermercado à nossa casa temos que pegar um ônibus e andar uns 10 minutos a pé.
E então nesta semana fomos aos principais pontos da cidade... Big Ben, Picadilly Circus, Trafalgar Square, Leicester Square, London Eye, Buckingham Palace, Oxford Circus, Covent Garden... Sexta-feira à tarde, depois de passar pelo Covent Garden, que é tipo de uma galeria a céu aberto, com muitos bares e lojas, paramos em um PUB ali pertinho... tomamos nosso primeiro pint em pleno happy hour britânico. E hoje fechamos a semana no Hyde Park... Levei um sanduíche e uma maçã e esse foi meu almoço: piquenique às 5 da tarde no Hyde Park!
Quanto a trabalho, as coisas não andaram muito ainda. Ontem e hoje eu estive procurando algumas empresas de rickshaw, que são aqueles táxis-bicicletas que existem aqui, para tentar ser rider (taxista da bicicleta). Já consegui algumas informações e durante esta semana vou pensar mais sobre o assunto pra ver se vale a pena. A idéia que sempre tive, de tocar violão na rua, também está de pé. Conhecemos duas francesas lá no albergue que faziam isso; elas disseram que tiravam entre 15 e 25 pounds por hora, o que é muita grana! Só que, pra começar elas eram duas, mulheres, e cantavam muito melhor que eu. Tem alguns contras também.... esse tipo de coisa não dá pra fazer quando chove, e como vcs devem saber, aqui chove muito! Me disseram que no inverno quase todos os dias no final de tarde chove... Além disso, eu precisaria de um amplificador e algumas outras coisas... Ou seja, é mais fácil eu me garantir com a algum trabalho fixo do que ficar dependendo de São Pedro... Mas não abandonarei essa idéia, pelo menos pra curtir ainda quero tocar por aí!
A partir de amanhã começarei a procurar pra valer um emprego! Vou nas agências, passar pelos PUBs deixando meu currículo... Aqui vale tudo, só não vale ficar parado. Amanhã começam as aulas também, vou estudar na sede que fica bem em Picadilly Circus! As aulas são à tarde, das 3 às 6.
Acho que era isso! Espero na semana que vem já poder enviar um e-mail para vocês contando como foi a minha comemoração por ter conseguido o primeiro emprego! Por enquanto nada de festa... essa semana que passou foi muito legal mas cansativa. Provavelmente essa que virá será bem mais cansativa do que legal... Mas é assim que tem que ser mesmo... vou batalhar e conseguir! Um grande abraço pra todos, com saudade,


Thomas