Nessa última semana esfriou bastante aqui. Mas quando digo bastante, é bastante mesmo! Todos os dias à noite a temperatura fica negativa e os carros ficam cobertos de gelo. Aqui existe uma coisa muito freqüente que eles chamam de freezing fog, e que nós aí no Brasil conhecemos como o famoso fog londrino. Quando vai caindo a noite, junto com ela vem uma neblina que deixa tudo molhado mesmo, como se tivesse chovido. Daí, noite adentro, a temperatura baixa de zero e congela a película de água que cobria os carros, as plantas, o asfalto... Então fica tudo congelado. Na verdade nada muito diferente do que a nossa popular geada, só que como sou porto-alegrense nato, e em Porto Alegre geada forte assim não ocorre, achei isso que ocorre aqui muito legal. De madrugada, no meu trajeto entre a parada de ônibus e minha casa, fico a observar a paisagem toda coberta de gelo. Legal só para os olhos, porque o friozão não tem muita graça não. A sorte é que todo esse frio não chega ao centro, onde trabalho. Tipo, lá também é muito, muito frio, mas é sempre uns 3 ou 4 graus a mais do que o lugar onde moro.
Na última sexta-feira a minha aula foi no British Museum! Meu professor talvez não tava afim da monotonia da sala de aula e resolveu nos passar um pouco de sua cultura. E então caminhamos as duas quadras que separam a minha escola do museu e tivemos a aula lá, tava muito legal! Até que o cara sabia mesmo, e achei tudo muito mais interessante do que a outra vez que tinha ido lá, ainda em 2002, quando eu não sabia lhufas de inglês.
Vou tentar dar uma pincelada para vocês. Com o advento da Revolução Francesa e toda aquela sede napoleônica em prover novas fronteiras para a França, Napoleão resolveu que iria invadir o Egito. E então ele levou consigo um grande grupo de cientistas, talvez para dar à sua expedição uma conotação mais cultural, sei lá. O fato é que os arqueólogos comparsas do Napoleão fizeram uma limpa no Egito. E entre outras muitas coisas, eles encontram uma pedra que continha textos escritos em 3 linguagens diferentes: hieróglifos, escrita demótica e grego clássico. O que aconteceu é que a partir dessa descoberta eles conseguiram decifrar os famosos hieróglifos egípcios, que até então eram um grande mistério. Os escritos da tal pedra, que foi achada na cidade de Rosetta - daí o nome Rosetta Stone -, na verdade não eram nada interessante, apenas um conjunto de frases exaltando um imperador. Mas o importante foi que, a partir da comparação dos símbolos egípcios com as letras gregas, das quais se tinha entendimento prévio, pôde-se decifrar todo o resto, e então nasceu a egiptologia.
Pois bem, estavam os barquinhos do Napoleão voltando pra França cheio de riquezas egípcias e não é que aparece Nelson, famoso general inglês, e trava uma batalha em pleno Nilo com as tropas francesas. Bom, nessa os ingleses se deram melhor e pegaram pra eles muitas das descobertas francesas. E então é por isso que, até hoje, a famosa Rosetta Stone, descoberta pelos franceses, repousa em um imenso salão do British Museum.
E não é só. Inacreditavelmente muitas das esculturas originais do Partenon também estão no Museu Britânico. E eles tiveram a excelente idéia de, dentro do museu, construir um salão em escala real do salão interior do Partenon. Simplesmente genial. Bom, como vocês podem ver, a minha aula no Museu Britânico foi realmente interessante, mas vou parar por aqui, não tem graça se eu contar tudo que eu vi.


Esculturas egípcia e grega no British Museum
Da parte cultural da minha vida européia pulo para a parte dos negócios, afinal, depois de muito tempo, cheguei à conclusão que estou trabalhando em Transport Business. Então era sexta-feira e eu estava parado em Leicester Square. Na verdade eu estava quase que escondido dentro da minha rickshaw, tentando me colocar em algum estado - não o da arte - que o frio pegasse mais leve. E pensando no frio, comecei a pensar no calor... E pensando no calor, comecei a pensar no verão. E continuando o desencadeamento de idéias, pensando no verão, comecei a pensar que fazia tempo que não via aqueles grupinhos de garotas árabes que costumavam povoar Leicester Square no verão, com suas roupas de detalhes dourados e traços chamativos aos olhos ocidentais. Talvez vocês se recordem que uma vez contei uma história de umas meninas do Iraque para as quais tinha dado carona. Pois bem, é deste estereótipo a que me refiro. E pra acabar a linha de raciocínio, pensando nas mulheres, por assim dizer, médio-orientais, comecei a pensar que seria muito interessante que elas continuassem a passear em Leicester, e, conseqüentemente, a fazer bem ao meu bolso. Nesses devaneios sem fim que um rider encontra para afastar o frio e ver o tempo passar, eis que, do nada - ou do além, ainda não descobri -, aparecem na minha bicicleta 3 garotas árabes querendo ir nem elas sabiam para onde. Na verdade estavam tentando se refugiar de um carinha árabe que insistia em flertar-las. O cara usava de todos seus conhecimentos para tentar arrancar o telefone de alguma delas. E elas visivelmente tavam cheia do cara, só me diziam pra andar logo e tal. Pois eu engatei a primeira e arranquei, nem pude ver se o cara foi feliz em sua investida ou não. Pois elas queriam ir pra Wingmore, uma rua paralela a Oxford Street, e lá fui eu. Quando perguntei da onde elas eram, elas responderam: "What do you think?". "Dubai", respondi. E então elas abriram um sorriso gigante que precedeu a seguinte frase, dita em tom mais exclamativo que interrogativo: "How do you know!?" Ao que eu só dei aquela olhada e um sorriso de escanteio, e continuei minha jornada com as arabesinhas. Na verdade apenas uma era bem bonita, as outras deixavam a desejar. Mas isso também não importa.
Deixei duas delas na Wingmore, elas estavam indo num restaurante árabe encontrar os amiguinhos. A terceira, por sua vez, queria um táxi para ir para sua casa, em Knightsbridge. Actually ela era from Dubai, mas morava aqui, estudante de direito. Eu a convenci de levá-la até Knightsbridge cobrando apenas 10 pounds a mais. Bom, agora vem a parte geográfica importante. Para ir do lugar que eu estava até Knighstbridge, eu peguei a Park Lane, que é uma grande avenida que margeia o Hyde Park a leste, e é em sua maior parte uma lomba. E foi a primeira vez que tive a oportunidade de fazer toda a Park Lane, muito bala! É que eu na verdade desci toda a avenida, e desta maneira pude botar uma velocidade incrível na bike durante um longo tempo, pois o trajeto não era pequeno. Muito legal mesmo. Quando eu estava descendo lembro-me que cheguei a pensar algo como: "Bá, que bala que é descer isso, uma barbada. Imagina se eu tivesse que subir, daí o bicho ia pegar..."
Cheguei em Knightsbridge e a guria pediu pra parar na frente da Harrods. Me pagou; só 1 pound de tip, mas eu tinha cobrado bem, então tava tudo ok. Viro a esquina para tomar o trajeto de volta ao centro, quando um indiano do outro lado da rua dá um berro: "Táxi!" Entendi que era pra mim e atravessei a rua novamente. Chego lá e o dito cujo, exalando o mais puro odor de alguma bebida destilada, que não pude decifrar qual era, me pergunta: "Quanto é pra levar essas duas moças no hotel tal, é só around the corner". "Around the Corner" é uma expressão sem tradução para o português e de difícil compreensão, pelo menos pra mim. Na verdade a tradução literal seria algo como "virando a esquina". O problema é que eles usam tanto pra próxima esquina, como pra uma esquina a milhas de distância. E isso faz com que a exata compreensão fique a milhas de distância também. Pois o cara queria me dar 20 pounds para eu levar as duas senhoras "just around the corner". Inicialmente eu pensei: "beleza, mais vintão pro papai... heheh" Mas a experiência de alguns bons quilômetros me disse para me certificar de onde seria o exato lugar. A negociação foi árdua, pois na verdade o "around the corner" do cara era um hotel entre Paddington e Lancaster Gate. Pra vocês terem uma idéia, o caminho que eu teria que fazer era simplesmente o inverso do que eu tinha feito com a guria árabe, e mais um pouco. Toda lomba de novo, mas em sentido inverso! Falei: "Não... É vinte pounds por pessoa." O cara hesitou, pensou, e pronto, botou o dinheiro na minha mão. Pra vocês entenderem melhor a situação, o cara devia morar aqui em Londres e as duas mulheres deviam ser suas conhecidas, mas não eram daqui. Ou seja, ele era o anfitrião, e por esta razão estava pagando para as mulheres voltarem para o hotel. Bancando o gente fina. Ou tentando investir em alguma delas, sei lá.
Subiram as mulheres e eu comecei meu trajeto, que seria o oposto da barbada de antes. Na prática eu ia ter que dar meia volta no Hyde Park, que é muito grande. Actually, se a rua que corta o parque estivesse aberta, seria muito mais fácil, mas da meia-noite às 5 da manhã essa rua fica interceptada. E então eu comecei, pedalada por pedalada, uma ride que teria tudo pra ser uma das mais difíceis e penosas de todas.
Quando estou em Hyde Park Corner, talvez ainda nos primeiros minutos de viagem, prestes a começar a árdua subida da Park Lane, as duas damas, que estavam tão borrachas quanto o amiguinho bondoso delas, resolvem me perguntar: "Quanto tempo ainda vai demorar?" A minha resposta foi sincera: "Uns 30, 35 minutos..." Elas se entreolharam e durante alguns segundos refletiram sobre a notícia que tinham recebido. Apesar da bobeira do álcool, elas deviam estar com bastante frio. Prova disso é que me fizeram a seguinte pergunta: "Tu ficaria muito brabo se deixássemos o dinheiro contigo e pegássemos o metrô agora?" Lembrem-se que o cara já tinha me pago antecipadamente. O que será que eu respondi?
As conclusões que eu chego. Primeira: elas não deviam gostar muito do anfitrião delas, pois fizeram o cara gastar 40 pounds praticamente de graça. Segunda: por outro lado, eu e o cara realmente as consideramos pessoas especiais: o cara, porque pagou 40 pounds para agradar suas visitantes, e eu... bom, eu vocês já sabem por quê...
E então os 35 pounds que as árabes me pagaram somados aos 40 do indiano bebum contribuíram e muito para que eu tivesse a sexta-feira mais generosa de todas. O resto é papo... Grande abraço, com saudade,
Thomas



