Longe de Casa é um convite para você sentar-se confortavelmente na cabine de uma bicicleta-táxi e se deixar levar pelas ruas de Londres e da Europa. Dando o rumo dessa aventura, um estudante brasileiro de 21 anos que resolve dar um tempo de sua rotina em Porto Alegre e, junto com alguns colegas de faculdade, abrir a cabeça para novas experiências de vida no Velho Mundo. Se você procura um guia de viagens sobre a Europa e Londres, talvez este blog possa lhe ser um bom thriller de aventura. Para quem quer divertidos contos, de repente se depare com boas indicações musicais. E se você é um jovem que também pensa em passar por uma experiência em algum lugar no exterior, o que você encontrará aqui não apenas lhe fará rir ou trará boas dicas turísticas, sobre bandas e cantores: além de informação e entretenimento, os posts deste site aos poucos tentarão lhe mostrar uma outra maneira de enxergar as coisas. A maneira como alguém de 21 anos encara a vida longe de casa: aprendendo sempre.

22 de novembro de 2008

17.ª SEMANA: Gurias de Dubai e o anfitrião indiano

Daqui alguns dias já fará 4 meses que estamos aqui. Quando a gente menos vê já é Natal e mais um ano se passou. Aqui, como já falei para vocês, faz um tempo que eles estão se preparando para o Natal, com reservas para restaurantes e tal. Nós estamos pretendendo fazer uma ceia natalina aqui em casa, mas por enquanto não está nada certo, só planos... Como vocês sabem, agora estou no hemisfério norte, e toda aquela coisa de Natal com frio e neve, que no Brasil a gente importa dos Estados Unidos, aqui existe mesmo. Tipo, ainda não nevou aqui, mas a previsão do tempo para o próximo fim-de-semana é de neve. E lá estarei eu em cima da minha bicicletinha, faça neve ou faça sol, adaptando um pouco o nosso ditado.
Nessa última semana esfriou bastante aqui. Mas quando digo bastante, é bastante mesmo! Todos os dias à noite a temperatura fica negativa e os carros ficam cobertos de gelo. Aqui existe uma coisa muito freqüente que eles chamam de freezing fog, e que nós aí no Brasil conhecemos como o famoso fog londrino. Quando vai caindo a noite, junto com ela vem uma neblina que deixa tudo molhado mesmo, como se tivesse chovido. Daí, noite adentro, a temperatura baixa de zero e congela a película de água que cobria os carros, as plantas, o asfalto... Então fica tudo congelado. Na verdade nada muito diferente do que a nossa popular geada, só que como sou porto-alegrense nato, e em Porto Alegre geada forte assim não ocorre, achei isso que ocorre aqui muito legal. De madrugada, no meu trajeto entre a parada de ônibus e minha casa, fico a observar a paisagem toda coberta de gelo. Legal só para os olhos, porque o friozão não tem muita graça não. A sorte é que todo esse frio não chega ao centro, onde trabalho. Tipo, lá também é muito, muito frio, mas é sempre uns 3 ou 4 graus a mais do que o lugar onde moro.
Na última sexta-feira a minha aula foi no British Museum! Meu professor talvez não tava afim da monotonia da sala de aula e resolveu nos passar um pouco de sua cultura. E então caminhamos as duas quadras que separam a minha escola do museu e tivemos a aula lá, tava muito legal! Até que o cara sabia mesmo, e achei tudo muito mais interessante do que a outra vez que tinha ido lá, ainda em 2002, quando eu não sabia lhufas de inglês.
Vou tentar dar uma pincelada para vocês. Com o advento da Revolução Francesa e toda aquela sede napoleônica em prover novas fronteiras para a França, Napoleão resolveu que iria invadir o Egito. E então ele levou consigo um grande grupo de cientistas, talvez para dar à sua expedição uma conotação mais cultural, sei lá. O fato é que os arqueólogos comparsas do Napoleão fizeram uma limpa no Egito. E entre outras muitas coisas, eles encontram uma pedra que continha textos escritos em 3 linguagens diferentes: hieróglifos, escrita demótica e grego clássico. O que aconteceu é que a partir dessa descoberta eles conseguiram decifrar os famosos hieróglifos egípcios, que até então eram um grande mistério. Os escritos da tal pedra, que foi achada na cidade de Rosetta - daí o nome Rosetta Stone -, na verdade não eram nada interessante, apenas um conjunto de frases exaltando um imperador. Mas o importante foi que, a partir da comparação dos símbolos egípcios com as letras gregas, das quais se tinha entendimento prévio, pôde-se decifrar todo o resto, e então nasceu a egiptologia.
Pois bem, estavam os barquinhos do Napoleão voltando pra França cheio de riquezas egípcias e não é que aparece Nelson, famoso general inglês, e trava uma batalha em pleno Nilo com as tropas francesas. Bom, nessa os ingleses se deram melhor e pegaram pra eles muitas das descobertas francesas. E então é por isso que, até hoje, a famosa Rosetta Stone, descoberta pelos franceses, repousa em um imenso salão do British Museum.
E não é só. Inacreditavelmente muitas das esculturas originais do Partenon também estão no Museu Britânico. E eles tiveram a excelente idéia de, dentro do museu, construir um salão em escala real do salão interior do Partenon. Simplesmente genial. Bom, como vocês podem ver, a minha aula no Museu Britânico foi realmente interessante, mas vou parar por aqui, não tem graça se eu contar tudo que eu vi.


Esculturas egípcia e grega no British Museum


Da parte cultural da minha vida européia pulo para a parte dos negócios, afinal, depois de muito tempo, cheguei à conclusão que estou trabalhando em Transport Business. Então era sexta-feira e eu estava parado em Leicester Square. Na verdade eu estava quase que escondido dentro da minha rickshaw, tentando me colocar em algum estado - não o da arte - que o frio pegasse mais leve. E pensando no frio, comecei a pensar no calor... E pensando no calor, comecei a pensar no verão. E continuando o desencadeamento de idéias, pensando no verão, comecei a pensar que fazia tempo que não via aqueles grupinhos de garotas árabes que costumavam povoar Leicester Square no verão, com suas roupas de detalhes dourados e traços chamativos aos olhos ocidentais. Talvez vocês se recordem que uma vez contei uma história de umas meninas do Iraque para as quais tinha dado carona. Pois bem, é deste estereótipo a que me refiro. E pra acabar a linha de raciocínio, pensando nas mulheres, por assim dizer, médio-orientais, comecei a pensar que seria muito interessante que elas continuassem a passear em Leicester, e, conseqüentemente, a fazer bem ao meu bolso. Nesses devaneios sem fim que um rider encontra para afastar o frio e ver o tempo passar, eis que, do nada - ou do além, ainda não descobri -, aparecem na minha bicicleta 3 garotas árabes querendo ir nem elas sabiam para onde. Na verdade estavam tentando se refugiar de um carinha árabe que insistia em flertar-las. O cara usava de todos seus conhecimentos para tentar arrancar o telefone de alguma delas. E elas visivelmente tavam cheia do cara, só me diziam pra andar logo e tal. Pois eu engatei a primeira e arranquei, nem pude ver se o cara foi feliz em sua investida ou não. Pois elas queriam ir pra Wingmore, uma rua paralela a Oxford Street, e lá fui eu. Quando perguntei da onde elas eram, elas responderam: "What do you think?". "Dubai", respondi. E então elas abriram um sorriso gigante que precedeu a seguinte frase, dita em tom mais exclamativo que interrogativo: "How do you know!?" Ao que eu só dei aquela olhada e um sorriso de escanteio, e continuei minha jornada com as arabesinhas. Na verdade apenas uma era bem bonita, as outras deixavam a desejar. Mas isso também não importa.
Deixei duas delas na Wingmore, elas estavam indo num restaurante árabe encontrar os amiguinhos. A terceira, por sua vez, queria um táxi para ir para sua casa, em Knightsbridge. Actually ela era from Dubai, mas morava aqui, estudante de direito. Eu a convenci de levá-la até Knightsbridge cobrando apenas 10 pounds a mais. Bom, agora vem a parte geográfica importante. Para ir do lugar que eu estava até Knighstbridge, eu peguei a Park Lane, que é uma grande avenida que margeia o Hyde Park a leste, e é em sua maior parte uma lomba. E foi a primeira vez que tive a oportunidade de fazer toda a Park Lane, muito bala! É que eu na verdade desci toda a avenida, e desta maneira pude botar uma velocidade incrível na bike durante um longo tempo, pois o trajeto não era pequeno. Muito legal mesmo. Quando eu estava descendo lembro-me que cheguei a pensar algo como: "Bá, que bala que é descer isso, uma barbada. Imagina se eu tivesse que subir, daí o bicho ia pegar..."
Cheguei em Knightsbridge e a guria pediu pra parar na frente da Harrods. Me pagou; só 1 pound de tip, mas eu tinha cobrado bem, então tava tudo ok. Viro a esquina para tomar o trajeto de volta ao centro, quando um indiano do outro lado da rua dá um berro: "Táxi!" Entendi que era pra mim e atravessei a rua novamente. Chego lá e o dito cujo, exalando o mais puro odor de alguma bebida destilada, que não pude decifrar qual era, me pergunta: "Quanto é pra levar essas duas moças no hotel tal, é só around the corner". "Around the Corner" é uma expressão sem tradução para o português e de difícil compreensão, pelo menos pra mim. Na verdade a tradução literal seria algo como "virando a esquina". O problema é que eles usam tanto pra próxima esquina, como pra uma esquina a milhas de distância. E isso faz com que a exata compreensão fique a milhas de distância também. Pois o cara queria me dar 20 pounds para eu levar as duas senhoras "just around the corner". Inicialmente eu pensei: "beleza, mais vintão pro papai... heheh" Mas a experiência de alguns bons quilômetros me disse para me certificar de onde seria o exato lugar. A negociação foi árdua, pois na verdade o "around the corner" do cara era um hotel entre Paddington e Lancaster Gate. Pra vocês terem uma idéia, o caminho que eu teria que fazer era simplesmente o inverso do que eu tinha feito com a guria árabe, e mais um pouco. Toda lomba de novo, mas em sentido inverso! Falei: "Não... É vinte pounds por pessoa." O cara hesitou, pensou, e pronto, botou o dinheiro na minha mão. Pra vocês entenderem melhor a situação, o cara devia morar aqui em Londres e as duas mulheres deviam ser suas conhecidas, mas não eram daqui. Ou seja, ele era o anfitrião, e por esta razão estava pagando para as mulheres voltarem para o hotel. Bancando o gente fina. Ou tentando investir em alguma delas, sei lá.
Subiram as mulheres e eu comecei meu trajeto, que seria o oposto da barbada de antes. Na prática eu ia ter que dar meia volta no Hyde Park, que é muito grande. Actually, se a rua que corta o parque estivesse aberta, seria muito mais fácil, mas da meia-noite às 5 da manhã essa rua fica interceptada. E então eu comecei, pedalada por pedalada, uma ride que teria tudo pra ser uma das mais difíceis e penosas de todas.
Quando estou em Hyde Park Corner, talvez ainda nos primeiros minutos de viagem, prestes a começar a árdua subida da Park Lane, as duas damas, que estavam tão borrachas quanto o amiguinho bondoso delas, resolvem me perguntar: "Quanto tempo ainda vai demorar?" A minha resposta foi sincera: "Uns 30, 35 minutos..." Elas se entreolharam e durante alguns segundos refletiram sobre a notícia que tinham recebido. Apesar da bobeira do álcool, elas deviam estar com bastante frio. Prova disso é que me fizeram a seguinte pergunta: "Tu ficaria muito brabo se deixássemos o dinheiro contigo e pegássemos o metrô agora?" Lembrem-se que o cara já tinha me pago antecipadamente. O que será que eu respondi?
As conclusões que eu chego. Primeira: elas não deviam gostar muito do anfitrião delas, pois fizeram o cara gastar 40 pounds praticamente de graça. Segunda: por outro lado, eu e o cara realmente as consideramos pessoas especiais: o cara, porque pagou 40 pounds para agradar suas visitantes, e eu... bom, eu vocês já sabem por quê...
E então os 35 pounds que as árabes me pagaram somados aos 40 do indiano bebum contribuíram e muito para que eu tivesse a sexta-feira mais generosa de todas. O resto é papo... Grande abraço, com saudade,

Thomas

15 de novembro de 2008

16.ª SEMANA: A vista de Wateloo Bridge

E então mais uma semana se passou e aqui estou eu novamente. Agora já são 3 da manhã de terça-feira, a qual foi precedida por uma segunda um tanto gelada. Toda a semana que passou foi muito fria, o que significa mais esforço no trabalho. Mas por enquanto ainda está dando pra agüentar, nada tão diferente do que o nosso friozinho de Porto Alegre. No entanto sei que ainda é novembro e é cedo pra ficar contando vantagem. No próximo sábado, por exemplo, os guris me disseram que a previsão é de dois graus... Negativos. E todos teremos e iremos pedalar, supostamente felizes. I hope so...
Pois eu dizia que agora já são 3 e ainda não estou com muito sono. Meu relógio está um tanto alterado, não tenho ido pro berço antes das 4. Não que ache isso ruim, é só um tanto diferente do que o "normal".
Hoje fiz uma coisa que estava há muito me segurando, fui na Virgin Megastore, uma loja de CDs, DVDs e afins, que tem em Piccadilly Circus, e que é realmente grande, como o nome supõe. Pois como disse, há tempos postergava esta visitinha, já que sabia que não ia me conter em comprar uns cedezinhos. E eu realmente estava certo: Fui, não me contive, comprei. Mas nem foram muitos, só 3 CDs e um DVD. Um dos discos é do Damien Rice - "O" é o título - e o resto é tudo do Coldplay. Tipo, já que dei de prego e perdi a oportunidade de ir no show que os caras vão fazer aqui em dezembro - os ingressos foram todos vendidos em questão de 5 dias e eu bailei na curva -, pelo menos agora posso ir ao show deles always, é só ligar o computador e assistir ao DVD, que por sinal é excelente. Estava assistindo a algumas músicas agora e achei muito bom. Quanto ao outro CD, do Damien Rice, já ouvi 3 vezes e realmente me impressionei com o cara. Na verdade agora, enquanto estou escrevendo, estou ouvindo de novo. Tipo, dele eu só conhecia "The Blower's Daughter", aquela música do filme "Closer". Apesar de ser um tanto melosa, devo admitir que é muito boa. E a minha surpresa foi que no CD constam músicas muito melhores ainda. Um tanto deprê, é verdade, mas excelentes.
O trabalho na bicicleta continua tri. Cada vez fico mais feliz por me dar conta de que reamente já estou conhecendo muito bem a cidade. Esses 3 meses de trabalho, que já somam algumas centenas de horas, foram o suficiente para fazer de Londres um lugar um tanto familiar. Claro que todos que vêm pra cá acabam sentindo isso, mas para um rider tudo acontece um pouco diferente e mais rápido. E não falo isso só por mim, tenho certeza que os outros guris também sentem a mesma coisa - ou logo vão sentir, já que alguns começaram pouco depois que eu.
Comecei a falar sobre isso porque uma das coisas que acho muito legal é ir cada vez mais longe, no sentido literal mesmo. Tipo, nas primeiras semanas eu ia pra Victoria Station e achava aquilo super longe, me cansava muito. Daí aos poucos os destinos foram se distanciando, se distanciando, até que nessa semana eu extrapolei e fui parar num lugar que eu nunca imaginei que ia (conseguir) chegar. Levei uma lady num local chamado Rotherhithe, que não é nada mais do que a mesma distância que Canary Wharf, mas do lado sul do rio. Eu sei que para a maioria de vocês não adianta nada eu dar referências, mas é que alguns já moraram aqui em Londres, então não custa localizar quem conhece. Bom, o que interessa é que o lugar é muito longe mesmo, nunca imaginei que eu ia até lá. A dita lady estava completamente borracha, foi dormindo do início até o fim da jornada, simplesmente apagou. No final ainda presenteou a minha bicicleta com um vômito vermelho-amarronzado, que maravilha! Por sorte sujou só um pouquinho da bike, o resto do fluido foi parar no asfalto. Mas fiquei feliz, pude ver, praticamente na minha frente, o prédio de Canary Wharf, o mesmo que costuma estar na linha do horizonte quando atravesso a Waterloo Bridge. Genial. Mais genial que isso foi na volta ter atravessado a Tower Bridge de bicicleta. Isso sim era uma coisa que eu queria muito um dia fazer, e finalmente tive a oportunidade. Eu já tinha ido lá (de metrô), atravessado a pé, contemplado e tal, mas ir até lá e atravessar de bicicleta é muito diferente. Ainda mais que atravessei as 2 da madrugada de uma quinta-feira, praticamente só eu na ponte, e ela toda iluminada, pois brilha por toda noite. Realmente amazing! Vou anexar uma foto dela que acho que já tinha enviado para vocês, mas vale a pena mostrar de novo para os que não conhecem tentar entender sobre o que estou falando.
E a minha lista de wide rides não pára por aí. Era sábado às 3 e meia da manhã; na verdade já era madrugada de domingo. Estava realmente cansado, tinha começado pelas 5 da tarde e muito já tinha rodado. Mas realmente queria e sentia que dava pra fazer mais uma ride grande mesmo. Grande em distância e em valor: o bolso ainda pedia um pouco mais. É que em altas horas da madrugada ninguém mais pega carona para dar voltinha em rickshaw; as pessoas querem mesmo é voltar para suas casas, e como é muito difícil de conseguir táxi - black cabs -, algumas acabam por eleger uma rickshaw como meio para chegar em casa. Então estacionei minha bike em Piccadilly Circus a espera de alguém com esse perfil. E foi isso mesmo que aconteceu. Uma outra lady chegou para mim e perguntou quanto eu cobraria para levar ela depois de Holand Park Tube Station. Só posso dizer que o lugar que ela queria era realmente muito longe. Mas um rider que se preze não pode dar pra trás. E daí a única coisa que eu fiz foi dar um preço bem compatível com a situação: o lugar era tri longe, 3 e meia da manhã, uma friaca braba... 30 pounds. E olha que eu até fui generoso com a guria. Daí quando eu disse o preço ela abriu um largo sorriso e disse que era exatamente o preço que ela estava disposta a pagar. So, negócio fechado, ela subiu na bike, disse o seu nome e perguntou o meu, alegando que, como iríamos passar um longo tempo juntos, teríamos que conversarmos quase que obrigatoriamente. E acho que ela se sentiu mais confortável em saber que saberíamos o nome um do outro. Eu achei engraçado ela ter dito isso: "Como o caminho é grande e vamos passar um longo tempo juntos, prazer, eu sou a tal, e você, qual seu nome..." Foi uma boa iniciativa, pois realmente acho um pouco estranho quando faço uma corrida grande com apenas uma pessoa e fica aquele silêncio. Sempre tento puxar um assunto, mas às vezes as pessoas não dão muita corda. Imaginem, não é nada muito diferente do que quando entramos num táxi e o taxista tenta puxar um papo. Se não estou enganado quase sempre eles começam falando do tempo, "Será que hoje vai chover?", ou então aquela clássica "que calor, hein?" Eu tento ser um pouco mais criativo enquanto pedalo, mas confesso que não vou muito longe. Talvez seja porque a língua realmente atrapalha a tentativa de dissertar sobre algo mais interessante.
Isso me fez lembrar uma coisa que aconteceu nessa semana e que me deixou muito feliz. Na verdade não tem nada de mais, mas faz parte daquelas pequenas coisas que as pessoas deveriam enxergar pra serem mais felizes. Estava atravessando Waterloo Bridge com um cara na carona. O cara era bem jovem e falante. Papo vem e papo vai, até que no meio da ponte ele pega e fala assim: "Essa é a melhor vista de Londres". A questão é que sou eu quem sempre falo isso pros clientes. Geralmente quando eu pego a ponte é para ir até Waterloo Train Station, o que me faz pensar que as pessoas que estou levando dificilmente são londrinas, já que estão indo até a estação para pegar o trem. Pois então, como as pessoas com quem atravesso a ponte em sua maioria supostamente não moram em Londres, sempre faço questão de dizer que aquela é a melhor vista de Londres. Muitas vezes inclusive explico o que é cada edifício, cada lugar. Acho legal fazer com que as pessoas realmente sintam a beleza daquilo. Mas então não sei por que eu estava atravessando com o cara e esqueci de comentar. Foi quando ele falou exatamente a mesma frase que falo todas às vezes: "This is the best view of London..." E isso me deixou feliz. O cara era realmente gente boa. É muito legal quando os clientes são parceiros; é comum no final das corridas receber abraços carinhosos das pessoas, muitas reconhecem o esforço e recompensam não só com dinheiro, mas com sorrisos mesmo.
Pois então eu contava sobre minha corrida com a lady ao Holand Park. No fim nem saiu muito papo, a tática dela não foi muito eficaz. Mas bem que eu tentei – conversar, neste caso. E então após quase uma hora de firmes pedaladas eu estava lá, no destino, que na verdade era quase em Shepherd's Bush. Ela pagou 35 pounds, valor justo. Obviamente esta foi minha última corrida, já eram 4 e meia da manhã e as pernas se pudessem gritar, gritariam. Para ir até a garagem onde deixo a bike tinha que simplesmente atravessar o centro inteiro, alguns tantos kilômetros em linha reta. Não tive dúvida, tirei o discman da mochila e o Fito me acompanhou por todo longo caminho. E fiz toda a Oxford feliz da vida.
A semana teve outras coisas legais, mas acho que já está longo demais. As palavras a mais são talvez porque eu estava a fim de falar um pouco mais sobre os detalhes da vida por aqui, pois ela não é só feita de grandes histórias, festas, lugares diferentes. Às vezes temos que dar valor pras pequenas coisas, cada um tem a sua vista de Wateloo Bridge pra mostrar para alguém. Um grande abraço, com saudade,

Thomas

8 de novembro de 2008

15.ª SEMANA – Um Grande Churrasquinho

É com imensa satisfação - vocês não imaginam quanta - que estou escrevendo na minha mais nova aquisição, um notebook! É isso mesmo, no more fubica! No more fubica! A partir de agora vou ter mais tempo para ler os e-mails de vocês, respondê-los, ler as notícias do Brasil, fazer o download das minhas fotos, atualizar meu fotolog... Enfim, a vida vai ser mais fácil!
Antes eu falei na fubica. E não é que a fubica foi aposentada não só por mim!? Estes dias o André achou um computador na frente de uma casa aqui da nossa rua e trouxe pra casa. Eu não levei muita fé, pois o computador aparentemente tinha passado a noite pegando chuva. Mas não é que funcionou, e bem! Eu não usei ainda, mas diz o André que é o processador é 1.9 Ghz, então é bom mesmo. Aqui é assim, quando as pessoas não querem mais as coisas, em vez de perder tempo pensando pra quem vão dar, se tem um amigo mais necessitado que possa querer aquilo e tal, elas pegam e põe na rua. E daí quem quer que pegue. Tem sofá, colchão, computador, cadeira, enfeite, de tudo! Essa semana o Marcus e o André também acharam uma televisão na rua e trouxeram, e tá funcionando também! Se não me engano é 21 polegadas, nem é das piorzinhas. Falei pros guris que a nossa nova aquisição agora no Street Market tem que ser um microondas, que é uma das únicas coisas que falta aqui em casa.
A vida aqui continua boa e essa semana foi bem corrida e longa, no sentido que de que deu pra fazer muitas coisas. Pra começar, na segunda-feira passada fui ao show dos The Britos, banda cover dos Beatles formada por 2 caras do Barão Vermelho (baterista e baixista), o George Israel do Kid Abelha e um outro cara nas guitarras. O show foi no Guanabara Bar, bar brasileiro aqui em Londres. O ambiente é bem legal, meio retrô na real: tu entra no lugar e parece que volta uns 15 anos no tempo, mas eu achei bem interessante. Daí os caras fizeram um show bem rapidinho só tocando os rockzinhos mais básicos dos Beatles, na seqüência tocaram algumas brasileiras no bis e era isso. Depois entrou o som mecânico só com pérolas de Jorge Ben, Chico e outros. Pude relembrar a terrinha comendo pequeninos pedaços de aipim frito - no cardápio tava escrito mandioca, mas pra mim é aipim -, uma delícia! O bolso não gostou muito, bebida e comida caras, mas valeu pra descontrair, tomar uma caipirinha e uma Brahma ao som de uma boa música com uma boa companhia.
Por falar em Brahma, a Brahma tá fazendo muita propaganda aqui, uma campanha forte mesmo. As figuras nos outdoors são umas montagens muito estilizadas de um artista chamado Speto, de repente a mesma campanha está sendo veiculada aí também, sei lá. Eu sei que num dos outdoors aparece um neguinho em uma típica paisagem de periferia brasileira, carregando um isopor cheio de garrafinhas da Brahma mergulhadas em pedras de gelo. Achei muito legal, é daquele tipo de figura com vários detalhes, e conforme se vai correndo os olhos se encontra mais detalhes verdadeiramente brasileiros. Por exemplo, lá pelas tantas encontrei na imagem uma plaquinha que dizia algo como "compro e vendo vale-transporte". O próprio fato do cara ser um vendedor destes de isopor já é diferente, pois aqui não existe isso. E outra coisa que achei legal é que toda a campanha é em português, tipo, o slogan é "Brahma, a cerveja do Brasil", assim mesmo, em português. A garrafa que vendem aqui é bem diferente - na verdade a cerveja também é diferente, eu li que modificaram pra agradar o paladar europeu, afinal aqui não gostam de cerveja tão suave como no Brasil -, torta e tal, e tá escrito tudo em português também.
A Nike Town, loja da Nike que fica em Oxford Circus, o centro do comércio londrino, está com as vitrines fazendo referência ao time de futebol do Brasil, com direito a contar a história das copas ganhas, coleção de roupas especialmente criadas para tal e coisas mais. Na verdade eu nem entrei na loja, mas quando passo ali com a bike tem uma sinaleira muito demorada na Oxford, o que proporciona uma bela e demorada vista das vitrines da loja, que estão realmente muito legais. Outro dia vou entrar para contar mais detalhes para vocês.
Na quinta passada o André, a Milene - uma amiga nossa - e eu fomos em um concerto no Royal Albert Hall chamado "Broadway in Concert" ou algo assim. Tava muito bom, a Royal Philharmonic tocando músicas das peças da Broadway acompanhada de 4 cantores muito bons - 2 homens e 2 mulheres. Tudo acabou com o público chacoalhando o esqueleto ao som de "Grease, no Tempo da Brilhantina" - é isso né (?), a música eu conheço, mas o filme não é do meu tempo). Até o maestro uma hora se virou e começou a dançar. Tipo, ele já tava rebolando fazia um tempo nas músicas mais agitadas, dali um pouco o cara não se contém, esquece seus súditos com seus violinos e metais em punho, vira-se e começa a dançar com o público, não esquecendo de dar o compasso com a batuta é claro. Well, depois do teatro, obviamente, o Pub.
Por falar em Pub, há umas duas semanas atrás, era uma sexta-feira, e o meu professor resolveu que nós iamos no cinema. Escolhemos um filme, que por sinal foi uma péssima escolha, e fomos. Chegamos lá, compramos nossos ingressos e faltava uns 20 minutos pra começar o filme e tal. Daí eu falei pro meu professor algo como: "que tu acha de tomarmos um pint no Pub da esquina enquanto esperamos?" Mas tipo, falei brincando né. E não é que o cara quis ir. Fomos. Já na sexta passada a aula não foi no cinema, foi no Pub direto. Afinal pra que perder tempo no cinema, vamos direto ao que interessa.
E agora, let me tell you o acontecimento da semana: fizemos um churrasco ontem! Mas um churrasco mesmo! Inacreditável, tava muito, mas muito bom! Compramos a carne direto da máfia chinesa. O André foi lá no tal do chinês no sábado e pegou na camufla a carne. Conta a lenda que o chinês é perigoso, mas o André chegou em casa bem, apenas um pouco sujo com o sangue do boi que o asiático insistiu em carnear na hora. Melhor ainda, carne fresquinha. Daí não é que o chinês encheu a sacola só com o vaziozão, perfeito, aquele de fibras se desmanchando! Então convidamos a galera e assamos 8 quilos e meio de carne! Eram 14 pessoas pelas nossas contas e não sobrou uma lasquinha pra contar história; foi toda a carne. Como a nossa churrasqueira não era uma verdadeira churrasqueira gaúcha, mas aquelas de churrasco americano (mas com carvão), e como também não tínhamos espetos, tivemos que fazer espetinhos mesmo, que nem os de gato do Olímpico ou Beira Rio. Mas a diferença é que lá no Olímpico a carne não vem direto do chinês. E nem é assada com tanto esmero como a nossa foi pelo nosso glorioso assador André. Perfect! E assim acabou a nossa semana, com churrasquinho, várias Carlings e risadas sobrando de uma turma pra lá de parceira!

Churrasco depois de meses, difícil descrever


Prá me despedir, deixo vocês com duas fotos, uma pra deixá-los com água no boca, e a outra que mostra a turma de riders toda reunida (de baixo pra cima, esquerda para direita): Rafa, Lelo, Marcus, Gabriel, André, eu, Chico, Biri. E então era isso, um grande abraço para todos, com saudade,

Thomas

O time de riders

E agora com as gurias junto

Eu e as mineirinhas: Bidu, Ismara e Lelê