Longe de Casa é um convite para você sentar-se confortavelmente na cabine de uma bicicleta-táxi e se deixar levar pelas ruas de Londres e da Europa. Dando o rumo dessa aventura, um estudante brasileiro de 21 anos que resolve dar um tempo de sua rotina em Porto Alegre e, junto com alguns colegas de faculdade, abrir a cabeça para novas experiências de vida no Velho Mundo. Se você procura um guia de viagens sobre a Europa e Londres, talvez este blog possa lhe ser um bom thriller de aventura. Para quem quer divertidos contos, de repente se depare com boas indicações musicais. E se você é um jovem que também pensa em passar por uma experiência em algum lugar no exterior, o que você encontrará aqui não apenas lhe fará rir ou trará boas dicas turísticas, sobre bandas e cantores: além de informação e entretenimento, os posts deste site aos poucos tentarão lhe mostrar uma outra maneira de enxergar as coisas. A maneira como alguém de 21 anos encara a vida longe de casa: aprendendo sempre.

20 de setembro de 2008

8.ª SEMANA: A Noite de Londres

Inacreditavelmente estou sentado na frente no computador aqui de casa, escrevendo este e-mail com a tranqüilidade de quem depois irá enviá-lo diretamente para vocês, sem ter de passar para um disquete e acessar a internet em outro local. Porque sim, agora temos internet em nossa casa! Acabou a enrolation da nossa landlord e nessa semana finalmente chegou o modem pelo correio. Para quem não está entendendo muito bem a minha euforia, eu sempre escrevia os meus e-mails semanais aqui em casa e depois gravava em um disquete para abrir em um cyber café e enviar para vocês. Agora simplesmente vou escrever e mandar. St. James's Park


O fato de o acesso ter ficado bem mais fácil agora contribui mais ainda para eu dizer uma coisa que já estava há tempos para escrever, mas que acabava esquecendo. Nos últimos tempos alguns de vocês - pessoas bem próximas até - têm me enviado e-mails dizendo que "não enviaram mensagens antes pois não queriam fazer eu perder tempo, pois sabiam que eu tinha pouco acesso" e coisas do gênero. Tipo, realmente antes eu acabava não tendo muito tempo de acesso, mas ler os e-mails não é uma coisa que me toma tempo, ler é muito rápido! O que fica mais difícil é responder os e-mails, mas mesmo isso, dentro do possível, eu aos poucos estou conseguindo fazer. Eu sempre leio os e-mails logo depois que eles chegam, para responder é que obviamente demora mais. Por isso, aproveitando que agora tenho mais tempo, queria deixar claro que ninguém precisa se preocupar se está me estorvando - como diria o véio Basso - ou não. Tipo, é só mandar e pronto. Mas que fique claro que são e-mails pessoais né, aquilo que eu tinha pedido a respeito de e-mails com correntes, piadas e ppt ainda está valendo.
Bom, falando da vida aqui. Essa última semana não foi muito boa com relação à bike. Como eu já havia contado na semana passada, parece que diminuiu consideravelmente o movimento nas ruas, e isso nada mais é do que diminuir a quantidade de clientes. Mas mesmo assim ainda está sendo um bom negócio, pois tiro um dinheirinho e me divirto bastante. Acontece muito loucas e engraçadas, mas provavelmente não terá a mesma graça se eu contar aqui; só presenciando pra entender. Acho que vocês devem imaginar um pouco o que é a noite de Londres. Tipo, loucura total. Aqui as pessoas bebem muito, muito mesmo. E droga aqui é muito fácil de comprar, mais fácil que no Brasil. Não falo isso por experiência própria, mas é que aqui os traficantes têm pontos certos de venda no meio do centro. Todo mundo sabe, polícia, todos. Mas não entendo por que fecham os olhos. Tipo, tem no meio do Soho - um bairro no centro - uma ruelinha que é cheia de traficantes, e qualquer um passa lá e eles ficam oferecendo. Lá em Camden Town também é completamente liberado. Daí como tem pessoas de tudo que é lugar do mundo, e essas pessoas tem acesso liberado a tudo que quiserem, imaginem o que não acontece. E eu, como literalmente trabalho na noite de Londres, acabo presenciando tudo.

Minha rickshaw e eu, atrapalhando o trânsito em Piccadilly Circus


Eu disse que as pessoas tem acesso liberado a tudo, mas não é bem assim. Inexplicavelmente a partir das 11 da noite as pessoas não podem mais comprar bebidas alcoólicas nos pubs e nos mercados também. Claro que os clubs e alguns pubs tem autorização pra venda all the time, mas os mercadinhos que ficam abertos durante a noite, incluindo super-mercados 24 horas não podem. Daí eles baixam uma cortininha ou uma grade no expositor que ficam as bebidas alcoólicas e ninguém mais compra. Claro que hecha la ley, hecha la trampa, e alguns desses mercadinhos acabam vendendo na mocó. Mas mesmo assim, e eu não estou exagerando, é mais fácil comprar drogas do que comprar bebidas. A propósito, obviamente não é "inexplicável" o fato do toque de recolher das bebidas, como falei antes, Provavelmente essa lei deve ser muito antiga e deve ter sido decretada pelo rei não sei das quantas quinto ou fulano décimo oitavo. E como tudo aqui é tradição, isso também é. Mas está para mudar agora no final do ano. Parece que já está aprovada ou está para ser votada uma lei que libera a venda, e isso está causando muita polêmica aqui. Discussão entre juristas, psiquiatras e afins. Mais ou menos como no Brasil se discuti a proibição da venda de armas. Duas interrogações bem diferentes de pátrias mais diferentes ainda.
Mas daí eu ia dizendo que se vê de tudo quando todas as raças do mundo resolvem se entregar a alguns pints de uma boa Carling ou Stella, e o resultado é que lá pelas 3 da manhã de um sábado, por exemplo, vê-se gente vomitando, gente caindo de bêbada, gente em coma alcoólico... E os amigos dessas gentes rindo delas, eu rindo de todos e tudo e sendo pago para transportá-las. Legal, né?
Na última sexta-feira fez um friozinho de arrepiar cusco véio. Quando eu estava voltando pra casa, pelas 4 da manhã, com certeza tava uns 10 graus. Mas no sábado já subiu um pouquinho e agora tá uma temperatura legal. Acho que o verão já disse tchau; calorzinho bom como antes, no more.
Domingo eu trabalhei só à tarde e à noite fomos à festa de inauguração do apartamento do Dany, meu primo italiano que veio morar aqui. Tava bala: de brasileiros só eu, o André, o Marcus e uma amiga nossa. O resto todo, estrangeiros amigos do Dany.
E hoje antes da aula nós fomos ao Palácio de Buckingham ter uma audiência com a rainha. Mas como ela não estava lá e tal, e resolvemos simplesmente fazer um tour pelo palácio. Muito legal! Umas das fotos anexadas é dos fundos do Palácio. E depois da aula aproveitei o meu dia de folga para convidar a galera para ir ao St. James’s Park fazer uma roda de violão. Tava muito tri também. Uma das fotos anexadas mostra eu tocando, e o efeito especial era porque eu estava tocando em cima de uma luz que iluminava as árvores. Difícil de explicar a situação.

Buckingham Palace

Roda de violão no St. James's Park


Por falar em violão, comprei um amplificador! Agora já tenho tudo que preciso para fazer busking (tocar nas ruas), só falta coragem! Fazia um tempo já que eu tava namorando um aqui, dando uma flertada com outro ali. Daí depois de ter ido em muitas e muitas lojas escolhi um lá e comprei. Paguei bem caro, pois para fazer busking é preciso um amplificador com baterias, pois quando se toca na rua obviamente não se tem tomadas disponíveis.
E a última novidade da semana é que começamos os preparativos para o reveillón! Se tudo der certo vamos passar acompanhados da Madame Eiffel, com uma boa francesa na mão. Champanhe francessa, at least. Brincadeiras a parte, falo sério: antes de começar a escrever este e-mail eu estava vendo o preço das passagens aqui com o André, e, se tudo der certo, essa semana ou na próxima compraremos os bilhetes. E daí vou realizar um grande sonho, que é virar o ano embaixo da Torre Eiffel! Au revoir, avec saudadê,



Thomas

12 de setembro de 2008

7.ª SEMANA: A Heaven e o Iraque

Agora são quatro da tarde de domingo e estou escrevendo no computador de casa. Ainda não há a internet prometida aqui e prefiro desistir da idéia de que um dia haverá. Logo, vou fazer como todas as semanas: escrever o e-mail com calma aqui, gravar em um disquete e acessar a Internet em algum lugar para enviá-lo para vocês. Mas agora pelo menos tenho um lugar para acessar sem pagar. Virei membership da biblioteca aqui do bairro, daí posso acesar até uma hora por dia sem pagar. A não ser pelo fato de que tenho que fazer a reseva com antecedência, está bem bom. E na verdade não é só dessa biblioteca, é de uma rede de bibliotecas públicas que tem na cidade.
Hoje faz um dia nublado bem feio, um "q" de friozinho, daí resolvi tirar uma folga e não ir trabalhar. Na verdade, não só por isso, é que sexta e ontem trabalhei bastante e deu pra ganhar uma boa grana, daí achei que merecia um descanso. E aproveitei o tempo ruim para um dia mais caseiro: lavar roupas, toalha e lençóis, até dei uma varrida na cozinha. E fiz uma galinha assada que tava bem boa. Talvez a primeira carne que comi em 10 dias, tirando o presunto do santo sanduíche de cada dia. Os guris não estão em casa; desde quinta-feira eles estão trabalhando como garçom em uma partida de cricket. Parece que trabalham das 7 da manhã às 7 da noite. Daí como eu chego em casa pelas 2 ou 3 da manhã, eles estão dormindo. Quando eles saem de manhã é a minha vez de estar dormindo, e então durante os últimos 3 dias quase não falei com eles, apesar de morar na mesma casa e no mesmo quarto. A não ser hoje de madrugada, que trabalhei até as 4 da manhã e cheguei em casa às cinco, daí eles estavam acordando e conseguimos fazer contato. Eles me explicaram que estão trabalhando no camarote do estádio e que o jogo dura o dia inteiro. Os torcedores chegam às 9 da manhã lá e tomam café, daí assistem a partida e nesse meio tempo parece que tem o almoço e o chá, um esquema assim. Ah, e a mesma partida dura 4 ou 5 dias inteiros. Bom, isso quem me explicou foi o Marcus - eu não entendo nada de cricket -, então, se eu estiver falando alguma besteira, os créditos não são meus.
Essa semana foi bem legal. Na segunda foi meu day off, daí aproveitei para curtir a noite. Primeiro fomos no Walkabout, aquele mesmo bar que eu já tinha contado pra vocês. Tipo, é a noite mais óbvia pra fazer todas segundas, pois é de graça e a bebida é barata. Eu não estava afim de ir, pois acho que temos que cada semana ir a um lugar diferente, pelo motivo óbvio de conhecer lugares diferentes. Mas daí todos os nossos conhecidos iam pra lá e eu acabei indo também. Tava legal, mas eu estava afim de ir na Heaven, que é um club bem conhecido que tem aqui. Daí alguns se pilharam e nós fomos. Esse club na real é um club gay e isso todo mundo sabe. Mas às segundas-feiras é um dia que, supostamente, vão muitos brasileiros lá, e o Marcus tinha lido não sei onde que, com o passar do tempo, aos poucos os gays tinham desistido de freqüentar o local nas segundas devido ao grande número de brasileiros (não-gays). Tá, daí fomos pra conhecer né, afinal quem tá em Londres tem que se acostumar, eles estão por toda parte. Eu que trabalho no centro à noite então, vejo homem se beijando - no meio da rua mesmo - quase todo dia. Que que eu vou fazer? Incomodar-me com isso? Eu não... Cada um na sua. Eles lá e eu cá. Bom, daí fomos no dito club que, a princípio, às segundas, não teria muitos gays. Ahãm... só fruta! Só... Tipo, o lugar é muito grande, tem cinco pistas eu acho e alguns outros ambientes, bem legal. Mas os freqüentadores... Um que outro brasileiro no meio de um mar gay. E um calor infernal! Sério, com certeza uns 40 graus. Eu saí de lá como se tivesse entrado numa piscina (de suor). E os caras dançando tudo sem camisa, uma fumaça insuportável de cigarro. Acho que fumei passivamente uma carteira inteira de cigarro. Mas no fim das contas achei legal, pelo menos fomos pela primeira vez num club londrino, uma experiência no mínimo diferente. Teve amigo meu - sem citar nomes - que saiu extremamente irritado. Sabem aquela coisa de gaudério macho né... Bem por aí. Diz que até beliscão na bunda levou, tava quase mostrando os dentes de tão brabo. Tipo, realmente não era o lugar mais agradável do mundo, mas também não dá pra se irritar por isso. É um lugar que eu com certeza não pretendo voltar, mas acho que valeu.
Essa semana as aulas foram divertidas. Na quinta a professora deu uma lista com 16 gírias. Daí tínhamos que, em duplas, pedir para as pessoas na rua nos explicar quais eram os significados de cada gíria. Muito engraçado! E as pessoas tinham que assinar na folha para provar para a professora que tínhamos realmente feito o que foi proposto. Ah, e cada pessoa não podia explicar mais de 2 gírias, então tínhamos que, no mínimo, "entrevistar" 8 pessoas. Daí fui eu e a minha colega russa - que é um estrondo: exportada pela Sibéria, loira, deve ter 1,85, olhos mais que azuis... - lá no St. James Park perguntar para as pessoas. A gíria mais engraçada que eu achei era "a bun in the oven", cuja tradução literal é "o pão dentro do forno", e aqui se usa pra dizer quando uma mulher está grávida. Tipo, "a fulaninha lá, tu sabia que ela está com o pão no formo?" Hahahah. Daí na sexta-feira teve um quis, uma competição entre várias turmas da escola. Tava bem legal também. O meu grupo ficou em quarto lugar.
Quanto ao trabalho, continua tri. Na verdade essa semana (de terça a quinta) foi meio parado. Acho que aqui começaram as aulas essa semana, daí a noite tava meio vazia durante a semana. É meio óbvio né, as aulas começam e a gurizada se aquieta um pouco. Mas sexta e sábado tava bem bom. Ontem levei um casal pro mesmo hotel que eu fiquei na primeira vez que vim para cá, em 97. Também dei carona pra uma senhora grega que já tinha ido para Porto Alegre. Eu perguntei por que, e ela disse que foi a trabalho e explicou umas coisas lá que eu não entendi nada. Só sei que ela disse ter gostado bastante de Porto Alegre.
Na sexta dei carona pra 3 garotas muçulmanas, uma era iraquina, as outras da Arábia Saudita. Na real elas eram 5 ou 6, foram 3 na minha bike e as outras com outro rider - rider é o caroneiro, como eu, por exemplo. Daí elas queriam ir de Leicester Square até o Ritz, que é um hotelzão que tem na Piccadilly Street. E elas não perguntaram o preço -porque o normal é dar o preço antes da corrida - e simplesmente sentaram e falaram pra eu levá-las. Daí elas foram cantando umas músicas árabes e os caras na rua tudo ficavam olhando; elas eram muito bonitas. As mulheres de decendência árabe e indiana são muito belas, eu meio que já sabia isso antes de vir pra cá, mas não imaginava que era tanto assim. Então fui pensando no preço da corrida, numa dúvida cruel se cobrava 5 ou 6 de cada uma. Tipo, o preço mais correto seria 5 pounds, pois era uma corrida curta, mas o meu lado mais capitalista dizia: "Não! Essas gurias têm dinheiro, tão no Ritz, cobra 6 que não tem problema!". E eu naquele dilema e tal... Tá, chegamos ao hotel e eu disse: "é 6 pounds por pessoa". Daí desceram da bike e uma delas pegou a carteira pra sacar o dinheiro. E foi aí que a outra disse: "Tá, dá 40 pra cada...". Quarenta pra mim e quarenta pro outro cara que tinha levado as outras gurias!!! Daí os meus 18 (3x6) pounds capitalistas viraram 40!!!!! Viva o Iraque!
Então era isso. Um grande abraço, com saudade,

5 de setembro de 2008

6.ª SEMANA: Contratempos e Um Abraço

Olá! Mais uma semana se passou e aqui estou eu de novo na frente do PC para contar as novidades. Aqui continua fazendo dias lindos, muito sol e um calorzinho bem bom, quase sempre noites estreladas. E aqui, quando há nuvens no céu à noite, elas ficam avermelhadas, tamanha é a luminosidade da cidade. Essa noite ainda acordei e olhei para fora - porque no nosso quarto a cortina tapa três quartos da janela; até tentamos improvisar alguns lençóis para o resto, mas não deu muito certo, de forma que temos um despertador altamente biologicamente correto, que é uma coisa chamada sol - e estava uma noite muito avermelhada. Mas isso deve acontecer em qualquer cidade grande.

Houses of Parliament


Como havia contado para vocês, mudei minha turma, pois não estava gostando das aulas do antigo professor. E daí essa semana os professores tinham que escolher quais alunos iriam trocar de nível. Pois bem, pra resumir a história, a professora da minha nova turma não me trocou porque disse que não tinha dado tempo de observar se a minha gramática era boa. Conclusão: se eu tivesse continuado na turma antiga tenho quase certeza que eu seria promovido, pois o Marcus e outros ex-colegas foram. Tipo, não querendo ser prepotente, mas eu sei que eu poderia e até deveria trocar de nível, pois acho que aprenderia mais coisas nas aulas. Óbvio que todo dia se aprende alguma coisa, mas é que nas últimas duas semanas eu notei uma grande melhora na minha fluência, e como na aula tem muita conversação, eu acabo tendo que conversar com uns colegas que são muito fraquinhos. Mas, paciência. Agora acho que vou ter que esperar mais umas quatro semanas até a próxima rodada de trocas de níveis.

London Eye e Houses of Parliament


Na sexta-feira eu estava trabalhando, levando duas senhoras pra dar uma volta - perigosa esta frase. Elas eram italianas, não me lembro direito o nome da ilha em que moravam. Eu sei que não falavam italiano, era um dialeto que pra mim não tinha nada a ver com italiano, tava mais pra turco ou hebraico do que italiano. Mas eu perguntei pra elas e disseram que era muito parecido com italiano e era a língua que se falava na ilha delas. Bom, daí eu já tinha passado pelo Big Ben e London Eye e tava indo em direção a Waterloo Bridge, que é a ponte que tem a melhor vista de Londres, à noite então é espetacular! E nessas, no meio do caminho, minha bike estragou. Eu pedalava e ela não saia do lugar. E não era a correia que tinha caído nem nada. Parecia um problema no rolamento da roda de tração - apesar da bike ter duas rodas traseiras, a tração é só em uma. Bá, daí vi que não ia conseguir arrumar, as senhoras obviamente também viram, e tive que deixá-las no meio do caminho. Pelo menos elas tavam de muito bom humor e até me deram 10 pounds. Tipo, o preço da corrida eu acho que seria uns 25 pounds, mas elas se quisessem poderiam nem me dar nada... Daí tive que levar a bike caminhando até a garagem, uns 40 minutos de caminhada. Mas esse não foi o problema. A grande m.. foi que acabei trabalhando só 4 horas na sexta, que é um dos dias que dá pra fazer muita grana.

Jubilee Bridge


Bom, na sexta quando eu saí da escola eu já tava meio chateado por não ter trocado o nível. Mas daí pensei: "Esquece isso que agora tu vai ganhar muita grana! Vamos lá guri!" Muita grana uma pinóia...
Mas eu ando bem fly mesmo... Não seria isso que tiraria meu bom humor, até porque sábado prometia ser um grande dia, pois é o dia mais busy da semana. Daí pensei em começar as quatro da tarde, só que a minha bike tava estragada e o cara tinha ficado de arrumar para as 5 e meia. Bom, o cara me enrolou e no fim comecei a trabalhar só às sete. Daí tava trabalhando e tal, até que duas gurias pediram carona. Elas queriam dar uma volta no Soho para procurar alguém, depois pediram para parar numa phone box, depois pediram para passar no Trocadero e tal... Tudo aquilo tava muito estranho e eu comecei a sentir que aquelas duas no final iam dar no pé sem pagar. Dito e feito, pediram pra eu deixar elas em Trafalgar Square e quando chegamos lá e pedi o dinheiro, elas falaram que tinham que encontrar o namorado de uma delas para pegar a grana. Daí já saquei tudo, eram umas baita varzeanas! Começaram a cair fora e eu até que consegui segui-las, pois elas não estavam correndo. Mas numa situação dessas eu não tenho muito o que fazer, pois não tinha um policial por ali. Na real eu até que podia ter pegado alguém de testemunha, mas rateei. Tipo, segurar elas a força não dava, eu ainda podia ser até preso por isso, pois alguém podia ver, não entender a situação e elas provavelmente iriam gritar. Na real eu tava afim de dar uma bocha na cara de cada uma, eram umas trouxas, mas quem me conhece sabe que é difícil me tirar do sério.

Esquilo no St. James's Park


Bá, daí eu fiquei chateado pra caramba. Não só pelos 20 pounds que eu tinha perdido (eu ia cobrar 20 delas), mas pela situação em si. Fiquei me sentindo um idiota. Mas ainda era cedo, tipo 10 e pouco, e ainda tinha muito tempo pra me recuperar (psicológico e monetariamente).

Postes floridos, black cabs, ônibus londrino e o Big Ben


Pois estava eu em Piccadilly Circus e peguei 3 clientes que queriam ir pra Waterloo Train Station. Só que eles tinham pressa, porque precisavam pegar o trem e já era 11 e meia. Daí me perguntaram quanto eu demoraria e eu disse 20 minutos. Eu teria que me puxar pra fazer em 20 minutos, pois a estação era meio longe, do outro lado do rio, e o trânsito no centro tava complicado. Daí o cara pensou, pensou e tá, embarcaram os três. O cara, sua senhora e um outro mais novo que de repente era filho, sei lá. E eles tavam de bom humor e tal, provavelmente um pouco borrachos. Eu, que não tava muito cansado pois tinha trabalhado pouco na sexta, fui fazendo meu máximo, afinal os caras tinham que pegar o trem e o caminho era longo. E pensei: "Bom, esses caras já estão de bom humor - geralmente essas pessoas já dão boas gorjetas -, se eu conseguir levá-los em 20 minutos eles vão me dar mais gorjeta ainda!" Daí tava me puxando e no meio do caminho a bike estraga de novo. Puta que pariu! Uma das correias (há duas na bicicleta) tinha caído da coroa do meio e da coroa traseira. E eu tentando arrumar a milhão, me enchendo de graxa e não conseguia, e os caras nervosos pois iam perder o trem. E eu dizia: "One minute more, just one". Até que os caras resolveram sair e pegar um táxi. Na real eles tavam super alegres, pois viram que eu tinha feito o máximo mesmo... Daí o cara me deu 20 pounds (a corrida era de 36 pounds) e me perguntou se era o bastante. Eu falei que claro que era e tal. Então saíram correndo em plena Strand atrás de um táxi.
Mas eu não ia perder pra uma correia caída de bicicleta né. Tentei, de um jeito, de outro, quase cortei minha mão e pronto! Consegui! Saí a milhão atrás dos caras, eles tavam lá na frente, um de cada lado da rua tentando conseguir um táxi. Fui lá, chamei-os, subiram na bike e lá fomos nós again! Quando os caras subiram já estava em 16 minutos (eu estava marcando no relógio). Bom, daí atravessei a ponte pedalando como nunca antes, doing my best! No fim deixei os clientes na estação com 20 minutos e trinta e poucos segundos, eles e eu felizes pra caralho! Todos riamos e o cara tirou outra nota de 20 e me deu. Eu derretendo de suor e a senhora me deu até um grande abraço! Gente boa eles! Lá foram eles pegar o trem e eu fiquei de ânimo renovado. Depois de tantos imprevistos eu tinha me recuperado. Primeiro porque a noite não tava muito boa, e eu pulei de 47 pounds pra 87, o que é uma grande diferença. Mas nem tanto pelo dinheiro, aquilo tudo me deu um gás a mais. Voltei literalmente reciclado pro centro da cidade. No fim meu sábado acabou pelas 3 e meia da manhã, com uma Stella Artois na mão - que uns clientes tinham me dado -, e 138 pounds no bolso.
Yours sincerelly, with saudade (as you know, there is no translation to this word),


Thomas

1 de setembro de 2008

5.ª SEMANA: Uma Ride com os Amigos

Caros amigos e familiares:

Olá pessoal! Começo a escrever, já na na madrugada de quinta-feira, este que será o e-mail da quinta semana... Está um pouco atrasado, mas acabou não sobrando tempo para escrevê-lo antes.
É que a semana foi cheia, aliás, como tem sido todas as outras. Por sinal acho que eu tenho o dom de encher minha vida de coisas e não conseguir dar conta de tudo. Os que me conhecem melhor sabem que era assim no Brasil, e aqui não tinha porque ser diferente.
Mas realmente a semana foi cheia. A começar pelo fato de que, finalmente, consegui uma bicicleta só para mim. E isso é muito legal! Agora eu pago por semana (100 pounds) pelo aluguel e posso usar o dia e a hora que eu quiser. E se eu não quiser não preciso usar também, só que o pagamento tem que ser feito toda semana. De repente eu não tenha sido claro nas outras vezes que escrevi sobre isso, mas nesse trabalho eu não tenho chefe. Tipo, tem dois caras lá que são os donos da empresa (ou seja, das bicicletas), mas eles não chegam a ser meus chefes, pelo simples fato de que eu não tenho dia nem hora obrigatória para trabalhar. Se eu quiser pagar pela bicicleta e usá-la um ou dois dias, não tem problema. E isso é super bom, porque me dá margem para escolher meus dias de folga. Assim, quando tem algum show, festa, ou simplesmente quando estou cansado e não estou a fim de trabalhar, não sou obrigado. Esse é uma das grandes sacadas desse meu trabalho.
Mas apesar dessa liberdade, nesta semana eu trabalhei todos os dias, de segunda a domingo, sem exceção. Daí na segunda, que aqui era feriado, eu me dei um dia de folga. Mas também pudera, depois de ter trabalhado 7 dias seguidos (só no sábado foram dez horas!), minhas pernas imploraram um day off. Mas acho que não gostaram muito, porque no fim aproveitamos o feriado para uma roda de violão no Regent's Park e depois ainda fizemos uma noitesinha no Walkabout, que é um pub no qual toda gurizada brasileira que mora já foi pelo menos uma vez... Segunda os caras fazem uma promoção de um pint (576 mL) de cerveja por 1 pound. E isso é muito barato, pois o preço normal aqui é mais ou menos 2,20 - a ceva mais barata. Daí, obviamente, onde tem coisa barata tem brasileiro. Bom, no fim de tudo isso as pernas não gostaram muito, pois tiveram que se agitar em pleno dia de folga. Mas tanto o parque quanto a balada estavam bem legais. E com descanso ou sem descanso, é isso que importa.


Belezas do Regent’s Park


Galera no Regent’s pra descontrair

Na semana passada eu meio que me irritei com as aulas do meu professor e pedi para trocar de turma. Não me irritei com ele, não discuti nem nada. Mas não estava gostando do modo com que ele dava as aulas. Muito paradas, só conversação, sem nada de escrita e gramática. Daí, depois de insistir, me mudaram de turma e a nova professora é bem boa. Ou seria uma boa professora? Both.
Outra coisa bala que aconteceu é que meu primo italiano, Dany, chegou em Londres. Ele veio morar novamente aqui; havia morado durante 6 meses, depois foi pra Nova York fazer um treinamento e voltou agora. Daí no domingo trabalhei durante a tarde e me encontrei com ele e com os guris (Marcus, André e Lelo, que haviam trabalhado em um hotel no centro da cidade) para darmos uma volta na minha bike. Primeiro dei umas voltas com eles por Trafalgar Square, Big Ben, London Eye... Depois compramos umas cervejas e fomos para o Covent Garden para fazer nossa janta - o sanduíche sagrado de todo dia! - ao ar livre, sentados no meio-fio, assistindo a um show de um cara muito bom que costuma tocar lá. E assim ficamos confraternizando o final de uma grande semana de trabalho e, por que não, a provável inclusão de mais um grande amigo na roda de amigos. E um de peso, pois apesar do Dany arranhar um português, aproveitamos para afiar o nosso inglês ao conversar com ele. E tudo acabou com eu pedalando minha rickshaw no meio da selva bancária da City - essa eu me puxei hein... -, para levar meu primo no flat temporário que ele está ficando. Nessas alturas o Marcus e o Lelo já tinham debandado. Depois de largar meu primo, ficamos eu, pedalando a bike em direção à garagem, e o André, de navegador, atrás, sentado e enrolado no cobertorzinho que tem para os clientes se taparem... Vocês tinham que ver a cena.


Eu, Dany, Lelo, Marcus e André no Covent Garden


Por falar em frio - que o André passou aquele dia -, os dias aqui tem sido uns melhores que os outros. Só sol e calor... E calor mesmo! Alguns dias, como hoje, a temperatura certamente tem chegado aos 30 graus. Quase sempre de noite bate um vento e dá uma esfriada, mas durante o dia tem feito bastante calor. E por falar no clima, semana passada, mais precisamente na segunda, peguei meu primeiro dia de chuva no trabalho. E daí deu pra sentir o drama... E isso que foi só uma horinha e chuva fraca ainda. Mas foi o bastante para encomodar. No entanto só tenho motivos pra comemorar né, afinal já estar quase fechando a quarta semana de trabalho e ter pegado apenas um dia chuvoso é muita sorte mesmo!
Acho que era isso. Não prometo nada, mas vou tentar enviar algumas fotos já na semana que vem. Enquanto isso exercitem a imaginação criando os cenários e cenas para as histórias que conto para vocês. Talvez a realidade da imaginação seja mais interessante do que a ficção das fotos. Ou não.
Grande abraço, com saudade,



Thomas