Longe de Casa é um convite para você sentar-se confortavelmente na cabine de uma bicicleta-táxi e se deixar levar pelas ruas de Londres e da Europa. Dando o rumo dessa aventura, um estudante brasileiro de 21 anos que resolve dar um tempo de sua rotina em Porto Alegre e, junto com alguns colegas de faculdade, abrir a cabeça para novas experiências de vida no Velho Mundo. Se você procura um guia de viagens sobre a Europa e Londres, talvez este blog possa lhe ser um bom thriller de aventura. Para quem quer divertidos contos, de repente se depare com boas indicações musicais. E se você é um jovem que também pensa em passar por uma experiência em algum lugar no exterior, o que você encontrará aqui não apenas lhe fará rir ou trará boas dicas turísticas, sobre bandas e cantores: além de informação e entretenimento, os posts deste site aos poucos tentarão lhe mostrar uma outra maneira de enxergar as coisas. A maneira como alguém de 21 anos encara a vida longe de casa: aprendendo sempre.

30 de outubro de 2008

14.ª SEMANA: De bicicleta nova pelas ruas londrinas

Nesta semana, mais precisamente dia 25, fez 3 meses que estamos aqui. Três meses de uma vida que vai sendo levada a muitas e muitas pedaladas. Os joelhos e as coxas não tem gostado muito, eu sei... Mas o bolso tem sorrido diariamente e, conseqüentemente, eu também. Mas não fico contente só pela grana, este trabalho é muito legal mesmo! Nos dias de semana nem tanto, pois às vezes fico muito tempo sem pegar nenhum cliente e se torna um pouco tedioso. Mas só um pouquinho mesmo. Em compensação nas sextas e nos sábados é muito bala. Tenho trabalhado 12, 13 ou 14 horas em cada sábado, me canso muito mesmo. Mas recompensa bastante, me divirto muito, pago as contas e, o mais importante, gosto do que faço. Além disso, como vocês sabem, não sou só eu, agora somos um time de riders! Inclusive, a partir da próxima semana increvelmente teremos mais um jogador, um daqueles que ninguém mais acreditava que ia entrar em campo: o André! Pois é, não é que o cara resolveu largar a vida de garçom e cair no transport business. Então só pra recapitular, agora somos eu, o Rafa, o Chico, o Marcus, o Lelo, o Gabriel e o André! Estes são os mais próximos, os que vieram junto ou na mesma época que eu. Tem mais vários brasileiros que trabalham como riders. Sempre relembrando que só aqui em casa agora moram 5 deles... Time da pesada!
Ganhei uma bicicleta nova, bem melhor e mais bonita, 0 Km! Para mim, de todos os diferentes modelos de rickshaws que existem, ela é o mais bonito. É como se eu tivesse a Ferrari das rickshaws! Só que sem o motor da Ferrari, pois os cavalos das minhas pernas provavelmente não chegam perto dos cavalos das pernas dos caras que são riders há anos. Quando der vou tirar umas fotos dela pra mostrar para vocês. Da bicicleta, por supuesto.
Essa semana compramos os ingressos para o show do Jack Johnson no dia 1.º março. E tivemos que comprar para o show em Birmingham (uma cidade inglesa), pois os ingressos para os 2 shows em Londres, também em março, já haviam acabado. É, aqui os caras tem uma certa ânsia por tempo, no sentido literal da palavra. Sei lá, é uma coisa cultural, na cidade existem lhões de relógios públicos, daqueles de ponteiro mesmo, que ornam os edifícios e tal - mas termômetro, tipo os que povoam Porto Alegre, eu não encontrei nenhum ainda. Os caras já estão vendendo agora ingressos para um show que o Bon Jovi vai fazer em junho do ano que vem, no novo Wembley Stadium, que nem está pronto. Imagina só, provavelmente devem ser uns 80 mil ingressos e os caras já estão vendendo. Não contentes, os restaurantes já estão com plaquinhas oferecendo reservas para Natal e Ano Novo. Pelo jeito, pontualidade britânica se faz com muito planejamento de longo prazo.
Minha nova bike

Por falar em tempo, agora no outro sentido da palavra, esta semana fez 21 graus numa cidade por aqui, e essa foi a temperatura mais alta para essa época do ano em 117 anos, pelo menos é o que dizia o jornal. Em compensação os caras tão prevendo o inverno mais frio da década. Na reportagem dizia que alguns especialistas estão prevendo o inverno mais frio em 40 anos, com temperaturas médias de 0ºC. Ui...

Dando uma banda de bus


Ontem acabou o horário de verão aqui, e como agora começou o de vocês aí, agora só duas horas nos separam. Vou aproveitar para não falar tanto de mim e contar algumas coisas que estão acontecendo por aqui. Essa semana foi aprovada uma lei que proíbe fumar em restaurantes e PUBs que servem comida. E isso tá sendo tri discutido aqui. Tipo, paraece que já estavam há 3 anos discutindo sobre o negócio - no Brasil se diria que está "tramitando na câmara" - e agora tá decidido. É que aqui as coisas são um pouquinho diferente que no Brasil. Imaginem só, os PUBs é como se fossem uma instituição nacional. É mais ou menos como o nosso buteco aí. Tentem contar quantos butecos temos aí, daqueles que servem cafezinho em copo de vidro canelado e pastel feito na gordura quinzenal. Pois tantos são os PUBs aqui quanto os butecos aí. E daí mexer com as regras dos PUBs não é trivial.
E uma última notícia que achei interessante, e assustadora também - como vocês podem ver, essa semana deu tempo de ler o jornal, não sei por que -: 25% da população britânica bebe mais que o dobro do valor máximo diário recomendado pelos médicos. O valor máximo diário recomendado é o equivalente a 3 cálices de vinho para mulheres e 4 pints (um pouco mais de 2 litros) de cerveja para homens. E ainda dizia que dois terços destes 11 milhões de pessoas (25%) insistiam em dizer que a sua dieta alcoólica era saudável. Imagina só, significa que esses 11 milhões consomem uma média de mais de 4 litros de cerveja por dia - ou o equivalente em outra bebida -, se considerarmos a dieta masculina. É aí que vejo que os meus 2,9 litros diários são inofensíveis.

Battersea Bridge

Tower Bread (o da esquerda é o meu, da direita, o do Lelo)


Mas então é isso. Para colorir um pouco mais esse e-mail, que ao meu ver está tão pobre, estou anexando algumas fotos bem variadas, tiradas ao longo destes 3 meses. Antes que alguém pergunte, o sanduíche não é meu, e sim do Lelo. Ele carinhosamente o chama de "Tower Bread". Sabe como é, o cara é surfistão nato, a barriga pede... Mas a vida de rider é assim mesmo, carboidratada. O meu sanduíche diário é bem mais simplório, feito com 3 singelas fatias de pão integral. Um grande abraço,


Thomas

25 de outubro de 2008

13.ª SEMANA: Uma noite em Putney

E não é que a fubica aqui de casa voltou a funcionar! Na verdade a nossa landlady trouxe outro monitor, pois era ele que tinha estragado na real, e agora está tudo bem. Na verdade agora está melhor, pois ela trouxe uma tela LCD de 17", bem melhor do que a outra. E por falar em fubica, não posso deixar de registrar a definição da palavra - enviada pelo Scapin, ex-colega de colégio e amigão de Porto Alegre -, visto que eu havia dito não ter idéia do que se tratava: fubica vem do latim fubicus, que quer dizer "coisa velha que ainda funciona, usa e não reclama". Então tá; ele não deixa de ter razão.
Semana passada esqueci de contar para vocês que havia comprado a minha passagem para Paris, para passar o ano novo lá. Saio de Londres dia 30 de dezembro pela tarde, e precisamente 2 horas e 41 minutos depois estarei no centro de Paris, tudo isso graças a uma coisa chamada Eurostar. Digo isso porque é muito mais simples fazer Londres-Paris - ou vice-versa - de trem do que de avião. O Eurostar sai do centro de Londres e chega no centro de Paris. Já para ir de avião, além de ter que chegar antes para check in e tal, todos os aeroportos são afastados do centro, o que gera mais tempo despendido em transporte, e conseqüentemente mais dinheiro as well.
Essa semana comprei o tour que vou fazer com mamãe, vovó e maninha, pela Itália em Janeiro. E hoje eu e os guris tivemos uma reunião e decidimos sobre nossa viagem também. Não sei se eu tinha comentado, mas eu estava pensando em passar uns 10 dias em Paris depois do ano novo. Mas mudei meus planos e decidi fazer a viagem que os guris vão fazer pela França. Então, até agora os meus planos são os seguintes: Dia 30 chego em Paris e me encontro com eles (Lelo, Marcus e André), que estarão vindo da Bélgica. Em Paris ficaremos até o dia 5. Neste dia começa nossa tour pelo interior da França. Um tanto quanto pequena, é verdade, mas acho que será bem legal. Vamos alugar um carro e fazer o Vale do Loire, Bordeaux e a Côte d'Azur, o que inclui Nice, Cannes e Mônaco. Daí no dia 10 os guris vão pra Veneza e o meu tour com a família pela Itália começa apenas dia 13 de janeiro. Então agora eu tenho a árdua tarefa de escolher onde vou estar do dia 10 ao dia 13. So, dia 13 começa o tour em Milão e só volto para Londres no finalzinho de janeiro, still with the family. Then elas passam mais alguns dias aqui comigo em Londres e depois disso, já em pleno fevereiro, enquanto vocês se preparam pra cair na folia do carnaval, eu caio na realidade novamente e retorno minha vida aqui em Londres, provavelmente numa Londres que estará tristemente escura e fria, tal como o inverno há de ser.
Hoje é segunda-feira e, como todas as outras, minha folga. Pois então fui parar num Pub muito roots, raçudo mesmo. Digo que fui parar porque na verdade o meu destino era outro. Aproveitando que era meu day off, recorri à Time Out, aquela revista a qual havia comentado few weeks ago, e que fornece a agenda cultural, e encontrei um showzinho de jazz que ia rolar de graça num lugar chamado Boat House, em Putney, bairro que não ficava tão perto do centro asssim. Daí convidei o pessoal lá na escola e ninguém quis ir, pois era longe e tal, e daí eles acabaram indo prum Pub ali perto da escola. Mas convidei uma colega minha colombiana e ela achou legal, e daí nós fomos: eu, ela, e um amigo colombiano dela. Pegamos o metrô, descemos na estação que dizia que era mais perto, atravessamos o rio e tal. Chegamos no tal do Boat House, que era um bar muito legal, na beira do rio, e o cara disse que o show tinha sido cancelado havia duas semanas. E agora, José? Pô, tinha feito os colombianos me acompanharem até lá e o programa tinha furado. Tá certo que não era minha culpa, a revista que não tinha atualizado o negócio, but... Mas daí enquanto eu falava com o garçom e ele me explicava que não ia ter o show, um tio que tava ao lado pegou e me disse: "Olha, se vocês querem música vão lá no Half Moon, que é um Pub onde até os Stones já tocaram e é aqui pertinho e tal", e me explicou onde era. Então procuramos o tal do Meia Lua e não é que encontramos?! Chegamos lá e era um Pub muito bala mesmo, exalando rock'n roll pelas paredes. Um tanto diferente dos Pubs do centro da cidade, pois os Pubs de West End são bem arrumadinhos, cuidados e tal, apesar de alguns serem bicentenários ou mais. E geralmente os Pubs fora do centro, como é o caso deste, são mais raçudos mesmo, algo mais "born in London, alived in London and for the londoners". Entramos lá e a garçonete disse que ia rolar um showzinho acústico que ia começar às 9h. Era 7 e meia e estávamos com fome. Como no Pub não tinha comida, saímos a procura de algum lugar e sentamos em um italiano bem simpático. Então saboreamos uma pizza Quattro Formaggio, onde boiavam gorgonzolas provavelmente maturados em rústicas fazendas italianas, uma delícia! Tudo acompanhado de um tinto italiano, é claro. Assim pude conhecer melhor os dois colombianos, pessoas muito interessantes. Ela, estudante de arte e filosofia na Colombia, veio pra cá assim como eu, passar um tempo, aprender inglês e abrir a cabeça, para depois voltar. Ele, engenheiro formado, morando aqui há um ano e meio e atualmente fazendo o seu MBA. E então dissertamos sobre América do Sul e Europa e todos os caminhos e diferenças que podem existir entre uma e outra. Papos do tipo “eu sou apenas um rapaz latino-americano...”
E lá pelas nove voltamos ao Pub e assistimos ao show, eu acompanhado de uma ruiva ale, e eles de loiras belgas, as Stellas. Na verdade não foi um show, mas vários. Tipo, cada um subia ao palco e tocava umas 3 músicas, só voz e violão, em um lugar e clima bem intimista. O show era numa sala anexa ao PUB, bem escura, acarpetada, com mesas e não mais do que umas 70 pessoas. E os músicos só tocavam músicas próprias, nada de cover, o que não afetou a qualidade do show: as canções eram realmente boas, e conseqüentemente os músicos também. Depois falei com a garçonete, e ela me disse que além dos Stones, que tinham se apresentado lá nos anos sessenta, mais um monte de gente tinha tocado lá. E quando ela falou isso ela apontou para as paredes, que estavam crivadas de quadrinhos com fotos de músicos: Stones, Mark Knopfler, Peter Frampton, U2, Pete Townshend, Roger Waters, Rod Stewart, Rick Wakeman...


Qaudros com as bandas que passaram pelo bar

Half Moon, Pub em Putney

Apesar dos meus relatos apenas sobre viagens e boa vida, não pensem que tudo vem tão fácil assim. No último sábado, por exemplo, trabalhei quatorze horas seguidas na bike. Mas pelo menos quase virei lenda de novo... Um grande abraço, com saudade,

Thomas

18 de outubro de 2008

12.ª SEMANA: Tango-bixo-bolero-man

Ol'a! E aqui estou eu mais uma semana! Mas desta vez nao mais no computador de casa. Agora a "fubica" estragou de vez, da'i estou aqui no internet caf'e para escrever para voc^es, e como j'a devem ter notado, aqui o teclado nao est'a configurado para portugu^es, logo, os acentos saem como ele bem entender.
Bom, hoje 'e terca-feira e eu acabo de chegar de Oxford. Mas dessa vez n~ao de Oxford Street, e sim de Oxford mesmo, a cidade! Passamos o dia l'a e estava muito bom! Fomos eu, o Andr'e, Marcus, Lelo, a Ismara e Lel^e, nossas duas amigas mineirinhas. Fomos de ^onibus, sa'imos as 6 da manh~a aqui de Londres, o que significa que acordamos as 4 da matina pra pegar o metr^o as 5 e sem atraso conseguir pegar o ^onibus as 6 da manh~a. Um detalhe interessante 'e que n~ao pagamos nada pelas passagens. Na verdade tivemos que pagar 50 centavos de libra, que correspondem `a taxa de reserva, algo que na verdade 'e simb'olico. E ent~ao passamos o dia l'a, visitando as universidades e tudo mais. Tudo mais n~ao, porque na verdade praticamente a cidade 'e s'o as universidades mesmo. Mas s'o elas j'a valeram a viagem! Oxford na verdade tem 39 universidades que funcionam quase independentemente. Na verdade existe uma instituic~ao que congrega todas elas, mas que na verdade eu n~ao sei pra que serve. Fizemos uma visita guiada por algumas das universidades e o guia tentou nos explicar, mas n~ao deixou muito claro - ou de repente eu 'e que n~ao achei o ingl^es dele muito claro. Inclusive estivemos no local onde foram gravada algumas das cenas do Harry Potter, que na verdade 'e o refeit'orio de uma das faculdades.

Refeitório do Harry Potter, esperando estudantes para o jantar


Lelê e Ismara na frente, Marcus, André, Lelo e eu atrás




Cenas oxfordianas


Eu, Marcus, André, Lelo, Lelê e Ismara


André e eu em Oxford

No final do dia de turist~oes que tivemos, resolvemos ir a um PUB que o nosso guia tinha nos mostrado e dar de mais turist~oes ainda. Muito bala o PUB! Tri "mocado", como o Lelo falaria... Era num lugar escondid~ao mesmo, que n'os nunca ir'iamos desbobrir n~ao fosse o nosso guia. Era numa casa torta, antigona, com um p'e direito um tanto menor que os meus quase um metro e noventa. Os muitos avisos de "Mind the Head" n~ao foram o suficiente para evitar que, depois de alguns pints, l'a pelas tantas, eu batesse o cabec~ao em uma das vigas seculares de madeira. E da'i, l'a, al'em de provar excelentes ales e uma consagrada Guiness, me dei ao direito de, pela primeira vez em quase 3 meses de Londres, fazer uma Refeic~ao (com "R" mai'usculo mesmo) em um restaurante - paga por mim, pois meu primo outrora j'a tinha me oferecido uma janta em um italiano da City. Comi um caneloni com espinafre, mushrooms, molho bechamel e queijo, muito queijo, que estava estupendo! Mais ainda pelo clima do momento: great friends em um great place apenas enjoying the youth!
Durante esta semana tivemos mais uma agregação: o Gabriel, colega meu l'a na escola, foi morar l'a em casa com sua namorada. Agora dos 3 que 'eramos inicialmente j'a somos 5 (Marcus, Andr'e, Lelo, Gabriel e eu)!
Ontem, o Andr'e e eu fomos no IMAX, um cinema em terceira dimens~ao, assistir a um filme chamado "Walking on the Moon". Muito interessante! O cinema 'e do arco, a tela tem 20 x 27 metros e 'e 10 x maior do que uma tela comum de cinema. O sistema de som tem 12000 watts de pot^encia e 'e realmente o melhor que eu j'a vi ouvi! E os efeitos 3D eram realmente perfeitos. Eu j'a tinha assistido a outras coisas em 3D, mas esse me pareceu mais perfeito, E al'em de tudo isso, o filme era realmente bom: um document'ario que contava toda a hist'oria do programa Apollo e que faz o expectador sentir-se como se realmente estivesse caminhando na lua.

Holland Park, Londres

Agora a sec~ao "Hist'orias de um rickshaw rider":
Tinha eu levado um cliente para um hotel perto de Victoria Station. Victoria Station 'e uma das grandes estac~oes de trem que existe na cidade, e 'e um lugar um pouco afastado do centr~ao. O raio de ac~ao de um rider n~ao 'e muito grande, se comparado ao tamanho da cidade, que tem 7 milh~oes de habitantes. Isso quer dizer que eu at'e levo passageiros para outros lugares que n~ao sejam os mais centrais (Covent Garden, Leicester Square, Piccadilly...), mas n~ao muito longe. Pois ent~ao Victoria 'e um desses lugares que 'e meio termo, n~ao 'e nem grudada em Piccadilly Circus nem t~ao afastado assim, afinal j'a levei pessoas em lugares consideravelmente mais longe. E da'i, quando se faz essas corridas um pouco maiores, 'e bom porque obviamente s~ao corridas mais caras e, al'em disso, os clientes geralmente notam o esforco despendido e tendem a dar mais gorjetas. Mas o ruim 'e que depois se perde um longo tempo voltando para o "centro" e geralmente sem clientes, pois n~ao 'e grande a probababilidade de conseguir um cliente em Victoria ou em outro lugar afastado. Poi ent~ao voltava eu de Victoria quando, numa rua bem deserta, j'a talvez uma da madrugada, vejo um senhor saindo de um bar ou restaurante e, como de costume, largo o meu jarg~ao: "Do you want a ride?" O v'eio tava saindo do lugar e, ao que me lembre, era a 'ultima pessoa. Acho que ele estava literalmente fechando o restaurante... E ent~ao ele respondeu algo como: "Yes!" Eu j'a tinha passado uns bons metros em minha inércia, pois quando perguntei estava andando. Então parei e ele veio em minha direc~ao. A cena: o gentleman tinha seus bons quase 70 anos e carregava em sua m~ao direita um copo com gelos imersos num l'iquido transparente. Ele parecia um misto de bixeiro e cantor de bolero ou tango, n~ao sei bem. Vestia o seu palet'o, carinhosamente despassado depois de umas que outras, por cima de uma camisa abotoada at'e a metade do peito. Estampada no peito trazia uma pequena tatuagem, a qual n~ao me lembro o contexto, dada a efemeridade da situac~ao. Um cap'itulo a parte do estiloso tio eram seu acess'orios: prateados an'eis, talvez colar e um que outro brinco. Pois ent~ao depois do primeiro jarg~ao vem o qu^e? O segundo jarg~ao, 'e claro: "Hi! Where do you want to go?" E da'i ao iniciar sua resposta pude comprovar o seu grau alco'olico. O bolero-man n~ao chegava a estar caindo de borracho, mas deixava escapar sorrisos e sua l'ingua enrolava o seu ingl^es, que pra mim j'a seria enrolado em condições sóbrias. Ent~ao ele disse que queria somente atravessar a rua na bike e me perguntou quanto era. Eu pensei e disse: "'´E 50p", algo como two and a half reais. Ele sentou na bike e eu perguntei exatamente onde ele queria ir e ele me apontou a esquina oposta (diagonal). Desta maneira, o meu 'arduo trabalho seria atravessar a rua com o bixeiro. Fiz o percurso indicado e ao t'ermino ele desembarcou calmamente da minha bike. Ao pegar sua carteira do bolso pediu para que eu segurasse o seu copo. Assim o fiz e n~ao me conti em perguntar o que havia dentro do copo, pois era transaparente mas eu duvidava que fosse 'agua ou Sprite. A resposta: "Holy Water!" N~ao entendi o que era e repeti, com tom interrogativo: "Holy water?" Ao que ele fez o sinal da cruz e eu entendi que, claro (!), ele estava tomando 'agua benta... 'Agua benta do diabo talvez. Pois ent~ao enquanto eu segurava o copo do tangueiro ele tirou algumas moedas do bolso e deu uma olhada e tal... e eu pensando: "B'a, bem que esse cara podia me dar todas essas moedas..." Devia ter uns quase 3 pounds ali, mas ele voltou a guard'a-las, pegou a carteira e eu pensei: "B'a, o tiosinho quer encontrar uma moeda de 50 centavos mesmo." Pois eis que ent~ao o tango-bixo-bolero-man tira um dez~ao do bolso e simpaticamente estende o braco e me d'a... Para esclarecer, dez pounds equivalem a more or less 45 reais. Consta que o meu sorriso deve ter sido maior do que todos os que o dito cavalheiro tinha dado at'e ent~ao. Pois eu me despedi e j'a estava quase engatando a segunda, quando o senhor meu amigo, em tom de experi^encia, profere a seguinte frase: "One day..." Ao que eu, simples aprendiz, respondi: "Yeah... one day..."
E tomei meu caminho de volta ao centro do centro da cidade. Um grande abraco, com muita saudade,
Thomas

10 de outubro de 2008

11.ª SEMANA: Curtindo Londres

E estou eu aqui mais uma vez na frente dessa fubica - como diria minha mãe, por sinal não faço a mínima idéia do que seja uma "fubica"... - que é esse computador aqui de casa. Mas acho que não devo reclamar dele, afinal sei que é um luxo ter um computador em casa (pelo menos para casa onde moram estudantes brasileiros em Londres). Então nada de reclamar.
Hoje fez um dia muito bonito e deu pra sair de camiseta tranqüilamente. Talvez um último aceno do verão, antes de deixar o frio chegar de vez. Hoje, segunda, como vocês já sabem, é meu dia de folga, então milagrosamente são 10 da noite e estou em casa. Isso não acontece há muito tempo, pois mesmo nos meus dias de folga eu costumo chegar tarde em casa, sempre aproveito pra dar uma passeada em algum lugar, às vezes vamos pra noite, sei lá. O Marcus e o Lelo por exemplo agora estão no Walkabout, que é um pub. O André está trabalhando no bar, e eu achei melhor vir pra casa e fazer algumas coisas mais importantes, como escrever o meu folhetim e pesquisar algumas coisas importantes na Internet. Por falar em "trabalho no bar", agora finalmente estamos todos trabalhando em lugares fixos. O Chico e o Biri já faz um tempo que estão de rider como eu. O Marcus e o Lelo, como falei semana passada, também aderiram à classe. E o André conseguiu pegar a vaga do Lelo no bar e agora está oficial e "fixamente" empregado. Legal isso, finalmente todos estáveis - monetariamente é claro, já que estabilidade psicológica alguns não alcançaram ainda... volta e meia cria-se um divã, quase sempre em plena cozinha, e cada um expõe suas aflições e devaneios para o ouvido alheio mais próximo.
Aos poucos está dando mais tempo (e dinheiro) para curtir as coisas da cidade. Mas não só lugares como museus, pontos turísticos e afins. Tipo, essas coisas óbvias obviamente serão vistas e revistas, mas acho importante tragar ao máximo as coisas que Londres oferece em termos de agenda cultural, como shows, eventos, palestras, e tudo mais que existe aqui. E acreditem, rola muita coisa legal nessa cidade. E não só aqui né. Qualquer grande cidade tem muito a oferecer. Eu pelo menos sempre tentei participar das coisas legais que rolam em Porto Alegre - o que não quer dizer que sempre consegui -, e fui a coisas muito legais, de todos os gêneros. E não é de hoje que pego no pé das pessoas sobre isso. Nunca é tarde pra começar a fazer umas coisas um pouco diferentes. E então nas últimas semanas, dentro do possível - horários e dinheiro -, eu tenho tentado fazer isso. Aqui existe uma grande facilidade, que é uma revista chamada "Time Out", um semanário com toda a agenda cultural; muito, muito completo! Algo que com certeza deve existir em toda grande cidade do mundo. E então na semana passada, por exemplo, fui num concerto especial sobre música barroca na St. Martin in The Fields, uma Igreja que fica em frente a Trafalgar Square - principal praça de Londres -, e que tem uma intensa agenda cultural. O concerto que fui faz parte de uma série de concertos que acontece toda semana e que se chama "Candlelights" (candelabro). Algo como uma pequena orquestra de cordas, acompanhado de um óbvio e chato cravo, tocando clássicos de Bach, Mozart, Vivaldi e outros, em uma igreja que deve ter mais de um par de séculos, tudo isso à luz de velas! Um espetáculo! De repente me dei conta de onde estava e o que estava fazendo e me arrepiei. Ouvir um majestoso Vivaldi em meio a silhuetas de colunas neoclássicas iluminadas a velas... Fantástico! Tipo, pode parecer estranho um cara de 21 já estar nessa de música clássica, mas acho que todos sabem que se eu pudesse eu respiraria música... E de mais a mais, muito ia a concertos em Porto Alegre - só pra não parecer que apenas porque vim pra Europa estou querendo dar uma de intelectual; sem essa né...

Eu em Russel Square Tube Station

Na terça-feira fomos à Abadia de Westminster e na quarta fomos ao Parlamento. Os dois muito legais! Tipo, eu não sei qual é o significado da palavra "abadia" (se é a mesma coisa que igreja ou se tem alguma diferença), o fato é que a tal da Abadia é praticamente um cemitério. É um prédio enorme que foi inaugurado em 1066! Claro que depois disso sofreu inúmeras mudanças e intervenções arquitetônicas. Mas o mais interessante é que conforme os reis e rainhas e princesas e príncipes iam morrendo, eles iam sendo enterrados ali. E aos poucos foram empilhando jazigos e mais jazigos e hoje a famosa Abadia de Westminster deve ser com certeza um dos cemitérios mais bonitos do mundo. Parece piada isso que eu estou falando mas não é.
No outro dia fomos ao Parlamento; além da arquitetura impecável, pelo menos eu estava num lugar no qual quem manda pelo menos são pessoas eleitas pelo povo, e não quem já nasceu com a espada na mão e a coroa na cabeça. É que aqui tem essa história de monarquia e tal e os caras daqui (os ingleses de uma maneira geral) reverenciam muito isso. Claro que hoje em dia a rainha não manda mais em nada - nem nos netinhos dela acho que ela não apita mais -, mas durante séculos obviamente não foi assim. Rei era rei e fim de papo: nascia assim e assim continuava; mandava e tava feito. Então, aqui nos prédios do governo é uma “melação só" pros reis e rainhas, quadros e mais quadros e estátuas e mais estátuas... Mas pelo menos lá no parlamento era um pouquinho diferente. Bem pouquinho na verdade, pois também era cheio de pinturas e estátuas da realeza. Mas lá pelas tantas tinha umas estátuas de um que outro primeiro-ministro. Tipo, o único que eu conhecia era o Churchill, mas acho que um primeiro ministro eleito democraticamente vale mais do que um imperador eleito saguinariamente.

Eu, andré, Marcus e Lelo no Parlamento


Daí eu descobri - pela Time Out - que na quarta-feira ia ter uma palestra entitulada "Projetando a London Eye". E daí o meio-engenheirosinho de plantão obviamente adorou a idéia. Era num lugar chamado "Instituto de Física" e eu mostrei pro André; ambos achamos que o negócio ia ser quente, então depois da aula nos mandamos pra lá. E foi mesmo! Muito interessante! A paletra era do cara que projetou a London Eye - a maior roda-gigante do mundo, 135m de diâmetro, quem quiser saber do que se trata, o site é www.ba-londoneye.com. Ele deu uma palestra de uma hora na medida certa: sem aprofundar muito, mas também não para leigos, de modo que conseguimos entender tudo! Claro que aí não posso deixar de fazer referência aos meus mestres da faculdade, em especial aos professores Segóvia, Masuero e Luiz Carlos (Bis). Não querendo puxar o saco é claro, eles sabem o quanto os considero. Voltando: na plateia só velhinhos – supostamente membros do Instituto - e uma meia dúzia de estudantes como nós. Muito bom mesmo, considerações sucintas sobre todas as partes do projeto. Mais ainda porque, no final, ainda filamos um rango po lá - êta gaudério grosso esse tchê! Camarãozinho à milanesa, franguinho empanado e vinho branco. Uhuuuu, o ouro!
E então no sábado o que eu fiz? Realizei um grande sonho: fui ao Royal Albert Hall, o teatro mais grandioso e provavelmente o mais bonito de Londres. É o local onde foi gravado aquele show "Music for Montserrat" - o pessoal da turma do colégio sabe do que estou falando. Eu tinha muita vontade de ir a um show lá e então consegui unir o agradável ao mais agradável ainda. Fomos o André, Dany, Lelo e eu, assistir às "Quatro Estações" de Vivaldi no sábado à noite. Wonderful! O Teatro é enorme e belíssimo e o Vivaldi era mesmo O Cara! Arrepiante! Os músicos estavam todos vestidos a la Sgt. Peppers e com perucas. E como eu e o Lelo estávamos trabalhando no sábado à tarde, fomos de bicicleta para lá (na chuva!), estacionamos nossas bicicletas mais ou menos como os outros expectadores estacionavam suas Mercedez, e assim adentramos ao teatro, que é o rei dos teatros de Londres. Entramos vestidos de rider mesmo e molhados com um misto de suor e água da chuva. E muito felizes! Logo que acabou o teatro saímos correndo, mais felizes ainda, pegamos nossas bikes e demos carona para o pessoal que saia do teatro. E então levei um casal para estação de metrô mais próxima conversando a respeito do show! Quase que eu disse pra eles: "Rider também é cultura". O concerto foi quase free, pois a corrida de depois quase pagou o ingresso do espetáculo, que era bem barato se comparado a padrões culturais brasileiros. Mas depois trabalhei até às 5 da manhã para recuperar o dinheiro que eu não tinha ganho no tempo em que estava no teatro. Só prazer não adianta né. Como alguém já disse: "trabalho enobrece". Se enobrece não sei, mas pelo menos paga o teatro.

Rickshaw do Lelo estacionada ao lado do teatro


E agora a última da semana. Sei que este e-mail tá comprido, mas é que a semana foi larga mesmo. No domingo eu e o André nos mandamos pra Greenwich, que é um bairro na beira do Tâmisa, no lado leste da cidade - antigamente era como se fosse a porta de entrada do lado oriental da cidade. E lá existe um morro, o que aqui é algo quase ímpar, pois a cidade é super plana. Em cima deste morro está o antigo Observatório Astronômico Real. E então em 1884, segundo um acordo internacional, o horário de Greenwich tornou-se a base de medida do tempo para o resto do mundo. Eu não entendo nada de história, mas provavelmente a Inglaterra daquele tempo era os Estados Unidos de hoje. Se esse acordo fosse hoje a base de medida provavelmente seria a Casa Branca, mais precisamente a cadeira daquele bundão do Bush.
Estava anoitecendo e estávamos, André e eu, já quase descendo o morro (o observatório fica no cume desse morro) quando de repente, do nada, um laser verde cruza o céu! Impressionante! O feixe de laser saía (ou chegava) num ponto do prédio do observatório e ia para um lugar no horizonte, tão distante que não dava pra descobrir da onde. Estávamos nós diante da linha – meridiano - que divide a terra em leste e oeste. Era uma coisa que eu sempre tive vontade de conhecer, desde a época do colégio, lá pela oitava série, quando se aprende pela primeira vez nas aulas de geografia.
E então era isso! Desculpem as palavras que sobraram. Um grande abraço, com muita saudade,

Thomas

4 de outubro de 2008

9.ª e 10.ª SEMANAS: Legend

Depois de duas semanas de silêncio aqui estou eu de novo. A vida aqui continua corrida, provavelmente como a de todos vocês aí. Acho que depois que cada um sai do colégio não existe mais vida mansa, a não ser nas férias. Bom, e nessa correria aí e aqui acabei não conseguindo escrever semana passada. Bom pra vocês talvez, pelo menos uma semana tiraram férias dos meus folhetins - um amigo meu me mandou um e-mail referindo-se assim a meus e-mails e eu achei muito engraçado.

The Royal Albert Hall


Está dando pra conciliar estudo, trabalho, dinheiro, lazer, um pouco de tudo. Claro que aqui não existe uma picanha ardendo na brasa todo fim-de-semana... No entanto aqui existem outras coisas que trazem felicidade também, como algo em que estive pensando e vou contar pra vocês. Acho que todos sabem que a minha escola era em Piccadilly Circus, o ponto mais central e um dos mais conhecidos de Londres - é como se fosse o Times Square de Londres. Bom, o fato é que eu vou de metrô pra escola, e no centro da cidade o metrô é todo subterrâneo. Daí eu saio aqui de casa, caminho até a estação, pego o dito cujo e fico lá uma meia hora até chegar no centro (Piccadilly). Nessa meia-hora, tirando uma troca de linha que tenho que fazer no meio do caminho, vou todo tempo sentado no vagão e tal. É como se fosse um ônibus, com a diferença de que, como é subterrâneo, não se enxerga nada através das janelas além das paredes sujas dos túneis pelos quais o trem passa. Pois então desembarco, ainda no subterrâneo, na estação destino. Pego uma, duas escadas rolantes, mais um lance de escada normal e, de repente, lá estou eu em Piccadilly Circus, no centro da cidade que é o centro da Europa - os franceses vão dizer que é Paris e então virão os italianos com Roma.... Mas para todo o fim, Londres é o centro e Piccadilly é o centro de Londres. E então lá estou eu, todos os dias! Subo o último lance de escada ouvindo alguma musiquinha no meu parceiro discman e me deparo com aqueles edifícios centenários, aquela correria louca de qualquer metrópole e eu lá. Dia desses ainda tocava Sgt. Peppers nos fones e daí cheguei a me arrepiar ao chegar à superfície! Imaginem daqui uns bons anos, eu já com os netinhos, vou dizer: "Filhote (meu vô me chamava assim, que saudade dele...), houve uma época que teu avô morou em Londres e ele estudava em Piccadilly Circus... Que época boa aquela!". E então me dei conta da oportunidade maravilhosa que estou tendo. E descubri que é assim, vocês têm a picanha, eu tenho Piccadilly.
Mas, devaneios a parte, as aulas em Piccadilly Circus acabaram, pois eu, finalmente, mudei de nível. E daí automaticamente eu tenho que mudar de sede. Agora estou estudando na sede de Bloomsbury. Prós e contras... Obviamente perdi a sensação de Piccadilly, mas o bom é que essa sede que estou estudando agora é muito perto do local onde tenho que pegar a bike todos os dias para trabalhar. E como eu começo a trabalhar assim que saio da aula, isso facilitou bastante. Além disso, todos os guris - André, Chico, Marcus e Biri - estão naquela sede também, então temos a oportunidade de nos falar mais.
Quanto ao trabalho, tirando um que outro dia de chuva - e agora a Lady Rain vem acompanhada do Gentleman Cold -, está dando pra se divertir bastante e tirar um dinheirinho. Sobre isso tenho duas histórias pra contar. A primeira: estávamos eu e o Chico, que também está trabalhando como rider, parados numa esquina de Covent Garden, em cima de nossas bikes, naquela coisa de oferecer carona e ficar chamando as pessoas e tal. Eis que vêm 5 cavalheiros que queriam ir num Strip Club. Pois então eu e o Chico literalmente carregamos os cavalheiros para um club que paga para nós, riders, uma comissão de 40 pounds por pessoa que levarmos lá. Como foram 3 na minha bicicleta e 2 na do Chico, no fim eu recebi a comissão referente a 3 pessoas (120 pounds!). Mas era uma sexta-feira e, sextas e sábados, como vocês já podem imaginar, são os melhores dias. Então naquela sexta eu trabalhei até às 4 e pouco da manhã e no fim contabilizei 304 pounds no meu bolso.
Isso me fez lembrar outra história. No início, antes de começar a trabalhar, quando eu ainda estava apenas pegando informações sobre como era o trabalho nas rickshaws e tal, uma das minhas maiores dúvidas era quanto um rider poderia ganhar por dia de trabalho. Daí eu perguntava pra um e pra outro e ouvia respostas bem variadas, mas muitos diziam que numa sexta ou sábado dava pra tirar 100, maybe 150 por dia. E um dia eu perguntei pra alguém e a pessoa me repondeu: "Olha, isso é bem relativo, tem dias bons, dias ruins, mas eu sei de um cara que já ganhou 350 em um dia". E daí eu pensei: "Ah... isso é lenda..." Pois nesta sexta quase virei lenda.
E no sábado aconteceu uma coisa muito engraçada, que vem a ser a segunda história que eu falei que ia contar. Eu bati a bicicleta! Na verdade foi engraçada porque não aconteceu nada de mais sério; poderia ter acontecido, e daí não teria graça nenhuma. Estava eu em Piccadilly Street com dois clientes atrás: uma loira completamente borracha, com uma garrafa de vinho na mão, e o amigo ou namorado dela, um indiano franzino e bem simpático. Os dois super alegres, a guria não parava de rir e tal. Até que eu tinha que fazer um retorno na rua - tipo, continuar pela mesma rua mas em sentido oposto. Daí vi que eu estava meio rápido e que a curva ia ser meio fechada e até avisei-os: "Hold on!". Tipo, só pra eles se ligarem, por que vai que os caras tão muito bêbados e desligados e saem rolando da bicicleta. Daí eu até avisei. Mas o babaca aqui calculou errado e realmente entrou rápido demais na curva - era um "U" que eu tava fazendo - e aos poucos - na verdade questão de décimos de segundo - eu notei que a bicicleta tava virando, ou seja: ela ia capotar! Daí obviamente pra que isso não acontecesse, eu tive que abrir a curva, pois frear só iria fazer capotar de vez. É mais ou menos como um carro, só que bem mais instável. E então... Dei de cara na mureta de proteção pra pedestre. Na verdade eu não literalmente, por sorte o pneu bateu na mureta e a bicicleta subitamente parou. Eu, apavorado, logo vi que nem eu nem os clientes tínhamos se machucado. Milagrosamente a bicicleta tava inteira, até a roda e o pneu, nada tinha acontecido! Mas daí eu pensei que com certeza os caras atrás iam estar verde de pavor e muito brabos. Foi quando eu notei que a loira não conseguia parar de rir e o indiano ia no embalo dela e também ria que se matava. Daí eu pensei: "Well... menos pior!" Foi quando o indiano falou: "Hey man, you are a legend!" Daí quando ouvi isso eu caí na gargalhada também! Mas gargalhadas a parte, espero que isso sirva pro Ayrton Senna aqui ser um pouco mais Rubinho.
Nesses dias que se passaram também aconteceu uma coisa que me deixou super feliz: eu consegui pagar uma das parcelas do curso de inglês – havia pago parcelado no Brasil - com as minhas próprias economias juntadas aqui. Eu tinha isso como o primeiro desafio e não só o venci, como ainda paguei adiantado! Assim pelo menos deixo os entes queridos no Brasil - os titulares dos cartões de crédito - mais tranqüilos, pois ele continuará fora da ativa.
Ontem fizemos uma festinha aqui na nossa casa e estava muito bala! Umas 20 pessoas confraternizando na companhia de Carlsbergs e uma que outra wodka. Well done!


Cenas da nossa festa regada a wodka e Carlsberg

Então acho que era isso, vou dormir que são 5 e pouco da manhã e deixo vocês trabalharem e estudarem em paz. Um grande abraço a todos, com muita saudade,

Thomas

P.S.: Esqueci de dizer que agora temos mais um componente: o Lelo está morando na mesma casa que gente! Agora somos 4: André, Marcus, Lelo e eu. E o Marcus e Lelo começaram na semana passada a trabalhar como riders também. So, agora só falta o André se mexer.