Longe de Casa é um convite para você sentar-se confortavelmente na cabine de uma bicicleta-táxi e se deixar levar pelas ruas de Londres e da Europa. Dando o rumo dessa aventura, um estudante brasileiro de 21 anos que resolve dar um tempo de sua rotina em Porto Alegre e, junto com alguns colegas de faculdade, abrir a cabeça para novas experiências de vida no Velho Mundo. Se você procura um guia de viagens sobre a Europa e Londres, talvez este blog possa lhe ser um bom thriller de aventura. Para quem quer divertidos contos, de repente se depare com boas indicações musicais. E se você é um jovem que também pensa em passar por uma experiência em algum lugar no exterior, o que você encontrará aqui não apenas lhe fará rir ou trará boas dicas turísticas, sobre bandas e cantores: além de informação e entretenimento, os posts deste site aos poucos tentarão lhe mostrar uma outra maneira de enxergar as coisas. A maneira como alguém de 21 anos encara a vida longe de casa: aprendendo sempre.

30 de dezembro de 2008

22.ª e 23.ª SEMANAS: Depois do Natal, arrumar as malas

Escrevo nesta quinta, agora já sexta, para dar as últimas palavrinhas do ano. Esta semana não acabou ainda, mas tomo liberdade de dizer que esse e-mail é da semana passada – 22.ª – juntamente com essa.
Depois do baita susto, o qual relatei sinteticamente no último e-mail, tudo deu certo: o cara devolveu minha câmera e a história acabou com final feliz. Semana passada foi muito boa. Especial, eu diria. Por dois motivos principais: o Renato, meu ex-colega de engenharia que está estudando em Marselha, veio para Londres passar a semana e o Natal aqui com a gente. Mundial! Pra começar, na terça-feira, que era aniversário dele, fomos - Renato, Chico, Marcus, Lelo e eu - na Pizza Hut e lotamos a barriga daquelas pseudo-pizzas que eles fazem aqui. Foi emocionante! Obviamente, não pela pizza; relembrei nossos saudosos almoços no Armazém do Sabor ou em outro buffet qualquer com a galera da faculdade reunida... Aquele clima de parceria mesmo. E então esse almoço foi a mesma coisa, só que na Pizza Hut de Piccadilly Circus, em Londres! Tinha o Lelo como variável de ruído, visto que não provém da engenharia, e faltou o André, que ainda não havia chegado de viagem. Mas ficou 6 por meia dúzia.

Almoço na Pizza Hut

Daí o Renato passou a semana aqui e no sábado fizemos um festão de Natal aqui em casa. Tava muito bom, e em todos os sentidos! Comida excelente, um formoso pudim de leite de “overtable”, a melhor companhia de todas, música pra vizinho nenhum não reclamar, enfim, uma truly ceia de Natal entre amigos, loucura total. Muito Jorge Ben e Jack Johnson na caixa, a galera toda bebendo e se divertindo, e a parte que eu mais gostei: todo mundo cantando aos berros – e eu não só gritando como dançando sozinho no meio da sala, que cena... – para tentar acompanhar o violão! Sim, porque no nosso Natal teve até violão, e ligado no amplificador! Meu amigo, classmate e housemate Gabriel e eu puxamos a palheta e tiramos um som. Do arco, como diria meu pai.

Nosso memorável Natal

Bom, o que acontece é que os caras aqui na Inglaterra fazem do Natal o seu carnaval. Não no sentido de fazer tanta festa. Isso não, na real eles nem fazem festa na véspera e ficam o dia 25 todo em casa. Aí que está o problema: no dia 25 não tem ônibus, nem metrô, nem nenhum transporte coletivo. Simplesmente a cidade pára e todo mundo passa o dia em casa talvez rezando com o Papai Noel. No dia 26 é feriado também, chamado Boxing Day... E tem mais, no dia 27 é feriado bancário, ponto facultativo. Carnaval, não falei?
Mas daí, por causa disso, aconteceu uma coisa realmente engraçada. Na nossa festinha aqui em casa tinha umas 20 pessoas, algumas das quais eu sequer conhecia. O que aconteceu foi que, no domingo, dia 25, quando acordo, já passado e muito o meio-dia, saio da quarto, vou chegando na sala e ouço uma barulheira. Quando vejo, a maioria dos convidados da nossa festinha ainda tava aqui. E então a nossa casa, pelo menos durante dois dias, virou uma coisa meio Novos Baianos, algo assim. As pessoas passaram o domingo inteiro aqui, dormiram de novo, e só na segunda voltaram para suas respectivas moradas. Segundo palavras que ouvi de alguém, o nosso Natal tava parecendo casamento de parente do interior.

Cenas do Natal insano


Mas então na segunda-feira, o Marcus, o André e o Lelo saíram de viagem para Holanda e Bélgica. Essa viagem foi decidida há muito tempo, e na época achei melhor não ir, pois além de já conhecer os locais para onde eles queriam ir, pensei que essa última semana do ano pudesse ser muito busy, o que renderia uma boa grana. Mas no fim da semana passada já estava arrependido. Como eu tinha passagem pra Paris comprada para sexta-feira, só poderia trabalhar 3 dias na semana - terça, quarta e quinta. E então vi que não seria um bom negócio, pois o valor que eu teria que pagar pelo aluguel da bike seria o mesmo que pago para usá-la a semana inteira. Falta de planejamento. Mas paciência, tive que trabalhar... E tava difícil! Na verdade só trabalhei um dia e meio. Na terça, apesar do frio, deu pra ganhar um dinheirinho e pelo menos cobrir o aluguel da semana. Além disso, terça-feira teve um gostinho especial, pois foi meu primeiro dia de trabalho com neve; bonito mesmo. Mas na quarta foi a noite mais fria do ano, segundo a TV, e daí eu tive que jogar a toalha. Fiquei uma hora parado em Leicester Square sem pegar um cliente, num frio até então sem precedentes. Voltei pra casa.
Essa semana teve um gostinho especial, pois trabalhei menos e tive a chance de acordar antes e sair de casa antes. Isso pode parecer uma simples questão de horário, mas faz uma grande diferença, pois pude ver o sol. E por incrível que pareça fazia tempo que eu não tinha a chance de ver Londres em plena luz do dia. No meu horário habitual de estudante-trabalhador, saio de cada pelas duas e meia e o sol está se pondo. Pego o metrô e quando chego ao centro para aula já está ficando escuro. E essa semana vários dias tive que sair mais cedo para resolver algumas coisas – compras – e realmente adorei! É como se eu tivesse me sentido novamente turista em Londres. Wonderful.

Eu e minha bike, na noite mais fria do ano

Neve na nossa rua


Mas a semana foi passando, o mês foi passando e sim, o ano passou! Vem chegando mais uma vez um novo ano e com ele todas as vontades e desejos de novo. Porque somos assim, o que não conseguimos no que passou, sempre queremos no que está vindo. E como é bom que assim seja. Dia desses recebi um pensamento, supostamente do Drummond, o qual eu já havia lido outrora. Diz assim:

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número, e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente."

("A genial idéia de fatiar o tempo"-Carlos Drummond de Andrade)

E como todos os anos, vêm os derradeiros 30 e 31 de dezembro. Aqueles dois dias em que a grande maioria de nós, porto-alegrenses natos ou adeptos, arruma seus apetrechos numa correria danada e toma o rumo da Freeway, nossa mais querida estrada, aquela que os gaúchos no fundo acham que é a melhor estrada do mundo. E então vem a estrada do mar, naquela cadência, aquele calor, uma paradinha clássica no Maquiné ou em outra tendinha qualquer, e segue o baile. Alguns sobem mais, pra terras de além-fontreira; outros sentem-se orgulhosos de ir para nossas praias, daquele mar de chocolate, e então ali passam o ano-novo com seus amigos, família, cachorro e toda aquela coisa que se repete todo ano. E que é tão bom.
Mas então hoje ou amanhã, dois últimos dias do ano, enquanto vocês tiverem arrumando os porta-malas, eu estarei neste ano fazendo uma coisa diferente. Estarei arrumando minha mala para tomar o rumo da cidade-luz: Paris!
Acho que até antes de chegarmos aqui em Londres eu às vezes já comentava com as pessoas a respeito do grande sonho que eu tinha de passar o ano novo lá. Then, chegamos aqui e o sonho foi aumentando, compartilhado com outras pessoas que criaram o mesmo desejo, e no fim ele vai se realizar! Depois de muitos diálogos e convites, fui convencendo meus amigos, que foram convencendo os nossos outros amigos e no fim seremos quase 15 brasileiros, de diferentes lugares, que se encontrarão em Paris para uma verdadeira festa de ano novo. E sabem onde vai ser essa festa? Obviamente que vai ser na rua. Seja ao lado da Torre Eiffel, na Champs-Elysées, margem do Sena, I don't care. Onde for será maravilhoso! Como diz o Rafa, acompanhados apenas de champanhes nacionais. Pois sim, tomarei champanhes vindas donde? De Champagne! Mas a companhia será a melhor parte, só a galera mais parceira, seja os que vieram comigo ou os que aqui conheci.
E não quero que pareça que estou me exibindo, a minha intenção não é contar vantagem. Apenas estou absolutamente feliz por pensar que hoje, uma sexta-feira à tarde, estarei aqui em Londres tomando o rumo de Waterloo Station, para lá pegar o trem que 3 horas depois me deixará direto no centro de Paris. E assim acho que fecho meu ano, que foi um tanto atípico, com chave de ouro, prestes a passar por talvez um dos melhores momentos da minha vida: o réveillon em Paris!
E para deixá-los informados sobre meus planos de viagem, fico em Paris até o dia 5, quando o André, Marcus e eu alugaremos um carro e viajaremos pela França, chegando em Nice no dia 10. Daí me separo deles e vou para Marselha, encontrar novamente o grande Notórius Renato, onde serei recebido em sua residência por a coulpe of days. Dia 12 então pego um trem direto a Milão, onde dia 13 é chegado o grande dia de rever as 3 mulheres da minha vida: minha irmã, minha mãe e minha vó! E com elas ficarei passeando pela Itália até o dia 29 de janeiro, quando pegaremos o vôo para Londres. De volta a esta cidade, com elas ficarei até o dia 3 de fevereiro, quando retornam para o Brasil e eu retorno à minha realidade de estudante-trabalhador. Nada mal.
Durante todo esse tempo não pretendo mandar e-mails. Ou seja, vocês descansarão de mim durante mais de um mês. Mas não se preocupem que quando voltar provavelmente terei algumas histórias pra contar. Daí mando as edições atrasadas de uma vez só.
Desse ano que passou tenho só grandes recordações. Acho que não me equivocaria em dizer que foi o ano mais importante da minha vida. E vocês acompanharam quase a metade dele, através de meus relatos talvez por vezes chatos, mas sempre sinceros. Cada um tem seus desejos pro ano que chega. Acho que o meu é apenas que tudo continue como está. Tenho pela frente ainda mais meio ano de Europa, e tudo que quero é que tudo dê certo como deu até agora. E que a segunda metade de 2006, já com vocês aí no Brasil, seja maravilhosa também!
Espero que cada um tenha seus desejos e os veja realizados. Talvez não todos, para que daqui um ano possamos parar e lembrar novamente do Drummond. Um grande abraço, daqueles apertados da meia-noite da virada, com muita saudade de todos,

Thomas

20 de dezembro de 2008

2.ª METADE DA 21.ª SEMANA, E QUE SEMANA!

Screenplay da semana que passou:

Segunda-feira: Rod Stewart's concert. Já devidamente descrito em e-mail anterior.

Terça-feira: Um dia como qualquer outro. Aula e trabalho.

Quarta-feira: Coldplay's concert. Vide último folhetim.

Quinta-feira: Saí da aula e fui dar uma olhada em algumas lojas da Oxford Street, a principal rua de comércio de Londres. Cada cidade tem a sua; em Porto Alegre sem dúvida é a Rua da Praia - saudade dela -, em Londres é a Oxford. Acabei me alongando um pouco e lá pelas 8 e meia fui para a base pegar minha rickshaw. Como os meus planos eram só começar a trabalhar pelas 10, jantei meu sanduíche com calma ainda na garagem, e depois saí. Eram nove e meia, e na verdade eu queria começar direto na saída de algum teatro, provavelmente seria o Rei Leão. Passei então numa ruazinha que há perto da minha escola e que está toda iluminada por razões natalinas. Aproveitei que eu estava com o tripé e a câmera e parei para tirar uma fotos, já que todos dias eu passava por lá e pensava que aquilo merecia uma sessão.


Sicilian Avenue

Era quase dez, guardei o tripé, a câmera, e fui em direção ao Lion King, que termina as 22:15. No meio do caminho tinha um Sainbury´s, o Zaffari deles, e me lembrei que eu precisava comprar alguns leites condensados. Quem me conhece bem já deve estar pensando: "O Thomas e sua paixão incontrolada por leite condensado". Mas na verdade eu nem estava comprando para mim. É que no dia posterior, sexta-feira, haveria uma festa na minha aula, pois o meu professor estava para sair de férias e marcou uma festinha. O combinado era que cada um levasse alguma coisa de seu país. Daí eu achei legal a idéia de fazer negrinho pros meus classmates. Pois era quase dez e o super-mercado estava quase fechando. Deixei a minha bicicleta do outro lado da rua, ao lado de Holborn Tube Station, e fui lá comprar os leites condensados. Quando deixo a porta do Sainsbury's e atravesso a rua em direção a minha bicicleta, cadê ela? Alguém a tinha roubado, e com todas minhas coisas dentro. E agora José? Eu costumo ser um cara que tenta manter a calma em horas mais complicadas, mas confesso que foi bem difícil. Não me perguntem por que, eu também não sei, mas o modelo da minha rickshaw é mais caro que um carro. O preço dela é aproximadamente 3 mil pounds! Acho que agora vocês entendem o porquê de meu desepero. E ainda tinha a minha mochila com o discman, a câmera e minha carteira dentro, o tripé, que eu tinha comprado algumas semanas antes para tirar fotos noturnas, além de muitas roupas que costumo deixar na bicicleta para dias de chuva e afins. Tudo isso estava dentro de um compartimento que existe na bike, e esse compartimento estava sem o cadeado. Assim como a bicicleta. Eu havia deixado a bicicleta apenas "estacionada" na rua, sem locker nenhum, só o freio engatado. Por quê? Porque eu sou muito, mas muito babaca!
Tentei controlar o meu descontrole enquanto ligava para a polícia, para os meus chefes e para quem mais pudesse me ajudar. Logo apareceu um guarda por lá e fez o registro da ocorrência, mas não muito mais que isso. Eu não conseguia falar nem com os meus chefes nem com o mecânico da minha compania, todos com o celular aparentemente desligado. Liguei para o Marcus, que já estava na rua trabalhando, disse o número da placa da minha bicicleta e pedi que ele avisasse aos outros riders sobre o ocorrido. Pelo menos assim de repente alguém poderia cruzar com o "ladrão". Pois é: o que um ladrão faria com um rickshaw? Boa pergunta. Apesar de ser uma coisa cara, ele não poderia vender no “mercado negro de rickshaws". Ou será que aqui existe o Paraguai das rickshaws... I don't think so.
Mas vou escrever um parágrafo só para que vocês entendam o tamanho do problema que eu tinha criado e, logo, o tamanho do cagaço. Além do valor da bike - cujo seguro eu não sabia se cobria roubo ou não - e de todas minhas coisas já citadas, dentro da minha carteira ainda havia o cartão da minha conta bancária daqui, a minha carteira de motorista e o meu cartão que uso para metrô e ônibus. O cartão do banco até não tinha tanto problema pois não era de crédito, e obviamente para movimentação de dinheiro precisaria da senha. Mas a carteira de motorista é importantíssima para mim, pois é obrigatório o porte para os riders. E como eu faria uma nova carteira aqui? O cartão do metrô eu pago mensalmente e é bem carinho, mais de 50 libras. Também havia o fato de que sem bicicleta eu provavelmente não poderia trabalhar essas duas últimas semanas do ano, talvez as melhores no rickshaw business. Além de tudo isso, talvez a pior coisa de todas era a sensação de culpa. Porque se tu tem um carro, vem alguém e te assalta à mão armada, não há o que fazer. Paciência. Mas se tu tem perda total do carro porque estava bêbado e se perdeu numa curva, é muito diferente. Do you understand what I mean? E tudo isso passava pela minha cabeça ao mesmo tempo.
Depois de fazer o registro com o guardinha, o que pensei? Well, vou começar a procurar a bike nas redondezas do local que ela foi roubada. Afinal o mais óbvio era que o ladrão a largasse em qualquer lugar por perto e "apenas" pegasse os meus pertences que lá estavam. E assim fiquei por mais de uma hora, dando voltas e procurando em todos os becos por volta de Holborn Tube Station. Em vão. Já era quase meia-noite e eu não sabia mais o que fazer, completamente apavorado. Não conseguia nem avisar meu chefe, dono da bicicleta. Já tinha tentado encontrar alguma câmera de segurança apontada para o local do crime, mas nenhuma havia; já tinha avisado vários riders que tinham passado por mim... E então começou a chover, resolvi ir pra casa. Pelo menos se era pra chorar que fosse em casa. Mas antes fui até a base, pois havia deixado lá uma mala que havia comprado na Oxford depois da aula.
Entro na garagem, vou em direção à minha mala, a qual havia deixado num canto. Dou de cara com a minha rickshaw! Lá, paradinha, intacta, perfeitamente estacionada! A primeira coisa que faço é abrir a portinha e procurar minha mochila, que estava lá! Minha carteira estava lá! Meu discman, exatamente no bolso da mochila que sempre fica. Minha câmera? Essa não estava... Revisei algumas vezes, estava tudo exceto a câmera. Na seqüência um dos meus chefes aparece de repente. E eu com um sorriso incontrolável pergunto para ele o que havia acontecido. Cômica a situação, e vocês já vão entender por quê.
Um rider de outra compania tinha encontrado a minha bike no meio da rua, em um local supostamente perto de onde eu tinha deixado. O cara achou estranho a bike no meio da rua, sem nenhum rider por perto, e rebocou-a até o Covent Garden. Existe uma maneira de uma bicicleta rebocar a outra, mas obviamente é muito pesado, pois cada uma pesa uns 50 ou 60 quilos. O cara havia feito isso. Ele não era da mesma empresa que a minha, mas sabia qual era minha empresa pela placa, então pediu para que outro rider da minha compania ligasse para o meu chefe. Daí meu chefe foi lá e pegou a bicicleta. Tudo isso aconteceu no tempo que eu estava dando voltas e voltas pra ver se encontrava minha bike. Agora vocês entendem porque cômico. Porque quando vi a minha bike lá fique muito feliz, e nisso o meu chefe, que devia tá muito brabo, chega lá e eu pergunto: "What happened?" Foi então ele me explicou tudo isso. Na verdade ele tava bem light, "fly", por assim dizer. Até acho que ele, colombiano nato, tinha abusado de uma aguardiente. Just a guess.
Bom, depois disso fui pra casa pensar em tudo que tinha acontecido, realmente abalado psicologicamente. E apesar da perda da câmera, eu sabia que tinha que ficar feliz, afinal tinha sido só a câmera. E realmente, quase ironicamente, eu tinha acabado de perder minha tão amada câmera mas estava feliz.
Fiz o pior negrinho da minha vida. O negócio começou a queimar com dois minutos de panela. Uma coisa inacreditável. Tenho quase certeza que foi o chocolate em pó, pois o leite condensado é da Nestlé e é realmente igual ao meu tão querido Leite Moça. Pra vocês terem idéia, hoje é segunda e a panela ainda está na cozinha com água dentro, pois ainda não consegui tirar o queimado. Depois do negrinho queimado, cama.
Sexta-feira. A festa da turma foi um sucesso. Da Alemanha, minha colega Rufina levou salsicha bock, bombons de marzipan e bombons recheados com um licor amarelo. Diretamente do Japão, minha colega Chyoko levou sushis de salmão, atum e uns outros lá. E levou também shoyu, pratinhos para o shoyu, e os pausinhos, que agora não me recordo o nome. Só esqueceu do sakê, que foi levado pelo meu outro colega japonês, o qual me foge o nome também. Da Coréia apareceu uma massa lá, que quem comeu elogiou, não tive coragem. Da França minha coleguinha Perrine preparou com carinho uma Quiche Lorraine, deliciosa. Do Brasil, a galera passou no Brasil by Kilo, o mais famoso restaurante brasileiro de Londres, e comprou umas cocadas, realmente boas. Os não-brasileiro adoraram, e os brasileiros mais ainda. Para beber: guaraná, cerveja, vinho e soft drinks. E eu? Não tive coragem de levar meu negrinho queimado. Fiquei com ele para mim e estou degustando-o aos poucos. Ainda abalado pelos acontecimentos do dia anterior, não tive cabeça para pensar em alguma comida truly brasileira para levar. Passei no super e comprei a primeira coisa que apareceu na minha frente: uns doughnuts. Levei uns amendoinzinhos salgados, que junto com bolachas e outros salgadinhos fizeram parte das comidas internacionais de nossa festa. E a festa tava boa mesmo. Depois de alguns goles de vinho e sakê e latas de cerveja, a galera se rendeu a um lírico Buena Vista Social Club que tocava e caiu no salão. E chacoalhamos os esqueletos depois de um verdadeiro international buffet. Engraçado foi ver os coreanos e japoneses dançando bolero, ou “bolerrô”, como a francesa diria. E tudo isso numa sala de aula 6x6. Depois ainda foram para um pub; eu fui trabalhar.
Chego na base e meu chefe me diz que eu deveria tentar descobrir quem era o rider que havia rebocado a bicicleta para o Covent Garden, pois ele deveria receber uma recompensa. O meu chefe não sabia quem era o cara, pois ele tinha rebocado a bike e deixado-a num lugar onde ficam outros vários riders, e um desses é que havia ligado e avisado.
Pego minha bicicleta e vou direto ao Covent Garden, lugar onde sempre começo a noite. Chego lá, estaciono no meu lugar estratégico, e um rider me pergunta: "Você perdeu a sua bike ontem né?" Eu: "Sim, como você sabe?" Ele: "Porque fui eu que achei." Eu: "Pô cara, muito obrigado!" Ele: "E você tinha uma câmera, né?" Eu: "Sim, como você sabe?!?!?!?" Ele: "Porque ela tá comigo, eu apenas peguei ela pois achei perigoso deixar na bicicleta!"
O cara sabia que a bike era minha pois havia me reconhecido nas fotos que estavam nela. Disse que tinha ficado na noite anterior (quinta-feira) até as 4 da manhã me procurando para me devolver a câmera, mas não havia me encontrado.
No fim, na sexta o cara estava sem a câmera, pois disse que, como não costuma andar com mochila e como não sabia se iria me encontrar, já que na quinta não tinha me visto, achou melhor não levá-la. Combinamos de ele levar no sábado, mas no sábado não nos encontramos de novo. Não peguei o número do celular dele pois o cara não tem celular. Disse que o dele estragou e ele não consertou. Como domingo e segunda não trabalhei, ainda estou sem minha câmera. Mas confio nele, o cara na real além de ter sido muito parceiro em rebocar a bike, teve uma baita boa intenção em ficar com a câmera.
Sábado. Nada demais, um sábado bem fraco até. Apenas uma história que vale a pena ser contada. Estou andando na Shaftsbury, como de costume oferecendo rides para as pessoas. Vejo 3 caras e ofereço para eles. Um deles, de muletas, responde: "Bá cara, tu me deu carona essa semana, lá pra Marylebone Station". E daí eu me lembrei mesmo do cara, tinha dado uma carona na terça para ele. Daí ele pegou outra ride comigo: passamos num cash machine e depois levei ele para o Tiger Tiger, um club no centro de West End. E o cara perguntou se eu tinha um cartão de visitas ou celular, porque de repente quando saísse da balada poderia pegar outra carona comigo. Eu dei o número para ele e umas horas depois, eu parado em Piccadilly Circus, praticamente coçando o saco, num sábado realmente muito ruim, o cara manda uma mensagem. Não deu outra, eu tava apenas 3 quadras do club; fui lá e levei o cara até a casa dele, na frente de Marylebone Train Station. O cara tinha quebrado a perna jogando futebol. Ingleses.
Domingo. Dia de relaxar, depois de uma semana muito, muito forte. Chamei alguns amigos e fiz uma massinha, que tava bem honesta, e foi apreciada com um muscat branco do qual fiquei muito amigo.
Segunda. Dia de contar tudo isso para vocês.
Moral da semana: Um leite condensado pode às vezes parecer meio caro, mas se você gosta mesmo, no final das contas vale a pena comprá-lo. Grande abraço, com saudade,

Thomas

15 de dezembro de 2008

1.ª METADE DA 21.ª SEMANA: Coldplay por umas pedaladas

Consegui! Consegui não, conseguimos! O Chico, a Milene e eu conseguimos ingresso e assistimos nesta terça ao show do Coldplay! Demais!
Agora que vocês já sabem qual o assunto principal, vou explicá-lo com mais calma. Eu queria na primeira linha demonstrar quão grande era minha felicidade. A questão é que eu já sabia há muito tempo que haveria esse show. Mas no início de setembro, época em que os ingressos foram todos vendidos, eu rateei e acabei perdendo a oportunidade. Na verdade não fui só eu: a Milene e o Chico também ficaram igualmente frustrados na ocasião por não ter conseguido os ingressos. Pois nesses mais de 3 meses que se passaram eu constantemente encontrava eles e era comentado que nós íamos tentar conseguir os tickets no dia do show, na porta do Earls Court - mesmo lugar em que eu havia assistido ao Rod Stewart na segunda-feira. Pois combinamos de se encontrar lá na frente e então me fui para lá, meio dividido entre o meu lado realista, que dizia que seria muito difícil de conseguir um ingresso – ao menos a preço acessível –, e o lado otimista, que só adicionava cada vez mais vontade de ir no show. Fui chegando lá, aquela galera na saída do metrô indo em direção ao ginásio, e eu cada vez mais pilhado. Bom, para resumir, depois de uma hora de negociações e chats com cambistas, conseguimos! Compramos um ingresso de um cambista e os outros dois lá dentro mesmo, direto do Earls Court. Só não me perguntem como que eles tavam vendendo, porque eu também não sei, já que todos os ingressos supostamente tinham sido vendidos nos primeiros 5 dias de setembro.


Então assistimos ao grande show. Acho que a maioria de vocês já ouviu falar nessa banda, mas para quem não sabe do que se trata vou dar uma pincelada. Sendo bem simplista, aqui é como se eles fossem os sucessores do Oasis. Tipo, o Oasis ainda existe e faz sucesso, mas não como na segunda metade dos anos noventa. É como se o Coldplay agora ocupasse a cadeira principal do britrock. E os caras são bons mesmo. Pra mim são uma das poucas bandas que ainda salvam o cenário pop atual. Tipo, no meio de Black Eyed Peas e outras porcarias do gênero, eles e o Jack Johnson talvez sejam uma das únicas coisas que realmente preste. Claro que existem bandas e músicos muito melhores que esses dois, não estou dizendo que eles são meus preferidos. Apenas acho que no meio do que é realmente pop - e pop não significa nada mais do que “popular” -, nowadays o Coldplay é o que salva a Inglaterra dessa invasão noisy e disgusting do pop americano – o dito R&B e outras coisas mais.
Mas o show tava realmente bom. Apesar de nenhum dos músicos se sobressair como instrumentista - à excessão do baterista, que manda muito bem nas baquetas -, os caras tem um punch invejável. Além disso o Chris Martin, perfeita imagem de band leader, sabe mesmo tomar conta do palco. Inclusive lá pelas tantas o cara resolveu sair do palco e, correndo, adentrar à platéia, obviamente cercado de guarda-costas. Foi parar muito perto de onde estávamos e se pôs a cantar, para o completo deleite do público.

Chris Martin, Coldplay


O show começou um pouquinho antes das nove e se estendeu até dez e meia. Nem tão curto nem longo, foi o suficiente para viajar por muitas músicas dos seus apenas 3 discos. Porque os caras são realmente novos, é coisa que começou nessa década mesmo. No Brasil, pelo menos até eu sair daí, eles não haviam estourado ainda. Claro que tava tocando bastante, mas não chegava ainda a ser um fenômeno. Na verdade, a música que lançou eles no Brasil – e aqui também –, acho que pelos idos 2001, foi Yellow. E se vocês prestarem atenção nas fotos anexadas, numa delas aparece o público e uns balões amarelos gigantes. Isso rolou quando eles tavam tocando essa música.
Então o show acabou as 10 e meia e eu resolvi ir trabalhar, afinal, como expliquei no meu último e-mail, as noites tem morrido mais tarde nos últimos tempos (tradução para os mais velhos: as pessoas tem ficado até mais tarde na rua), ou seja: clientes até mais tarde. Peguei a Piccadilly Line e tomei o rumo de Russel Square, perto da qual fica a base da minha empresa. No metrô fui pensando cá comigo: "Bá, seria legal se agora eu fosse trabalhar e tirasse tudo que eu gastei nesse show, daí o show sairia de graça..." E fiz a conta de quanto era isso: o valor do ingresso mais o da cervejinha, somado ao valor referente ao aluguel da bike, resultava em 52 pounds.
Era 11:40 da noite e eu tava saindo da base, pedalando minha rickshaw em direção a West End. E as coisas foram se desenrolando bem. Uma ride de 10, depois outra de 5. Estou quase em Piccadilly Circus quando duas gurias me pedem para levá-las num bar em Covent Garden. Taxo 6, elas choram, deixo por 4,50 cada uma. Corrida de 9 pounds ao total. As duas vão o tempo todo de papo entre si; estavam bêbadas, mas ainda não tinham passado da cota. Chego ao destino e elas perguntam quanto é. "Olha, o preço inicial era 6, mas fiz por 4,50..." Uma delas tira uma nota de dez da carteira e me dá. Não sei se por achar que 1 pound de gorjeta era pouco, cada uma delas me dá um selinho, coisa que há muito não acontecia. Até aí nada de mais. Então elas descem da bicicleta e já estão tomando o rumo do bar, quando vejo duas notas de dez pounds caídas no chão da minha bicicleta. Vocês devem saber que honestidade é um dos meus fortes. Perguntei se era delas. Papo vem, papo vai, no fim nenhuma delas conseguiu fazer a contabilidade certa e saber se havia perdido ou não. Mas era óbvio que era delas, não tinha como ser do cliente anterior. O que sucedeu? Uma delas pegou uma das notas de dez da minha mão, me deu uma de cinco e disse: "Mesmo que esses 20 pilas sejam nossos, fica com isso pra ti já que tu foi muito honesto". Na real ela viu que não era ela que tinha perdido. Como não conseguia descobrir se era da amiga dela, pois esta não estava em condições de responder confiavelmente, resolveu pegar 5 pra si própria por descargo de consciência e me deixar com os outros 15.
Bom, aí eu já somava os 15 das primeras duas corridas com mais os 25 totais que tinha ganhado das duas gurias. Fiz mais uma corridinha de 5 que fechava 45. Um cara me pede para ir para Tottenham Court Road e eu cobro 6. No meio do caminho vou pensando: "bá, depois dessa vou fechar 51, apenas um pound a menos do que a meta de 52...
Chego lá e o cara me dá 7 pounds, fechando os exatos 52. Tomei isso como um aviso de que o trabalho tinha sido bem feito, e que eu merecia ir para casa. Assim, apesar de que provavelmente eu poderia ter ficado na rua e feito muito mais grana, pois a noite parecia estar boa, tomei o rumo da base. Era uma e vinte da manhã, e tinha sido necessários apenas 1h40min para que o show saísse de graça.
Voltei pra casa feliz da vida depois de um show e de uma noite inesquecível. Grande abraço, com saudade,


Thomas

14 de dezembro de 2008

18.ª, 19.ª e 20.ª SEMANAS: Pato ao Veuve Clicquot

Se não erro as contas fiquei 3 semanas sem escrever, e esse e-mail referir-se-á da 18.ª à 20.ª semana. Essa só pode ser influência do meu saudoso professor de língua portuguesa, Gabriel Cechin. Pois então fiquei esse tempo sem escrever e na verdade nem sei por quê. Acho que de repente tava meio cheio do saco e resolvi dar uma folga para vocês.
Pelo menos agora, passadas essas 3 semanas, algumas histórias me vieram à mente e achei que devia escrevê-las. E olha que não vai ser fácil, agora são mais de cinco da manhã e eu estou apenas começando. Tenho começado a trabalhar mais tarde, acabado mais tarde e, desta maneira, chegado em casa mais tarde. Antes eu começava a trabalhar às 18:30, logo que saía da aula. Mas só pelas 10 e meia que começava a pegar cliente. E daí pela 1 da manhã, apesar de ainda ter bastante gente na rua, já tava cheio do saco e acabava voltando pra casa. Agora tenho começado entre 9 e 10 e ficado até no mínimo 2 da manhã, acho melhor. Cheguei em casa hoje eram 3 e meia passada e só consegui começar a escrever agora. Mas antes fiz um omelete de espinafre que nem eu sabia que era capaz. Bom mesmo.
Por falar em espinafre, aos poucos estamos passando um pouquinho melhor. Estes dias fiz uma janta para algumas das pessoas aqui de casa - porque pra fazer pra todas as 13 pessoas que atualmente moram aqui fica quite hard. Daí cozinhei só para as 3 mineirinhas, o Marcus e o André. Fiz um risoto de presunto parma e espinafre que, modéstia a parte, estava bem bom. Mas especial mesmo ficou a sobremesa. Comprei uns waffles já prontos e servi com sorvete de creme, maçãs, chantilly, calda de chocolate e uma canelinha pra descontrair. Na real, como vocês podem ver, não tenho mérito nenhum: comprei tudo pronto, foi só montar no prato. Mando uma foto anexada para ilustrar melhor a situação.

Sobremesa pros amigos


Semana passada comprei os ingressos para assistir - com a vovó, a mamãe e a maninha - ao show do Cirque du Soleil, no início de fevereiro. Dizem que é superb... I hope so. Ontem a Lelê - uma das minhas amigas mineirinhas – e eu fomos ao show do Rod Stewart no Earls Court, um ginásio muito grande que tem aqui onde rolam muitos dos grandes shows. Bom, antes de falar do show farei uma breve introdução. O Rod Stewart lançou nos últimos 3 anos uma série chamada The Great American Songbook. Na verdade, o projeto não foi concebido para ser uma série, inicialmente era apenas um álbum, no qual ele regravou standards do jazz vocal americano. Mas acabou fazendo tanto sucesso que agora ele já está no volume 4! E os discos são realmente bons, pra quem às vezes gosta de um sonzinho mais cool, vale a pena experimentar. Só que eu imaginava que, depois destes 4 álbuns bem sucedidos, ele ia tocar praticamente só estas músicas, as quais nenhuma é dele. Mas o cara resolveu cantar muitas e muitas músicas de toda sua carreira e fazer apenas um set de 4 ou 5 músicas do American Songbook. Isso me decepcionou um pouco, mas essas 4 ou 5 que ele cantou já foram o suficiente para me satisfazer. Ainda mais que, no final do show, que durou mais de duas horas e meia, ele entoou uma Maggy May simplesmente fantástica, uma das canções próprias dele que levam minha consideração. O público, em sua maioria cabeças brancas, adorou: as pessoas cantavam calorosamente o tempo inteiro, o que me fez acreditar que o cara realmente fez muito sucesso por aqui ao longo dessas últimas décadas. E outra coisa muito legal foi o cenário e efeitos, até neve artificial... Pena que não levei minha máquina para poder mostrar em fotos para vocês, pois não sou bom em descrever detalhes. Com ou sem as músicas que eu queria ouvir, foi muito legal do mesmo jeito. Só ter ouvido “As Time Goes By” na voz rouca daquele loiro malucão já foi o bastante.
Mudando completamente de assunto. Estes dias tava andando com a minha bike no meio de Mayfair, uma área muito nobre e tradicional que fica bem no centro da cidade, quando passo por uma esquina e consigo mirar, dentro de uma vitrine bem escura, várias criaturas penduradas em filas, de cabeça para baixo. Parei minha bike e cheguei mais perto. Eram muitos e muitos patos mortos e já depenados, pendurados um ao lado do outro, e no meio do recinto tinha uma mesa quadrada que ao que tudo indicava servia de local de serviço para o açougueiro. Isso já era mais de meia-noite, a suposta loja de patos já tava fechada, mas tinha um carinha de avental do lado de fora. Contou-me um pato que aquele era mesmo o sanguinário açougueiro. Daí eu perguntei pro cara o que era aquilo, se era só uma loja que vendia pato, ao que ele respondeu afirmamente. Achei que fosse alguma coisa de fundo religioso, tipo aquelas frescuras de árabes e judeus de só comerem carne morta segundo o tal ritual, por tal pessoa. Mas o cara disse que não, não tinha nada de religioso, o negócio deles era só vender patos mesmo. E então perguntei quanto era cada pato, já pensando em saborear um no domingo, mas o cara não sabia. Ou seja, não tive dúvidas que ele era o assassino mesmo, tinha todo o álibi: avental sobre medida, não sabia o valor do produto, só podia ser o duckiller.

The ducks


E quem deu de pato fui eu. Depois de me encher o saco nesses últimos tempos tendo que me atrolhar de roupas para não passar frio quando trabalho, resolvi acabar com os meus problemas comprando um casaco bem grosso. Meu raciocínio: bom, se eu tiver um casaco bem grosso, mas que não seja incômodo nem pesado - ou seja, confotável -, posso colocar bem menos roupa por baixo, e assim seria bem melhor. Mas como trabalho nas condições de tempo mais adversas, precisava de um casaco confortável, grosso, à prova d'água e, muito importante, “respirável”. Respirável - ou breathable, como eles dizem aqui - na verdade quer dizer tranpirável. O problema é que a maioria dos casacos impermeáveis não são “respiráveis”, não deixando a água passar nem de fora pra dentro nem de dentro pra fora. Só que quando se utiliza uma roupa pra praticar algum esporte que o faça suar, é muito importante que o suor consiga "sair". O que estava acontecendo era que quando chovia eu botava um casaco impermeável bem fino que eu tenho, como se fosse uma capa de chuva. Daí eu acaba não me molhando com a água da chuva, que realmente não passava pelo dito cujo, mas sim com o meu suor. Além de tudo não adiantava eu achar um casaco com todas essas características, mas que me custasse 200 pounds. No entanto eu achei um do jeito que eu queria, todos esses detalhes, não muito caro; comprei. O casaco é de pena, e para lavá-lo é preciso um verdadeiro ritual. Vem um manualzinho explicando que o processo de lavagem de casacos de pena deve ser feito com cuidado, 31 enxagües, 41,5 graus, lavar e secar só na máquina com 4 bolinhas de tênis para que as penas não embolotem. A parte das bolinhas é verdade. Mas eu pensei, todo feliz: "o meu casaco é 'breathable', sacou? Vou suar, o suor vai passar e assim resolveram-se todos os meus problemas. O que vocês, que não devem ser tão burros quanto eu, acham? É claro que por mais que o tecido seja respirável, não significa que ele é auto-secante. O que aconteceu? Uma coisa óbvia, que só eu não imaginei: usei um dia o casaco e suei bastante. As penas por dentro do casaco - que é realmente muito grosso - absorveram todo o suor e ficaram encharcadas. O suor evidentemente não evaporou de uma hora para outra e talvez nem de um dia para outro. Resultado: imaginem um pato, um pato mesmo, com pena e tudo - diferente dos patos depenados de Mayfair. Imaginem que esse pato é um atleta e sua demais. Imaginem o cheiro de um pato atleta no fim do dia. É difícil imaginar né, pois nunca ninguém viu um pato atleta. Pois é, mas o cheiro do pato atleta seria igual ao cheiro do meu casaco ao final de uma única noite de trabalho. Conclusão: no outro dia reabilitei o meu casaquinho totalmente impermeável.
Última. Bem rápida. Sexta-feira, eu parado com a minha bike em Piccadilly Circus, duas gordinhas mais pra lá do que pra cá me pedem para levá-las em Tower Hill, algumas milhas de distância. Pagando bem que mal tem? Cobrei 25 de cada uma e elas aceitaram. Tavam com uma garrafa de Veuve Clicquot cheia na mão, e era claro que muitas outras já tinham sido ingeridas. Pediram para que, no meio do caminho, eu parasse pra que elas comprassem alguma coisa pra comer. Parei e uma delas desceu e foi bem contente lá no mercadinho comprar. Voltou e seguimos o baile. Alguns minutos a mais de pedaladas e uma delas grita: pára... pára... pára que eu preciso fazer pipi! Parei e uma das gordinhas se foi pra trás de uma parada de ônibus e carimbou-a com o mais noisy dos xixis femininos que eu já pude ouvir. Deve ter sido quase litro. Ao mesmo tempo que aquele barulho de torneira aberta dava um toque cômico à rua deserta que estávamos, o xixi escorria pela calçada e molhava a beira de asfalto junto ao meio-fio. Relembrando que felizmente eu não vi a tia em cena (agachada ou de pé?), pois o painel publicitário da parada de ônibus ocultava os detalhes. Depois de muito chão cheguei à casa delas, que na verdade era bem distante de Tower Hill, mas deixa pra lá. Me pagaram, não sem fazer aquele drama de bêbado sem dinheiro. Desceram da bike e eu vi o estrago: as gordas porcas tinham comido batata frita, salgadinho e sei lá mais o que e tinham deixado o banco da bicicleta um chiqueiro. Tirei cuidadosamente a manta vermelha que uso na minha bike por cima do banco; sacudi-a. E então veio o banho de champanhe que não estava programado. Elas tinham simplesmente derramado provavelmente toda champanhe no banco da bike. Essa manta, que ficou encharcada, cobre o banco, que, por sua vez, é feito de um tecido de borracha cheio de furos. Embaixo do banco eu costumo colocar minhas coisas: mochila, roupas sobressalentes, ferramentas, guarda-chuva... Todos meus apetrechos tomaram um banho. Até hoje chego na base para pegar a bicicleta e sinto o aroma da Veuve Clicquot. Continuo sem experimentar a famosa champanhe, mas o aroma não esquecerei tão cedo.
Um grande abraço para todos, com muita saudade,


Thomas