Mas então acabou o filme e fiquei aqui sem sono e sem muito o que fazer: resolvi escrever. Acho que pela primeira vez escreverei meu folhetim em duas partes. Isso porque hoje - daqui algumas poucas horas - vamos para Cambridge, apenas para passar o dia, turistas mesmo. Então vou escrever agora sobre as coisas que já passaram, e amanhã escrevo sobre o nosso dia em Cambridge.
A semana foi realmente rápida. Muito frio - não adiantou muito festejar a primavera nos meus últimos e-mails -, o que provavelmente repercutiu em poucos clientes. Desta maneira, trabalhei mais nesta semana para ganhar consideravelmente menos que semana passada, quando choveu todos os dias, lembram-se? Pois é, muitos riders costumam dizer que preferem quando chove, pois há mais clientes. Eu cstumava discordar, mas estou revendo meu conceito.

Trabalhando
Pois esta semana Lelê, Chico e eu fomos dar uma volta em Chelsea, elegante e tradicional bairro de Londres. Praticamente apenas residencial e comercial, as pessoas pareciam todas de bem com a vida, sem aquela correria da grande metrópole. Qualquer coincidência com cidade do interior é pura coincidência, estávamos mesmo em Londres. E num dos cafés "à la Paris", mesinhas na rua e tudo - por incrível que pareça isso não é muito normal em Londres -, nos deparamos com Bob Geldof, roqueiro das antigas que foi o maior responsável pelo Live 8, festival-protesto que rolou ano passado ao redor do mundo. Ele inclusive foi por isso candidato ao Prêmio Nobel da Paz, mas acabou não levando. Estou anexando uma foto que tirei do cara.









Passeando por Chelsea
Além de Chelsea, dei mais uma passada no Museu Britânico, mas dessa vez pouparei vocês dos detalhes. Mudando completamente de assunto, muito obrigado pelos e-mails reconfortantes ou informativos sobre a história do meu cartão clonado. Ainda não tenho notícias relacionadas a isso; quando as tiver, manterei-os informados.
Ontem - domingo, agora já é segunda - peguei um programa um tanto diferente e bem legal. Sara - uma amiga italiana - e eu fomos assistir à Filarmônica de Londres tocando ao mesmo tempo em que eram passados dois filmes mudos de Chaplin, um curta chamado Rink, e Tempos Modernos, sua obra-prima. E tava muito bala! Foi num teatro bem moderno que eu nem sabia que existia, chamado Sadler´s Wells, que fica num lugar um tanto escondido, no meio do bairro de Islington. O cara - Chaplin - era realmente muito bom! Para o meu espanto, aquela música bem conhecida, chamada "Smile", gravada por tantas grandes vozes, faz parte da trilha de Tempos Modernos e foi composta por ele. Ou seja, o cara era o ator principal, diretor, roteirista e, como se não bastasse, compositor! Não é a toa que é uma lenda até hoje.
Lembro-me nitidamente do meu vô ouvindo a Natalie Cole cantar Smile, na nossa antiga casa da praia, em Atlântida. Um dia ele me disse que Smile significava "sorrir" ou "sorriso", e essa talvez foi uma das primeiras palavras inglesas que aprendi. No final do filme, depois de Carlitos e sua namoradinha se darem mal várias vezes, a música começa a tocar e ele, apenas com gestos, diz para ela algo como: "Não importa se as coisas dão sempre errado, estamos juntos e isso já é o bastante" Então ele consegue arrancar um sorriso dela e os dois caminham ladeira abaixo, em uma estrada emoldurada por montanhas. Simples assim mesmo. Espero que eu não tenha frustrado alguns, contando o final do filme. Apenas supus que não seriam grandes as chances de assistir dos que ainda não o fizeram. Mas pensei errado, sempre há tempo.
Entretando infelizmente será mesmo difícil ter outra oportunidade de assistir um filme mudo de Chaplin acompanhado ao vivo por uma orquestra. Coisas que Londres propicia.
Bom, vou pra cama, já são 5 da manhã. O ônibus para Cambridge sai as 8:30 de Victoria, o que significa que terei de acordar as 6. Matemática simples: uma hora de sono! Tchau!
Fui e voltei! Neste entrelinhas se passou o dia inteiro, e que dia! Tivemos muita sorte com o tempo: apesar de um pouquinho frio - é fácil descobrir vendo meu casaco quase que polar - o dia estava lindo, sol do início ao fim! Fiquei acordado half an hour na cama até que pegasse no sono e acabei dormindo meia-hora só. Incrivelmente pontual, as 6h o despertador me chamou. Pegamos o coach em Victoria, como previsto acima, e a saída de Londres já foi um show à parte. O ônibus cruzou todo o centro costeando o rio e depois cortou a City, imagens simplesmente emocionantes! Como já disse outras vezes, não estou acostumado em presenciar o período da manhã nesta cidade, dado meus horários loucos. Então atravessar a cidade num início de manhã regado à luz do sol foi algo realmente wonderful. Apesar de já conhecer relativamente bastante o centro da cidade, deixei Londres me tocar mais uma vez.
Mas o destino era Cambridge, duas horinhas de viagem e lá chegamos nós: Chico, as 3 mineirinhas e eu. Passamos o dia lá e a cidade é realmente belíssima. Fundada pelos romanos no ano de não me lembro quando, posteriormente foi o local escolhido por dissidentes da Universidade de Oxford para se estabelecerem e darem seqüência as suas vidas acadêmicas. Criava-se aí, ainda em 1209, a semente para o que viria a se tornar a Cambridge University, umas das mais renomadas universidades do mundo. Esta instituição por sua vez é atualmente dividida em 31 colleges, que funcionam de maneira autônoma, mesmo molde da Oxford University. Caso vocês estejam lembrados, some months ago nós também estivemos passando o dia em Oxford. As cidades são indiscutivelmente muito semelhantes, mas Cambridge me pareceu mais bonita e muito mais simpática. Talvez quando estive em Oxford fosse período de férias, confesso que não me lembro, mas o fato é que Cambridge me pareceu muito mais viva, alegre... Sei lá.
Fizemos um tour a pé de pouco mais de duas horas com um guia local, um Sir muito elegante e atencioso. Vestia uma sóbria gabardine inglesa e ia só nos dando as barbadas da cidade: histórias da criação das colleges, detalhes arquitetônicos, panorama histórico, causos cômicos... Realmente valeu a pena!










Um dia em Cambridge
E então vou lhes contar breves detalhes. Conhecemos por exemplo a Trinity College, a maior e mais conceituada, onde Sir Isaac Newton gastou 30 anos de sua vida. Só essa college coleciona 31 Prêmios Nobel. Também conhecemos um PUB que tem 400 anos - isso no seu prédio atual, pois há indícios de que ali havia um PUB desde mil trezentos e pouco - e que era freqüentado por dois caras chamados James Watson e Francis Crick. Pois foi lá que esses caras, em 1953, anunciaram a descoberta do que chamaram de "Secret of Life", nada a mais do que o DNA.
Bom, eu poderia gastar mais palavras descrevendo o nosso maravilhoso dia, mas trocarei as palavras por muitas fotos, elas talvez falem mais alto. Voltando para Londres simplesmente desabei no banco do ônibus; eram horas de sono atrasadas reforçadas ainda com os efeitos de uma gloriosa pint que havia apreciado no PUB. Acordei com o ônibus rasgando a City mais uma vez, mesmo cenário da manhã com nova iluminação. Era noite e agora os edifícios modernos eram iluminados por seus próprios refletores. Andares inteiros ainda acesos me lembraram aquela cena de algum filme na grande metrópole. O motorista começou a passar pelas estações de metrô e perguntar se alguém queria pular fora. Dessa maneira não fomos até Victoria; Chico e eu descemos em Embankment Tube Station, beira do rio. Ele pegou o metrô e eu queria ir à casa do meu primo, ao lado de Waterloo Station, então atravessei o rio via Jubilee Bridge, linda e moderna ponte só para pedestres. Eu ainda estava tonto de sono, tinha acordado no ônibus repentinamente alguns minutos atrás. Atravessando a ponte ouvi um silêncio agradável, uma brisa batendo, o maravilhoso panorama da cidade numa noite de céu aberto, uma segunda-feira, as luzes refletindo no rio, o rio... Comecei a ouvir as notas de um violão. Pouco adiante, no meio da ponte, um músico de rua dedilhava Garota de Ipanema ao violão. Difícil descrever. E então acordei de vez e me dei conta que estava em Londres.
Um grande abraço para todos, com muita saudade,
Thomas