Mas tenho algumas coisas para contar sim. A começar que semana passada foi minha última semana de trabalho, última mesmo. Também foi a semana que mais trabalhei de todas e a que mais ganhei dinheiro também. Nada mal em fechar com chave de ouro – carteira lotada. Quem leu meu último e-mail talvez se recorde que eu havia comentado que tinha trabalhado no domingo, véspera de 1.º de maio, e que tinha sido muito bom, poucos riders na rua e tal. Pois então a semana passada começou já assim. Depois seguiram-se dias belíssimos, onde a temperatura aumentou consideravelmente, a ponto de eu conseguir trabalhar um dia de camiseta de manga-curta até o final da noite. Vocês podem achar isso banal, mas é que depois de ter pego o frio do inverno durante meses que pareciam intermináveis, na real eu talvez tenha ficado meio complexado, o que faz com que uma temperatura tão agradável, a ponto de se ficar de camiseta à meia-noite, seja o suficiente para me fazer comemorar.
E então seguiram-se dias quentes but no sábado, o derradeiro dia de trabalho, o que aconteceu? Choveu e fez frio. Assim, pedalei minha tão querida bicicleta por um último sábado, que foi como qualquer outro, exceto pela carga sentimental que foi aparecendo de repente. As horas foram passando, eu levando os clientes para lá, para cá, e comecei a notar que aquela seria a última vez que eu estava levando alguém para Victoria, ou para o Covent Garden, ou naquele hotel. E ao mesmo tempo em que eu queria que tudo acabasse para ter aquele sentimento de dever cumprido, queria que continuasse, mais rides, mais risadas, mais pessoas diferentes para bater-papo. A madrugada entrou, a chuva parou e de repente já era 4 e meia da manhã, horário que o centro já está quase que completamente vazio, só uns gatos-pingados, como diria minha mãe. Então fiz uma coisa muito legal: já amanhecia, aproveitei a cidade vazia – de pessoas e veículos –, peguei minha câmera de vídeo e fiz um filme, pedalando a bike mesmo, pelos lugares que tanto vão me deixar saudade. Resolvi que não podia deixar a memória começar a me passar pra trás daqui uns anos, apagando as cores e formas destes lugares. Porque às vezes achamos que nunca vamos esquecer das coisas, mas acabamos esquecendo dos detalhes. Prova disso são as nossas casas. A vida vai passando, vamos nos mudando e, depois de muitos anos, é difícil lembrar-se dos detalhes de cada peça da casa, como era o armário da sala, onde ficava a TV no quarto e assim por diante. Daí peguei minha câmera e eternizei. O caráter documental da fotografia, mas com som e movimento incluso.
Domingo comi uma feijoada muito boa na casa de uma amiga, a Rosangela, e estava fenomenal! Assim já entro na semana de número 42, que foi realmente muito corrida. Apesar de já estar oficialmente em férias, ainda tinha que resolver, comprar e escolher um monte de coisas. Mas foi uma semana - ou pelo menos metade dela - muito bala! Quarta-feira foi meu aniversário e então convidei uns amigos para fazer uma roda de violão lá no Hyde Park. Tava muito tri! O dia tava lindo, alto astral da gurizada, tranqüilidade, algumas Stellas, eu me empolgando – como sempre – ao violão... Até que não foi muita gente, mas o pessoal que foi era parceria mesmo. Prova de que tudo se renova, e as amizades também. Dessa vez não havia ninguém que veio comigo do Brasil – como já lhes contei, os guris todos já se mandaram –, apenas pessoas que fui conhecendo ao longo do tempo por essas terras. Nada mais do que a idealização daquilo que eu, meio cabisbaixo, auto-preconizava para vocês, talves 2 meses atrás: de que, na ausência nos meus amigões do peito, eu teria que encontrar novas pessoas, novas amizades.




Meu aniversário no Hyde Park
Era mais um ciclo simbolicamente se fechando. Entre tantos outros discos da minha vida que já tinham girado. O disco das conquistas dos primeiros meses, quando chegamos aqui e tivemos que praticamente começar tudo do zero. Aos poucos isso era passado: estávamos adaptados, empregados e, sobretudo, felizes. Depois o inverno viria e castigaria; as noites de trabalho que eram amenas no início passariam a ser insistentemente geladas e más. Mas a perseverança foi superior, e mais um disco girou: há pouco vocês liam meu brado acima, feliz pela simples utilização de uma camiseta durante toda noite de trabalho. Pode parecer besteira, mas era nitidamente o ciclo se fechando; era eu me lembrando que o clima das noites de agosto do ano passado, já uns tantos meses atrás, havia voltado. Nada mais nada menos do que o verão novamente. E dentre outros ciclos fechados ou se fechando, o da busca por novas companhias...
Assim esses dias se passaram, consegui fazer tudo que precisava, levei todas minhas bugigangas lá pro apartamento do meu primo, onde elas irão ficar até a minha volta. E agora estou aqui. Vejo na minha frente cidades e mais cidades espalhadas por vários países, e vejo também a realização de uma grande etapa da minha vida. Os próximos dois meses serão literalmente, por mais clichê que pareça, conseqüência das gotas de suor que rolaram enquanto eu pedalava por aí. Agora sou eu, meu mochilão e a vontade de curtir tudo isso!
Vocês também poderão curtir umas férias de mim, pois não tenho intenções de seguir com meus boletins, ao menos nas próximas 5 semanas. Quero férias completas: estudo, trabalho, tecnologia. Depois, já em Londres, dou as caras.
Antes de me despedir, queria só relembrar o meu roteiro, caso alguém esteja curioso. Espero que não enxerguem algum grau de exibicionismo nisso; sei que facilmente as pessoas tendem a encarar dessa maneira. Primeiro passarei 4 dias na Irlanda, depois mergulho na Espanha e volto à superfície em Portugal. Sigo para Paris, um baguete com aquela manteiga que só eles sabem fazer, e sigo para Praga. Então faço as duas últimas cidades: Viena, na Áustria, e Budapeste, Hungria. And that´s it.
Fico por aqui nesse e-mail mais que pobre. Amanhã faço o happy hour em algum truly Irish Pub, provavelmente sozinho, tomando algumas Guiness. E brindarei, mesmo que on my own, a todos vocês. Pois assim como sei que estarei sozinho nas próximas semanas, sei também que muitos de vocês estarão freqüentemente me fazendo companhia, lá naquele lugar que nós chamamos de mente, e que um inglês sonoricamente diria: "on my mind". Um grande abraço para todos, com muita saudade,
Thomas



